Limites do Conhecimento: Idealismo Transcendental

Kant_Immanuel

A posição filosófica que sustenta que certo estado ou atividade da mente é anterior e mais fundamental do que as coisas experimentadas é chamada de idealismo. Kant nomeou sua própria posição de idealismo transcendental.

Ele insistiu que espaço, tempo e certos conceitos são características do mundo que experimentamos, ou seja, do mundo fenomenal, em vez de características do mundo em si, considerado separadamente da experiência dos sentidos, ou seja, referente ao mundo numênico. Este adjetivo refere-se a númeno ou numenal.

No kantismo, númeno é a realidade tal como existe em si mesma, de forma independente da perspectiva necessariamente parcial em que se dá todo o conhecimento humano. A coisa em si é nômeno, noúmeno. Embora possa ser meramente pensado, por definição é um objeto incognoscível. Estabelece-se por oposição a fenômeno.

As alegações sobre o conhecimento a priori têm consequências positivas e negativas.

A positiva é que a natureza a priori de tempo, espaço e certos conceitos torna possível nossa experiência de mundo. Espaço e tempo tornam experiência numérica (ou matemática) da natureza: podemos medi-la segundo valores conhecidos. Conceitos a priori como substância tornam possível fazer perguntas sobre a natureza, tais como:

  • Isso é uma substância?
  • Que propriedades elas exibem e de acordo com quais leis?

Em outras palavras, o idealismo transcendental de Kant torna possível que nossa experiência empírica seja considerada útil para a Ciência.

Do lado negativo, certos tipos de pensamento intitulam-se Ciência, tal como a “Ciência Econômica”, mas fracassam completamente. Isso ocorre porque aplicam a coisas em si intuições sobre espaço e tempo ou conceitos como substância. Por exemplo, pregam o entendimento das economias periféricas com os mesmos conceitos abstraídos das economias centrais, ou seja, em um espaço e em um tempo completamente distintos dizem generalidades.

A substância é o capitalismo, mas as propriedades desse capitalismo variam enormemente no tempo e no espaço. Temos, então, de considerar as variedades do capitalismo para aplicar conceitos adequados à cada realidade experimentada.

De acordo com Kant, isso que deve ser válido para a experiência empírica não tem validade em relação a coisas em si. Como se parecem com Ciência Pura, esses tipos de pensamento são uma tentação constante para os economistas ortodoxos e uma armadilha que muitos desavisados caem sem perceber.

Por exemplo, muitos crentes podem desejar afirmar que “Deus” (ou “O Mercado”) é a causa do mundo. Mas causa e efeito é outro conceito a priori, como substância, que Kant acredita ser válido apenas para o mundo percebido, mas não para coisas em si.

Então, a existência de Deus ou O Mercado, considerado, como geralmente é, um ser independente do mundo conhecido – um conceito metafísico que, como tal, pode existir em qualquer tempo e lugar – não é algo que possa ser conhecido. A consequência negativa da Filosofia de Kant, então, é colocar restrições severas aos limites do conhecimento.

O idealismo transcendental proporciona um meio radical de compreender a distinção entre nós mesmos e o mundo externo. O que é externo a mim (Deus ou O Mercado) é interpretado não apenas como externo a mim no espaço, mas externo ao próprio espaço e ao tempo, e a todos os conceitos a priori que tornam nossa experiência do mundo possível.

Existem dois mundos:

  1. o mundo da experiência, que inclui meus pensamentos e sentimentos, e também a experiência das coisas materiais, como meu corpo ou mercadorias; e
  2. o mundo das coisas em si, que não é precisamente sentido e, assim, não pode de modo algum ser conhecido, portanto, devemos lutar constantemente para evitar que nos enganemos com ele.

Nossos corpos têm um papel curioso a desempenhar em tudo isso.

  • Por um lado, meu corpo, como coisa material, é parte do mundo externo.
  • Por outro lado, o corpo é parte de nós e o meio através do qual encontramos outras coisas pelos nossos sentidos.

Isso nos dá uma oportunidade de compreender a distinção entre corpos e mundo externo: o corpo como o meio das minhas sensações é diferente de outras coisas externas e materiais.

Antes de Kant, os empiristas enfatizaram o que ele denominou sensibilidade, mas os racionalistas tenderam a enfatizar o entendimento. Kant argumentava que nossa experiência de mundo sempre envolve ambos, então, é dito com frequência que ele combinou o racionalismo e o empirismo.

A crítica de Kant ao pensamento metafísico foi importante para o positivismo. Ele sustentava que toda assertiva justificável é passível de verificação científica ou lógica.

Os fenomenologistas do século XX procuraram investigar os objetos da experiência independentemente de quaisquer suposições que possamos ter a respeito deles. Os desenvolvimentistas, por exemplo, percebem as variações do capitalismo na periferia, elas constituem capitalismo de Estado diferente do capitalismo liberal do centro.

Em síntese final:

  1. Racionalismo: acredita que o uso da razão, em vez da experiência, leva à compreensão dos objetos no mundo;
  2. Empirismo: acredita que o conhecimento provém da experiência dos objetos no mundo, em vez de originar-se da razão;
  3. Idealismo Transcendental: Kant afirma que tanto a razão quanto a experiência são necessárias para compreender o mundo.

Fonte: O Livro da Filosofia. São Paulo; Globo; 2011.

Leia maisO Pensar, O Querer e O Julgar

2 thoughts on “Limites do Conhecimento: Idealismo Transcendental

  1. Diante tantos equívocos, atenho-me em criticar o mais grotesco: dizer que Deus e o mercado equivalem a um mesmo conceito metafisico. Ora, mercado nada mais é uma ação inata ao ser humano, este enquanto sendo portador da faculdade racional. O mercado pode ser classificado, quando agregado, ao ramo de estudo da ciência econômica, sendo está classificada, conforme as Proposições Sintéticas e Apriorísticas de Kant, como um Julgamentos sintéticos a priori. Desta forma se demonstra como, epistemologicamente, o método praxeológico é o correto a ser utilizado nas ciências sociais e em nada tem transcendental. Já o idealismo transcendental de Kant é, segundo o mesmo, embora não tenha demonstrado logicamente, (ou seja é uma posição pessoal) que questões de ordem metafisicas, ou melhor dizendo, de filosofia transcendental, não encontram respostas adequadas dos filósofos, pois tal solução demandaria recursos que ultrapassam as capacidades do intelecto humano. Eis o surgimento do pseudo embasamento do relativismo moral posterior a Kant, expandido em toda teoria falha marxista (oriunda do conceito errado de valor trabalho, uma vez que o valor logicamente correto é o subjetivo) e, em última, ao desenvolvimentismo. Porém, tal posicionamento pessoal de Kant, é um erro lógico, já que sim, é possível demonstrar a existência de Deus por meio do estudo lógico-filosófico, sendo Santo Agostinho, e principalmente São Tomás de Aquino os principais expoentes da demonstração axiomaticamente irrefutável da existência de Deus. Há também o excepcional trabalho do filósofo brasileiro Mario Ferreira dos Santos e sua filosofia concreta nesse sentido.

    • Prezado Amorim,
      diante de tanta sapiência erudita a ser demonstrada você falha na capacidade de comunicação com leigos. No popular, “não entendi bulufas do que você disse”!

      Só percebi que, apresentando-se como “dono da verdade”, classificou tudo que você discorda como “equívocos”.

      Mas não conseguiu falsear o seguinte em termos racionais e sem “argumento de autoridade”: é ilógico dizer que há um ser sobrenatural onisciente e onipotente ao mesmo tempo. Se ele sabe tudo que ocorrerá no futuro ele não terá o poder de mudar o futuro, senão cometerá um erro de previsão e deixará de ser infalível.

      Diante de suposto caráter sobrenatural de qualquer deus, só O Mercado assim é tratado por seus idolatras por questão de crença — ou má fé.

      É simples assim. Quer que desenhe?
      🙂

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