Intuições e Conceitos: Crítica da Razão Pura por Kant

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Em sua obra mais famosa, Crítica da Razão Pura (1781), Kant argumenta que nossa experiência de mundo envolve dois elementos:

  1. sensibilidade”: nossa capacidade de experimentar diretamente coisas particulares no espaço e no tempo – essa experiência direta ele chama de intuições.
  2. entendimento” – nossa capacidade de ter e usar conceitos, que é uma experiência indireta com as coisas.

Sem conceitos não saberíamos que nossa intuição era a de um determinado objeto.

Sem intuições, nunca saberíamos que existem essas coisas.

Cada um desses elementos tem, por sua vez, dois lados:

  1. na sensibilidade está a minha intuição de uma coisa particular no espaço e no tempo e a minha intuição de espaço e tempo como tal.
  2. no entendimento está o meu conceito de algum tipo de coisa e meu conceito de uma “coisa” como tal substância.

Um conceito como substância define o que significa ser uma coisa em geral, em vez de definir algum tipo de coisa.

Minha intuição de uma coisa e o conceito de uma coisa são empíricos. Como eu poderia saber qualquer coisa sobre certas coisas a menos que tivesse deparado com elas no mundo?

Mas minha intuição de espaço e tempo e o conceito de substância são a priori. Isso significa que eles são conhecidos antes ou independentemente de qualquer experiência empírica.

Um empirista verdadeiro argumentaria contra Kant que todo o conhecimento provém da experiência dos sentidos. Em outras palavras, nada é a priori.

Ele poderia dizer que aprendemos o que é espaço ao observar as coisas no espaço, e que aprendemos o que é substância a partir da nossa observação de que as características das coisas mudam, sem que a própria coisa fundamental mude.

Os argumentos de Kant mostraram que, ao contrário, o espaço é uma intuição a priori. A fim de conhecer as coisas fora de mim, preciso saber que elas estão fora de mim.

Como posso localizar algo fora de mim sem saber anteriormente o que “fora de mim” significa? Algum conhecimento de espaço tem de ser admitido antes mesmo que eu possa estudar o espaço empiricamente. Devemos estar familiarizados com o espaço a priori.

Como o próprio espaço é a priori, não pertence às coisas do mundo. Mas a experiência de coisas no espaço é uma característica da sensibilidade.

Uma coisa em si – termo kantiano para algo que é considerado em separado da sensibilidade e, portanto, exterior às nossas mentes – pode não ter nada a ver com o espaço. Kant usou argumentos similares para provar o mesmo em relação a o tempo.

Kant, então, se dedicou a provar a existência de conceitos a priori – como a substância. Deve-se distinguir dois tipos de alteração:

  1. variação: diz respeito às propriedades que as coisas têm;
  2. mudança: é o que as coisas fazem.

Fazer essa distinção já é usar a noção de substância: a substância muda, mas as propriedades da substância variam.

É equivocado dizer que, em qualquer instante em que existe uma alteração, algo “aparece ou desaparece”. A chave para entendimento disso é a determinação do tempo.

O tempo não pode ser sentido diretamente. Em vez disso, sentimos o tempo através das coisas que se alteram ou não se alteram, como vimos a demonstração de Kant no post anterior.

Se sentimos o tempo através da mudança da substância e também sentimos o tempo através das variações das suas propriedades sem que exista qualquer conexão entre as duas alterações, então estaríamos sentindo dois tempos reais separados. Já que isso é absurdo, Kant acreditou que tivesse demonstrado que o conceito de substância é absolutamente essencial antes de adquirirmos qualquer experiência de mundo.

Já que é pela experiência dos sentidos que apreendemos qualquer coisa empírica, o conceito de substância não pode ser empírico. Mais exatamente, é a priori.

CKD: Como Kant Demonstrou…

Fonte: O Livro da Filosofia. São Paulo; Globo; 2011.

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3 thoughts on “Intuições e Conceitos: Crítica da Razão Pura por Kant

  1. Prezado Fernando,

    Kant revolucionou a maneira de pensar, imagine que a Idade Média impôs um ônus cruel para a humanidade, fazendo-a dormir um sono dogmático durante um milênio. Nesse período, a invenção de Deus tornou-se tão profunda que quase nada se produziu em matéria de progresso.

    No último século o pensamento ganhou novas camadas e hoje temos algo que não existia no período de Kant, as interfaces (meios planejadamente dispostos sejam eles físicos ou lógicos com vista a fazer a adaptação entre dois sistemas) tecnológicas que ampliam exponencialmente a aquisição de conhecimento.
    Exemplos dessas interfaces: rádios telescópios, telescópios, microscópio de tunelamento eletrônico, LHC (Grande Colisor de Hádrons), passando para a internet, computadores, Smartphones e nossos dispositivos Wearables (vestíveis).

    Faz quatro meses que estou usando o Samgung Galxy Gear, um dispositivo vestível (Wearable) em formato de relógio que gera as seguintes funcionalidades: recebe mensagens que chegam via email, conta quantos passos eu caminho durante o dia, mostra previsão do tempo, avisa sobre compromissos na agenda, posso atender ligações que chegam ao smartphone e falar diretamente com quem ligou sem precisar pegar o smartphone que precisa estar até 10 metros de distância desse dispositivo que fica no meu pulso. E ainda tira fotos.

    Conheça o Edison: http://youtu.be/bPLdgvFDfz8 um computador completo do tamanho de um cartão SD. Oferecerá uma interface para outros dispositivos vestíveis ou úteis como: canecas, sensores de sono para bebes, dispositivos que auxiliam idosos que poderão receber de seus médicos todo o acompanhamento via remoto, etc.

    Baixe o livro: Critica da Razão Pura – Immanuel Kant.epub: http://www2.zippyshare.com/v/33695113/file.html

    Aproveitando para dizer que “Epub” é mais uma interface de leitura leve, flexível e muito prática. Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      grato pelas dicas.

      Acho que no dia 9 de setembro a Apple lançará seu iWatch, não? Aguardemos… Sou applemaníaco! 🙂

      Eu uso há anos meu iPod Nano com uma pulseira de relógio. Usei tanto que no último carregamento ela se rompeu!

      É impressionante a diferença entre os tamanhos dos arquivos epub e pdf. É possível ter uma biblioteca de epub em um pequeno pendrive!

      abs.

      • Caro Fernando,

        É difícil não aderir às novas tecnológicas, principalmente agora que a Apple resolveu aumentar a tela do iphone (dia 09 devem fazer o anúncio oficial), eu por razões profissionais uso o Galaxy S5, pois a bateria desse aparelho dura um dia inteiro de trabalho e raramente preciso procurar tomadas ou conectar em baterias extras, outro recurso útil é a tela ser de 5 polegadas, para ler Epubs é maravilhoso. A Apple deve lançar o iWatch com muitos recursos esperados. Este mês a Samsung também deve lançar o note 4, é um mês com muitas novidades em tecnologia.

        Os Epubs são arquivos texto é por isso que são pequenos e portáveis, já os Pdfs são vetorizados e qualquer imagem interna gera um peso (tamanho) excessivo ao arquivo. É fácil perceber a diferença: ao aumentar os caracteres de um arquivo em Epup, você aumenta somente a fonte, no caso dos Pdfs você terá de aumentar a página inteira. Em um pendrive de 8 GB cabem milhares de arquivos em Epup. Abs.

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