Eleição entre A Religião e A Ciência

Bertrand Russell, 1951

Nesta campanha eleitoral em que a disputa se dá entre uma crente evangélica e uma defensora do Estado laico, vale (re)ler o texto clássico de Bertrand Russel, intitulado A Filosofia entre A Religião e A Ciência. Vamos apresentá-lo em uma série de pequenos posts, sublinhando seus conceitos-chave.

Os conceitos da vida e do mundo que chamamos “filosóficos” são produtos de dois fatores:

  1. um, constituído de fatores religiosos e éticos herdados;
  2. o outro, pela espécie de investigação que podemos denominar “científica”, empregando a palavra em seu sentido mais amplo.

Os filósofos, individualmente, têm diferido amplamente quanto às proporções em que esses dois fatores entraram em seu sistema, mas é a presença de ambos que, em certo grau, caracteriza a Filosofia.

Filosofia” é uma palavra que tem sido empregada de várias maneiras, umas mais amplas, outras mais restritas. Pretendo empregá-la em seu sentido mais amplo, como Russel procura explicar adiante.

A Filosofia, conforme Bertrand Russel entende a palavra, é algo intermediário entre a Teologia e a Ciência.

Como a Teologia, consiste de especulações sobre assuntos a que o conhecimento exato não conseguiu até agora chegar, mas, como Ciência, apela mais à razão humana do que à autoridade, seja esta a da tradição ou a da revelação.

Todo conhecimento definido pertence à Ciência; e todo dogma quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence à Teologia.

Mas entre a Teologia e a Ciência existe uma Terra de Ninguém, exposta aos ataques de ambos os campos: essa Terra de Ninguém é a Filosofia.

Quase todas as questões do máximo interesse para os espíritos especulativos são de tal índole que a Ciência não as pode responder. Por sua vez, as respostas confiantes dos teólogos já não nos parecem tão convincentes como o eram nos séculos passados.

  • Acha-se o mundo dividido em espírito e matéria?
  • E, supondo-se que assim seja, que é espírito e que é matéria?
  • Acha-se o espírito sujeito à matéria, ou é ele dotado de forças independentes?
  • Possui o universo alguma unidade ou propósito?
  • Está ele evoluindo rumo a alguma finalidade?
  • Existem realmente leis da natureza, ou acreditamos nelas devido unicamente ao nosso amor inato pela ordem?
  • É o homem o que ele parece ser ao astrônomo, isto é, um minúsculo conjunto de carbono e água a rastejar, impotentemente, sobre um pequeno planeta sem importância? Ou é ele o que parece ser Hamlet? Acaso é ele, ao mesmo tempo, ambas as coisas?
  • Existe uma maneira de viver que seja nobre e uma outra que seja baixa, ou todas as maneiras de viver são simplesmente inúteis?
  • Se há um modo de vida nobre, em que consiste ele, e de que maneira realizá-lo?
  • Deve o bem ser eterno, para merecer o valor que lhe atribuímos, ou vale a pena procurá-lo, mesmo que o universo se mova, inexoravelmente, para a morte?
  • Existe a sabedoria, ou aquilo que nos parece tal não passa do último refinamento da loucura?

Tais questões não encontram resposta no laboratório. As teologias têm pretendido dar respostas, todas elas demasiado concludentes, mas a sua própria segurança faz com que o espírito moderno as encare com suspeita. 0 estudo de tais questões, mesmo que não se resolva esses problemas, constitui o empenho da Filosofia.

Mas por que, então, perder tempo com problemas tão insolúveis? A isto, poder-se-ia responder como historiador ou como indivíduo que enfrenta o terror da solidão cósmica. A resposta do historiador, tanto quanto me é possível dá-la, aparecerá no decurso deste pequeno texto de Bertrand Russel.

Desde que o homem se tornou capaz de livre especulação, suas ações, em muitos aspectos importantes, têm dependido de teorias relativas ao mundo e à vida humana, relativas ao bem e ao mal. Isto é tão verdadeiro em nossos dias como qualquer época anterior.

Para compreender uma época ou uma nação, devemos compreender sua Filosofia e, para que compreendamos sua Filosofia, temos de ser, até certo ponto, filósofos. Há uma relação causal recíproca. As circunstâncias das vidas humanas contribuem muito para determinar a sua Filosofia, mas, inversamente, sua Filosofia muito contribui para determinar tais circunstâncias. Essa ação mútua, através dos séculos, será o tema de Russel que resumiremos nos posts seguintes.

Há, todavia, uma resposta mais pessoal. A Ciência diz-nos o que podemos saber, mas o que podemos saber é muito pouco e, se esquecemos quanto nos é impossível saber, tornamo-nos insensíveis a muitas coisas sumamente importantes.

A Teologia, por outro lado, nos induz à crença dogmática de que temos conhecimento de coisas que, na realidade, ignoramos e, por isso, gera uma espécie de insolência impertinente com respeito ao universo.

A incerteza, na presença de grandes esperanças e receios, é dolorosa, mas temos de suportá-la, se quisermos viver sem o apoio de confortadores contos de fadas, Não devemos também esquecer as questões suscitadas pela Filosofia, ou persuadir-nos de que encontramos, para as mesmas, respostas indubitáveis. Ensinar a viver sem essa segurança e sem que se fique, não obstante, paralisado pela hesitação, é talvez a coisa principal que a Filosofia, em nossa época, pode proporcionar àqueles que a estudam.

2 thoughts on “Eleição entre A Religião e A Ciência

  1. Prezado Fernando,

    a religião impõe aos seguidos uma realidade absurda e irreal, incutindo na mente dos incautos, um senso de aceitação imparcial e submissa cujo apelo é ignorar os avanços científicos e projetar o ser humano para ser subserviente aos dogmas gerados pela crença, cujo resultado é o enriquecimento das igrejas e seus lideres e o rápido empobrecimento dos seguidores.

    Tenho uma brincadeira que podemos fazer para descobrir quem é mais inteligente, veja:

    “Vamos pegar 3 pessoas: um crente, um filósofo e um cientista e vamos colocá-los em uma sala totalmente escura e dizer a eles que existe um gato preto lá dentro, vejamos os resultados:”

    – O crente entra na sala e já começa dizendo: achei o gato preto!
    – O filósofo entra na sala escura e diz: onde está você gato preto?
    – O cientista entra na sala e faz o seguinte: acende a luz! Ao perceber que não existe nenhum gato preto, conclui que tudo não passou de um enorme equívoco.

    É assim que tudo funciona na prática, você não acha? Abs.

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