Individualismo do Criador X Altruísmo do Parasita

Ter empatia — processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro — é necessário para verificar se vale a pena ter uma atitude cooperativa com seu adversário em um jogo de antagonismo. É uma forma de cognição do eu social mediante três aptidões:

  1. para se ver do ponto de vista de outrem,
  2. para ver os outros do ponto de vista de outrem, ou
  3. para ver os outros do ponto de vista deles mesmos.

Essa atitude não implica em ter simpatia — afinidade moral, similitude no sentir e no pensar que aproxima duas ou mais pessoas ou a faculdade de compenetrar-se das ideias ou sentimentos de outrem. Não tenho atração por discursos de ódio como o anticomunista e/ou o anticoletivista. Mas Ayn Rand tem muita capacidade de formular uma argumentação inteligente a favor do criador independente, que se apresenta como individualista, e contra o parasita, que se diz altruísta.

Gosto da postura independente. Acho intelectualmente necessário submeter, de tempo em tempo, minhas ideias a um processo de autosubversão, ou seja, de testes de minhas hipóteses para verificar se elas se sustentam de maneira racional para mim. Ler os adversários e verificar se é o caso de rever meus conceitos — meus, individuais e intransferíveis na responsabilidade pessoal de adotá-los.

Por exemplo, pelo que vi do Programa do PSB e das declarações do Eduardo Giannetti, assusta-me vislumbrar o ultraliberalismo ganhando eleição no País. Alternância de poder exige buscar criar um consenso social em torno das ideias oposicionistas. Será que todos os eleitores conhecem e medem as consequências práticas das ideias ultraliberais dos assessores econômicos da Marina Silva? Ela própria sabe o que virá caso seja eleita?

Os livros de Ayn Rand têm o maior sucesso editorial nos Estados Unidos depois da Bíblia. Li (e gostei de) o romance A Nascente – Ayn Rand. Queria conhecer a razão do individualismo ter tantos adeptos lá — e catequizar discípulos acá no Instituto Ludwig von Mises, Instituto Millenium, PUC-Rio e coisas como tais…

Objetivismo

“Minha filosofia, na sua essência, é o conceito de Homem como um ser heróico, tendo a felicidade como o propósito moral da sua vida, a conquista produtiva como sua mais nobre atividade, e a razão como seu único referencial.” – Ayn Rand,  A Revolta de Atlas

Objetivismo é a filosofia do individualismo racional fundado por Ayn Rand (1905-1982). Em romances como A Nascente e A Revolta de Atlas, Rand dramatiza seu homem ideal, o produtor que vive por seu próprio esforço e não dá nem recebe o imerecido, que honra as conquistas e rejeita a inveja. Rand estabelece os detalhes de sua visão de mundo em livros de não ficção como A Virtude do Egoísmo e Capitalismo: O Ideal Desconhecido.

Objetivismo sustenta que não há nenhum objetivo moral maior do que atingir a felicidade. Mas ninguém pode alcançar a felicidade por desejo ou capricho. Fundamentalmente, isso requer respeito racional pelos fatos da realidade, incluindo os fatos a cerca da nossa natureza humana e necessidades. Felicidade requer que se viva por princípios objetivos, incluindo integridade moral e respeito pelos direitos de outros.

Politicamente, objetivistas defendem o capitalismo laissez-faire. Sob o capitalismo, um governo estritamente limitado a proteger o direito de cada um a vida, liberdade e propriedade proíbe que qualquer um use de força contra outros. Os heróis do objetivismo são empreendedores que criam negócios, inventam tecnologias, criam arte e ideias, dependendo dos seus próprios talentos e das trocas com outras pessoas independentes para alcançar seus objetivos.

O objetivismo sustenta que o universo é aberto para as criações humanas e felicidade e que cada pessoa tem consigo um ego para viver uma vida criativa, realizada e independente. Essa mensagem permeia os romances randianos, os quais continuam a vender centenas de milhares cada ano para pessoas atraídas pelo incentivo à busca de independência pessoal através de sua própria criatividade.

Qual é a visão objetivista da realidade?

A realidade existe como um absoluto objetivo – fatos são fatos, independente dos sentimentos, desejos, esperanças ou medos do homem.

(Ayn Rand, “Introducing Objectivism,”The Objectivist Newsletter Vol. 1 No. 8, August 1962, p. 35

Objetivismo parte da realidade objetiva em que vivemos. Ela é o que é; não o que um coletivo acha (ou determina) o que deveria ser. Nosso trabalho é conhecer o mundo, mas não nos submeter a ele tal como um parasita.

O objetivismo é contra todas as formas de relativismo metafísico ou idealismo. Ele sustenta como inegável que os humanos têm livre arbítrio, e se opõe ao determinismo metafísico ou ao fatalismo. De modo geral, ele sustenta que não existe contradição fundamental entre o livre e abstrato caráter da vida mental e o corpo físico em que reside. E assim nega a existência de qualquer dimensão “sobrenatural” para espíritos ou almas.

Relativismo e Realidade Objetiva:

Os idealistas afirmam que nós criamos a realidade com palavras, em nossas próprias mentes. Este ponto de vista é um exemplo de uma posição que polariza, na Filosofia Ocidental, com o materialismo dialético: o relativismo metafísico ou o idealismo. É a visão que, em ultima análise, nada é real exceto em relação a nossa percepção ou pensamento disso.

Mas a realidade não é uma função das nossas ideias. Ela existe, e é o que é, independente do que nós querermos que seja ou não. Negar isto é intelectualmente equivalente a fechar os olhos enquanto dirige em uma rodovia. Acidentes de carro não acontecem só porque acreditamos que eles aconteçam; muitas vezes eles acontecem mesmo quando desejamos que não.

Fatos são fatos, independente de nós. É por isso que acontecem coisas que nos surpreendem. É por isso que a ciência tem sido o processo de estabelecimento da verdade sobre a natureza sem considerar nossos preconceitos. Coisas na realidade tem propriedades reais e exercem poderes causais sem levar em conta a nós e ao nosso conhecimento delas. Ayn Rand resumiu esta atitude da realidade como o principio da primazia da existência.

Como Ayn Rand escreveu em “The Metaphysical Versus the Man-Made” (Philosophy: Who Needs It):  a primazia da existência (da realidade) é o axioma que constata que a existência existe, ou seja, que o universo existe independente da consciência (de qualquer consciência), que as coisas são o que são, que elas possuem uma natureza especifica, uma identidade.

O corolário epistemológico é o axioma de que a consciência é a faculdade de perceber o que existe – e que o homem ganha conhecimento olhando para seu exterior. Consciência (ou seja, a mente) é na sua essência uma faculdade de consciência (conhecimento, sensibilidade). Nós estamos conscientes do mundo ao nosso redor através de percepções sensoriais, é claro, mas mesmo em nosso conhecimento abstrato e teórico nós funcionamos principalmente através da identificação de como as coisas são.

Livre Arbítrio X Determinismo:

Através de nossos sentidos, nós vemos e sentimos um mundo material. Ele tem características físicas, tais como forma e massa. Mas nossos pensamentos parecem livres: nós escolhemos por nossas próprias faculdades mentais o que devemos fazer, até mesmo como devemos mover nossos corpos, e podemos vaguear com nossas mentes em mundos de fantasias e imaginação que nunca existiram. Mas nós podemos convencer nossas mentes, sem hesitação, a fazer o que devemos, mesmo que isso custe nossas vidas.

Muitos filósofos e cientistas acreditam no determinismo metafísico. Esta é a ideia de que tudo na existência advém inevitavelmente de causa e efeito. De acordo com o determinismo, o universo foi posto em movimento de alguma forma, talvez em um Big Bang, talvez por Deus, e tudo que aconteceu desde então tinha que acontecer; nada mais era possível, o resultado era determinado.

Neste ponto de vista, podemos sentir como nós fazemos escolhas, mas por trás de nossas escolhas reside um processo que funciona como um relógio: nosso desenvolvimento genético, fatores sociais e ambientais, etc. Qual seja a historia causal dada, nessa visão, nossas ações e até mesmo nossos pensamentos acontecem na única e absoluta forma que poderiam ocorrer.

Objetivismo sustenta, em contraste, que o homem tem livre arbítrio. Nós temos capacidade de escolha, não sobre todos os aspectos da existência, é claro, mas na gama de ações dentro do nosso poder. Todos os dias fazemos coisas que nós podíamos ter feito diferente. Nossa liberdade de escolher nossas ações é a essência do que significa ser humano: ela é a base de nossa necessidade por orientação moral e é a principal causa de nossa  falibilidade, mas é também a raiz de nossa capacidade de progredir imaginando e criando melhorias nas formas brutas da natureza.

O fato do livre arbítrio é óbvio; cada um de nós sabe que temos a capacidade de controlar nossas próprias mentes, para concentrar nossos pensamentos em uma questão ou outra, e para dirigir nossas próprias ações. Alguns temem que por admitir que se tenha livre arbítrio estaremos negando a casualidade, rejeitando assim a visão cientifica do mundo. Afinal, a ciência tem demonstrado tacitamente que a maioria das coisas na realidade funciona deterministicamente.

Mas a ideia de livre arbítrio não nega a casualidade ou a ciência, ela apenas aponta que, pelo menos, algumas das coisas que você faz, você é a causa (agente). Nós ainda não podemos entender cientificamente como a química do cérebro e do sistema nervoso dão origem a esta capacidade, mas a ciência não elimina as causas reais da existência, aquilo que nós experimentamos a todo momento; ela as explica.

Mente e Corpo:

O que nós chamamos de mente é o conjunto de capacidades para estar ciente, de perceber o mundo, de sentir, de valorar, de fazer escolhas. Como essas capacidades surgem? Em muitos aspectos, a resposta para esta questão deve vir da ciência e não da filosofia. Mas tudo o que sabemos indica que elas são o produto da evolução biológica e que elas dependem de nossos órgãos de sentidos físicos e cerebrais, bem como as muitas outras estruturas de apoio que o corpo fornece.

O que nós chamamos de nossas necessidades espirituais, ademais, não está em conflito com nossas necessidades físicas e biológicas. Elas estão enraizadas na mesma necessidade básica de manter nossas vidas através da ação intencional. Os seres humanos não têm impulsos instintivos suficientes para viver sem penar, aprender e fazer escolhas. A razão é a nossa ferramenta mais importante para sobreviver. Mas ela é uma ferramenta complexa e altamente exigente. De acordo com o Objetivismo, nossas necessidades espirituais por valores, princípios, ideais, experiências estéticas e amor são requisitos para um funcionamento saudável de um modo racional e volitivo da cognição.

No decorrer da vida, nós todos encontramos conflitos específicos entre nossos valores espirituais e físicos, mas não há um inerente conflito global entre esses aspectos da nossa natureza. Na verdade, nossas atividades mais importantes servem as necessidades do corpo e da alma, conjuntamente. Nós vivemos melhor quando razão e emoção estão em harmonia, por exemplo. Nós conhecemos o verdadeiro amor quando nós combinamos estima mental com paixão física. Trabalho produtivo é tanto um meio para ganhar nosso pão quanto uma expressão de nosso poder criativo.

Natural X Sobrenatural:

A ideia de exaltar o espírito sobre a existência material do corpo tem sido fortemente ligada no pensamento religioso à ideia de que existem algumas realidades além do mundo material que conhecemos através dos nossos sentidos, um mundo que nossos espíritos desejam como uma fuga das necessidades do corpo e as limitações da realidade física. Em muitas tradições, este é o paraíso, um lugar acima de qualquer lei física, onde o espírito possa viajar e em que muitas ou todas as coisas são possíveis. Muitas religiões atribuem esse tipo sobrenatural de existência, essa existência além da natureza, ao seu Deus ou deuses.

O Objetivismo sustenta que é simplesmente absurdo falar de qualquer coisa “sobrenatural” – literalmente além ou acima da natureza. O termo “natureza”, em seu sentido mais amplo, se refere ao mundo que percebemos, o mundo dos objetos que interagem de acordo com a lei causal. Se descobríssemos alguma dimensão ou universo que tivesse propriedades diferentes do ambiente em que nós vivemos, ele ainda faria parte da natureza. Se nós pudéssemos descobrir isso e isso pudesse nos afetar, isso teria algumas propriedades reais e especificas e deveria interagir com o nosso mundo de alguma forma.

Presume-se que o sobrenatural está além da compreensão humana, existindo de nenhum modo particular, afetando nossa realidade miraculosamente, acima de todas e quaisquer leis físicas. E de fato, supernaturalistas dão grande destaque às áreas em que a ciência está em silêncio:

  1. ou porque a questão não é realmente cientifica
  2. ou porque o júri cientifico ainda não se pronunciou.

É como se eles se ofendessem com a ciência por ela ainda não ter explicado cada questão para a sua satisfação, e ainda insistem que suas crenças mais preciosas são imunes ao escrutínio racional.

Na verdade, o sobrenaturalismo equivale a uma defesa descarada de contradições. Mas, como Ayn Rand apontou repetidamente, contradições podem existir só na mente humana, não na realidade como tal. Nenhum fato é essencialmente contraditório.

Então, não há mundo além da natureza, nem qualquer vida além desta. Mas em contraste com a visão sobrenaturalista da natureza como um vale de lágrimas, uma prisão opressiva para a alma, o Objetivismo sustenta que vivemos em um “universo benevolente.”

Somos seres bem adaptados para o mundo real em que vivemos, com o livre arbítrio para trilhar nosso próprio caminho e a capacidade de alcançar a felicidade e até mesmo a exaltação. A realidade não nos protege, e não há nenhuma razão para pensar que qualquer divindade o faça.

De fato, temos que observar a realidade, como Ayn Rand reconheceu quando ela resumiu sua metafísica com o dito de Francis Bacon: “A natureza, para ser comandada, deve ser obedecida.” Mas nós podemos comandar a natureza, e isso é que faz o universo essencialmente benevolente: ele é propício para seres racionais como nós.

FontePortal Libertarianismo

Filme The Fountainhead – Vontade Indômita (1949). É um filme norte-americano de 1949, preto-e-branco, do gênero Drama, dirigido por King Vidor (1894-1982), roteiro de Ayn Rand, que adaptou seu livro de 1943:

A Nascente – Ayn Rand

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