Só Rio

Maria da Conceição Tavares 140814

Fui almoçar com minha Professora Maria da Conceição Tavares justamente no dia que tinha sido publicada a foto acima, tirada antes de sua participação no seminário “Brasil em Perspectiva II”, organizado pelo Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI, no Rio de Janeiro. Não fui convidado para tal seminário. Foi bom, pois em vez de “falar mais conosco mesmo”, dei uma palestra na Mackenzie-Rio para um número muito maior de estudantes da Zona Norte e dos suburbios cariocas.

Mas a Professora e eu sorrimos um para o outro quando comentamos a manchete logo abaixo dessa cobertura: “Para economistas, baixa poupança é obstáculo ao crescimento”. Isto quando a relação crédito / PIB se elevou de 23% para 56% em dez anos…

Ignorância é motivo de riso? Não. O sorriso foi porque quem afirmou tal asneira pré-keynesiana foi economista neoclássico em um seminário supostamente de pós-keynesianos! Entendeu? Não? Eu também não, então, só-rio!

Segundo Juliana Elias (Valor, 15/08/14), o baixo nível de poupança do Brasil foi destacado por alguns economistas como um dos maiores entraves aos investimentos, à recuperação da indústria e, principalmente, ao crescimento da economia com taxas mais robustas. O assunto foi destaque no ciclo de debates promovido em São Paulo pela Associação Keynesiana Brasileira (AKB). Não basta a ANPEC, também essa Associação foi invadida por neoclássicos!

“Se o Brasil tivesse a mesma poupança que a da China, seu PIB seria 10% maior hoje” [?!], ressaltou o economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Samuel Pessôa. A poupança nacional brasileira – a soma de tudo que as pessoas, as empresas e o governo economizam de sua renda – gira em torno dos 15% do PIB, enquanto na China e em outros asiáticos essa proporção passa dos 40%. Ele explica que um ciclo de crescimento longo e sustentável passa, em um primeiro momento, pelo aumento da renda, e, em um segundo, pelo aumento da poupança, o que mantém a liquidez em alta e continua sustentando novos investimentos. “No Brasil não se chega nessa etapa. Sempre que o crescimento se acelera, se aloca um parte da renda para o consumo”, disse.

“Ninguém fica rico com a poupança dos outros”, disse Fernando de Holanda Barbosa, pesquisador da FGV e secretário de política econômica do governo Itamar Franco, lembrando que pouca liquidez interna significa dependência de capital estrangeiro. “O Brasil precisa seguir o modelo asiático: poupança elevada, educação de primeira e investimentos em infraestrutura.”

O consumo, no entanto, não precisa necessariamente ser visto como um entrave à poupança. Levantamento feito por outro professor da FGV, Nelson Marconi, com base nas médias das contas nacionais de 2000 a 2009, revelou que 67% da poupança nacional é formada pelo capital de empresas. “Ou seja”, disse Marconi, “não podemos discutir o consumo só como inimigo. O grosso da nossa poupança vem dos lucros das empresas, e é assim em outros países também. E elas precisam que as pessoas consumam para que tenham lucros, poupem e invistam.”

O debate ontem também envolveu a questão da desindustrialização brasileira. José Luís Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da AKB, lembrou que o país passa por uma “desindustrialização precoce“. Isso, segundo ele, é um fenômeno negativo no país, que vem, entre outros aspectos, acompanhado da doença holandesa, que ocorre com países onde a abundância de recursos naturais conduz a taxa de câmbio a uma sobrevalorização, que, como consequência, tem um efeito negativo sobre os produtos industriais, reduzindo sua competitividade e diminuindo a participação da indústria na economia.

Oreiro explica que há a desindustrialização positiva, que marcou o processo dos países desenvolvidos e se caracteriza pela transferência do parque industrial para países de custo mais baixo e da elevação do nível de tecnologia dos manufaturados na pauta de exportação industrial restante. Mas este não é o caso do Brasil, diz, onde a desindustrialização não só começou antes de o país de fato atingir uma alta renda per capita, como também mostra uma “reprimarização” da pauta de exportação.

Segundo levantamento feito por Marconi, a renda per capita nos principais países desenvolvidos nos anos 70, quando a indústria passou a perder participação em seu PIB, ia de US$ 8 mil ao ano a US$ 12 mil ao ano, feito o ajuste por paridade de compra. No caso do Brasil, a curva de participação da indústria dentro da economia começou a se inclinar para baixo nos anos 90, quando o PIB per capita do país era de US$ 4 mil.

É de chorar de rir, não? Ou só chorar… 🙂

Obs.:

Apesar do investimento (FBCF) ter crescido bem acima do PIB, a taxa de investimento do Brasil não aumentou, substancialmente, devido à redução do preço relativo dos “bens investimento” (apreciação cambial e desonerações tributárias). Considerando a taxa de investimento a preços constantes, que é o correto do ponto de vista do crescimento, houve aumento de 4,5 pp do PIB desde 2002. E a poupança, hein? 🙂

4 thoughts on “Só Rio

  1. Caro Fernando,

    Poderia explicar por qual motivos entende que a taxa de crescimento do investimento nada tem a haver com o crescimento do nível de investimento ??

    E, afinal, qual é a relação real entre taxa de investimento ? PIB ??

    Obrigado e um abraço

    • Prezado Hilario,
      esta importante informação eu obtive em uma palestra do Nelson Barbosa.

      Apesar do investimento (FBCF) ter crescido bem acima do PIB, a taxa de investimento do Brasil não aumentou, substancialmente, devido à redução do preço relativo dos “bens investimento” (apreciação cambial e desonerações tributárias). Em outras palavras, a proporção FBCF/PIB cresceu, porém como os preços dos “bens de capital” importados e produzidos nacionalmente caíram, relativamente ao IGP, a taxa não cresceu tanto como era de se esperar com tantas obras públicas em andamento.

      Considerando a taxa de investimento a preços constantes, que é o correto do ponto de vista do crescimento, houve aumento de 4,5 pp do PIB desde 2002. Se considerássemos um índice de quantum, i.é, da quantidade de bens de investimentos, provavelmente, seria revelado um aumento mais significativo na relação índice de quantum dos bens de investimento / índice de quantum dos demais bens de produção.
      att.

  2. Caríssimo Fernando,

    Se existe um cara (claro existem muitos outros também….) mas repito, se existe um cara que honra a nossa profissão é Você, erudito no campo e fora de nosso campo, trabalhador, obra consolidada, passagem impecável no setor público, exímio professor….Tenho orgulho de ter sido seu aluno e de ser seu amigo…..

    Forte abraço

    • Prezado José Márcio,
      se existe um caro generoso e carinhoso é você!

      Tanto incentiva as pessoas que foi o editor do meu primeiro livro — Ensaios de Economia Monetária (Educ, 1992) — em ato de coragem em favor de um autor totalmente desconhecido.

      Sou eternamente grato a ti.
      Abraço

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