Filosofia Moderna

bertrand-russell Por Que Repetir Erros Antigos

O último trecho de Bertrand Russel, “A filosofia entre a religião e a ciência.”

“A Filosofia moderna começa com Descartes, cuja certeza fundamental é a existência de si mesmo e de seus pensamentos, dos quais o mundo exterior deve ser inferido. Isso constitui apenas a primeira fase de um desenvolvimento que, passando por Berkeley e Kant, chega a Fichte, para quem tudo era apenas uma emanação do eu. Isso era uma loucura, e, partindo desse extremo, a Filosofia tem procurado, desde então, evadir-se para o mundo do senso comum cotidiano.

Com o subjetivismo na Filosofia, o anarquismo anda de mãos dadas com a Política. Já no tempo de Lutero, discípulos inoportunos e não reconhecidos haviam desenvolvido a doutrina do anabatismo, a qual, durante algum tempo, dominou a cidade de Wünster. Os anabatistas repudiavam toda lei, pois afirmavam que o homem bom seria guiado, em todos os momentos, pelo Espírito Santo, que não pode ser preso a fórmulas. Partindo dessas premissas, chegam ao comunismo e à promiscuidade sexual.

Foram, pois, exterminados, após uma resistência heroica. Mas sua doutrina, em formas mais atenuadas, se estendem pela Holanda, Inglaterra e Estados Unidos; historicamente, é a origem do “quakerismo“.

Uma forma mais feroz de anarquismo, não mais relacionada com a religião, surgiu no século XIX. Na Rússia, Espanha e, em menor grau, na Itália, obteve considerável êxito, constituindo, até hoje, um pesadelo para as autoridades americanas de imigração. Esta versão moderna, embora antirreligiosa, encerra ainda muito do espírito do protestantismo primitivo; difere principalmente dele devido ao fato de dirigir contra os governos seculares a hostilidade que Lutero dirigia contra os Papas.

A subjetividade, uma vez desencadeada, já não podia circunscrevem-se aos seus limites, até que tivesse seguido seu curso. Na moral, a atitude enfática dos protestantes, quanto à consciência individual, era essencialmente anárquica.

O hábito e o costume eram tão fortes que, exceto em algumas manifestações ocasionais, como, por exemplo, a de Münster, os discípulos do individualismo na ética continuaram a agir de maneira convencionalmente virtuosa. Mas era um equilíbrio precário.

O culto do século XVIII à sensibilidade começou a romper esse equilíbrio: um ato era admirado não pelas suas boas consequências, ou porque estivesse de acordo com um código moral, mas devido à emoção que o inspirava. Dessa atitude nasceu o culto do herói, tal como foi manifestado por Carlyle e Nietzsche, bem como o culto byroniano da paixão violenta, qualquer que esta seja.

O movimento romântico, na arte, na literatura e na política, está ligado a essa maneira subjetiva de julgar-se os homens, não como membros de uma comunidade, mas como objetos de contemplação esteticamente encantadores. Os tigres são mais belos do que as ovelhas, mas preferimos que estejam atrás de grades. O romântico típico remove as grades e delicia-se com os saltos magníficos com que o tigre aniquila as ovelhas. Incita os homens a imaginar que são tigres e, quando o consegue, os resultados não são inteiramente agradáveis.

Contra as formas mais loucas do subjetivismo nos tempos modernos tem havido várias reações.

Primeiro, uma Filosofia de semicompromisso, a doutrina do liberalismo, que procurou delimitar as esferas relativas ao governo e ao indivíduo. Isso começa, em sua forma moderna, com John Locke, que é contrário tanto ao “entusiasmo” do individualismo dos anabatistas como à autoridade absoluta e à cega subserviência à tradição.

Uma rebelião mais extensa conduz à doutrina do culto do Estado, que atribui ao Estado a posição que o Catolicismo atribuía à Igreja, ou mesmo, às vezes, a Deus. Hobbes, Rousseau e Hegel representam fases distintas desta teoria, e suas doutrinas se acham encarnadas, praticamente, em Cromwell, Napoleão e na Alemanha moderna. O comunismo, na teoria, está muito longe dessas filosofias, mas é conduzido, na prática, a um tipo de comunidade bastante semelhante àquela e que resulta a adoração do Estado.

Durante todo o transcurso deste longo desenvolvimento, desde 600 anos antes de Cristo até aos nossos dias, os filósofos têm-se dividido entre:

  1. aqueles que querem estreitar os laços sociais e
  2. aqueles que desejam afrouxá-los.

A esta diferença, acham-se associadas outras.

Os partidários da disciplina advogaram este ou aquele sistema dogmático, velho ou novo, chegando, portanto a ser, em menor ou maior grau, hostis à ciência, já que seus dogmas não podiam ser provados empiricamente. Ensinavam, quase invariavelmente, que a felicidade não constitui o bem, mas que a “nobreza” ou o “heroísmo” devem ser a ela preferidos. Demonstravam simpatia pelo que havia de irracional na natureza humana, pois acreditavam que a razão é inimiga da coesão social.

Os partidários da liberdade, por outro lado, com exceção dos anarquistas extremados, procuravam ser científicos, utilitaristas, racionalistas, contrários à paixão violenta, e inimigos de todas as formas mais profundas de religião.

Este conflito existiu, na Grécia, antes do aparecimento do que chamamos Filosofia, revelando-se já, bastante claramente, no mais antigo pensamento grego. Sob formas diversas, persistiu até aos nossos dias, e continuará, sem dúvida, a existir durante muitas das eras vindouras.

É claro que cada um dos participantes desta disputa, como em tudo que persiste durante longo tempo, tem a sua parte de razão e a sua parte de equívoco. A coesão social é uma necessidade, e a humanidade jamais conseguiu, até agora, impor a coesão mediante argumentos meramente racionais.

Toda comunidade está exposta a dois perigos opostos:

  1. por um lado, a fossilização, devido a uma disciplina exagerada e um respeito excessivo pela tradição;
  2. por outro lado, a dissolução, a submissão ante a conquista estrangeira, devido ao desenvolvimento da independência pessoal e do individualismo, que tornam impossível a cooperação.

Em geral, as civilizações importantes começam por um sistema rígido e supersticioso que, aos poucos, vai sendo afrouxado, e que conduz, em determinada fase, a um período de gênio brilhante, enquanto perdura o que há de bom na tradição antiga, e não se desenvolveu ainda o mal inerente à sua dissolução. Mas, quando o mal começa a manifestar-se, conduz à anarquia e, daí, inevitavelmente, a uma nova tirania, produzindo uma nova síntese, baseada em um novo sistema dogmático.

A doutrina do liberalismo [clássico] é uma tentativa para evitar essa interminável oscilação. A essência do liberalismo é uma tentativa no sentido de:

  1. assegurar uma ordem social que não se baseie no dogma irracional, e
  2. assegurar uma estabilidade sem acarretar mais restrições do que as necessárias à preservação da comunidade.

Se esta tentativa pode ser bem sucedida, somente o futuro poderá demonstrá-lo.”

FNC: Assim falou Bertrand Russel… durante a II Guerra Mundial, quando coexistiam o regime nazista na Alemanha e o regime totalitarista na União Soviética. O “futuro-presente” demonstra que o neoliberalismo contemporâneo tornou-se conservador da ordem capitalista e, pior, contra o progresso social através da conquista progressiva não só de direitos civis e políticos, mas também sociais e econômicos.

4 thoughts on “Filosofia Moderna

  1. Pingback: Filosofia Moderna | MANHAS & MANHÃS

  2. Prezado Fernando,

    no mundo de hoje podemos obervar que somente os pobres e desamparados ainda estão sob os domínios das crenças, sejam pessoais ou institucionalizadas. As pessoas mais inteligentes do planeta são quase todas Ateístas, mas podemos encontrar casos de ateísmo não declarado, exemplos típicos, têm aqui mesmo no Brasil. Veja o caso da Dilma Rousseff, é uma ateia que não pode expressar essa afirmação, porque senão perderá votos. Nos Estados Unidos é a mesma coisa, Barack Obama, é um ateu que também não pode dizer para o povo que não acredita em Deus.

    Dilma é da mesma linha de pensamento do Caetano Veloso e Chico Buarque, ambos são dissidentes da ditadura e com raras exceções, todos esses dissidentes eram ateus e ainda são.

    Outro Ateu que eu conheço pessoalmente é nosso mais bem sucedido neurocientista Miguel Nicolelis. Dê uma lida no livro: Muito além do nosso eu – Michel Nicolelis Epub: http://www5.zippyshare.com/v/64670424/file.html

    Ainda sobre os pobres e desamparados, faça um teste drive, vá até ás praças das cidades e converse com os moradores de rua? Eu faço isso sempre e até hoje nenhum deles negou a existência de Deus, todos falam de Deus o tempo todo, mesmo eles estando numa situação deplorável e desumana, ainda assim estão presos em suas crenças, não conseguindo sair dessa cilada que foi imposta a eles pela religião.

    Concordo plenamente com Richard Dawkins quando afirmou que as religiões são vírus sociais, que infectam a mente das pessoas despreparadas e causam uma escravidão monstruosa e desumana, fazendo-os sofrer até a hora da morte, e mesmo nessa hora, ainda clamam pela vida, e não sabem que fora de suas mentes não há esse Deus, e a morte torna-se insuportável.

    Alguns anos atrás eu fui acompanhar a morte de doentes em estados terminais em hospitais universitários e vi nitidamente como os religiosos morrem, é terrível, pois as pessoas ficam clamando por um Deus que não existe, e os médicos precisam injetar altas doses de morfina para atenuar o sofrimento desses pobres moribundos.

    Abs.

    Segue abaixo os melhores livros de Bertrand Russell:

    ABC da relatividade – Bertrand Russell.epub: http://www56.zippyshare.com/v/69341527/file.html

    Bertrand Russell – Paul Strathern.epub: http://www44.zippyshare.com/v/23735537/file.html

    CAMBRIDGE COMPANIONS. GRIFFIN, Nicholas (org) – Bertrand Russell.pdf:http://www60.zippyshare.com/v/18218735/file.html

    History Of Western Philosophy – Bertrand Russell.epub: http://www59.zippyshare.com/v/50165824/file.html

    Introdução à filosofia matemática – Bertrand Russell.epub:http://www18.zippyshare.com/v/53185396/file.html

    Os problemas da filosofia – Bertrand Russell.epub:http://www8.zippyshare.com/v/93588263/file.html

    Por que não sou cristão – Bertrand Russell.epub:http://www58.zippyshare.com/v/37022862/file.html

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s