Stiglitz: Independência do Banco Central É Desnecessária e Irrealizável

Joseph Stiglitz

Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel e um dos mais famosos economistas de nossa época, desencadeou um discurso verbal contra a independência do banco central, em palestra na Índia, relata o The Times of India.

Segundo Stiglitz, a independência do banco central é um tanto superestimada, uma vez que ela não necessariamente se correlaciona com um melhor desempenho econômico. E, na prática, é politicamente inviável!

“[A crise] mostrou que um dos princípios centrais defendidas pelos banqueiros ocidentais – o desejo de independência do banco central – se tornou questionável na melhor das hipóteses… Na crise, os países com bancos centrais menos independentes tais como China, Índia e Brasil se comportaram muito, mas muito melhor do que os países com bancos centrais mais independentes na Europa e os Estados Unidos. Não existe tal coisa imaginada como instituições realmente independentes. Todas as instituições públicas têm de assumir responsabilidades​​ – e a única questão é perante a quem.”

Ele acredita que, no período que antecedeu à crise financeira, o Federal Reserve era responsável apenas perante a Wall Street. Afirma que o presidente Fed de Nova York, William Dudley, configurou-se como “um modelo de má administração” por causa de seu inerente conflito de interesses: ele salvou os bancos que ele deveria ter regulado, preventivamente, os quais foram os mesmos bancos que lhe permitiu ganhar a sua posição…

Enquanto aqui a candidata Marina Silva adota essa ideia anacrônica, como relata a Reuters, a independência do banco central está sob cerco em todo o mundo. O esforço é, sem dúvida, liderado pelo recém-eleito primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, que está forçando o Banco do Japão a adotar a flexibilização quantitativa para combater a deflação, desvalorizar o iene, e impulsionar o crescimento. Afinal, foi para implantar este programa econômico que ele foi eleito!

Barry Eichengreen é autor de Hall of Mirrors: The Great Depression, the Great Recession, and the Uses – and Misuses – of History [“Salão dos Espelhos: A Grande Depressão, a Grande Recessão, e os Usos – e Abusos – de História]. Ele publicou artigo (Bloomberg, 22 de agosto de 2014) onde mostra que “quanto mais complexo é o sistema, mais difícil é fazer a escolha certa”. Assim, justifica a afirmação do título: “As regras do Banco Central são feitas para serem quebradas”. Reproduzo seu artigo abaixo para os leitores perceberam como é simplória a proposta marineira de conceder Independência ao Banco Central do Brasil.

“A conclave do Federal Reserve [similar norte-americano ao COPOM do Banco Central do Brasil] pode ser dominado por discussões técnicas de conceitos abstrusos como a taxa do desemprego de não-aceleração da inflação, mas também lá se detecta certa corrente de nostalgia. Os bancos centrais independentes constituem uma melancólica lembrança de um passado quando a política monetária era convencional e seus criadores poderiam se concentrar apenas em ajustar as taxas de juros.

Especificamente, os diretores do Banco Central estão ansiosos para acabar com o longo período de taxas de juros zero. Eles querem encerrar as suas compras de títulos lastreados em hipotecas e/ou títulos securitizados. Esses programas envolvem intervenções nos mercados financeiros. Eles podem ter efeitos colaterais indesejáveis​​, incentivando os investidores a se arriscarem mais na busca de maior rendimento. Seus benefícios podem ser questionados. Os políticos tomadores de decisões estão ansiosos para trazê-los a um fim.

Esse instinto levou a pedidos direcionados ao importante Comitê de Mercado Aberto do Federal Reserve, para que o banco central norte-americano partisse logo para o aumento das taxas de juros. Ele levou uma minoria barulhenta dentro do Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra a fazer o mesmo. Isto tem desencorajado o Banco Central Europeu a executar políticas não convencionais por conta própria.

É um sentimento perigoso, este anseio por um passado idealizado, em que os bancos centrais podiam concentrar-se no ajuste discricionário da relação câmbio/juro por um ponto percentual ou dois, desta ou daquela maneira – tal como um médico ajusta as drogas administradas a um paciente com pressão arterial elevada. Desde que eles surgiram, os bancos centrais têm sido no negócio de compra e venda não apenas títulos do Tesouro, mas também de papel comercial e outras obrigações empresariais diversas.

Fazer política monetária tem sido sempre um ofício complicado. Sempre que havia um esforço para reduzir a arte de banco central a uma fórmula simples, seja alcançar um objetivo cambial sob o padrão ouro seja atingir uma meta de inflação, moda mais recentemente, outros problemas – como as ameaças à estabilidade do sistema financeiro – têm tido uma tendência estranha de se intrometerem. Eles, sem dúvida, podem fazê-lo novamente. Isso deveria ser uma advertência para aqueles que procuram fórmulas para amarrar o Fed a algoritmos, tal como a regra de Taylor, uma fórmula simples que se propõe apenas a dizer como as taxas de juros devem responder às mudanças na inflação e no produto ou no emprego.

Por que então os bancos centrais modernos abraçaram a noção equivocada de política monetária automática? Parte da explicação é malversação [má administração, má gerência, apropriação indébita de fundos, valores, especialmente durante administração de patrimônio alheio, público ou privado; falta grave no exercício de um cargo] em série praticada pelos bancos centrais nos anos 1970 e 1980. Se não se podia confiar nas indicações políticas para exercerem um poder discricionário, de forma inteligente, melhor seria vinculá-las a uma regra simples.

Outro fator foi o aumento da sofisticação dos modelos e métodos analíticos. O staff do Federal Reserve, primeiro, realizou um projeto utilizando técnicas matemáticas adaptadas da ciência da computação para orientar a política na década de 1970. Outros se seguiram, rapidamente, acreditando que, se a estrutura da economia poderia ser representada como um conjunto de relações matemáticas fixas, as taxas de juros poderia facilmente ser afinadas!

Milton Friedman foi um dos observadores sábios que advertiram para se ter o cuidado de não tomar os modelos muito literalmente como guias. Já em 1940, ele entendeu que a incerteza sobre a estrutura da economia era muito grande. Mas a precisão espúria dessas técnicas, e o falso cientificismo a que deu origem, encorajou os banqueiros centrais a acreditar que o seu trabalho era implementar uma regra ótima de feedback, pouco mais complexa do que a que liga, automaticamente, o compressor antes do conteúdo da geladeira começar a derreter.

Tal mundo idealizado nunca existiu e nunca existirá. A inovação financeira marcha adiante. No mundo financeiramente mais sofisticado, o mais difícil para os políticos tomadores de decisões é traçar a linha divisória entre o dinheiro e o crédito. Ameaças à estabilidade financeira são frequentes.

É fantasioso supor que os bancos centrais podem regular a economia, enquanto a responsabilidade pela estabilidade financeira está acantonada a algum órgão do governo inteiramente separado. Nada melhor demonstra isso do que a experiência desastrosa do Reino Unido com a Autoridade de Serviços Financeiros, regulador cujo mandato de 12 anos culminou na corrida bancária ao Northern Rock.

A questão é onde traçar a linha. Se for apropriado para os bancos centrais alertar contra riscos excessivos e práticas financeiras duvidosas, essa advertência deve também pesar sobre as políticas fiscais? Sobre alguma reforma estrutural? Sobre o combate à desigualdade de renda?

As tentações são grandes. Antes de decidirem sobre uma questão, os banqueiros centrais devem aplicar-se três testes.

Em primeiro lugar, eles têm experiência ou habilidade especial? O BoE foi encarregado de racionalizar a indústria têxtil britânica, na década de 1920, e os resultados não foram bons. O banco central, como qualquer banco, tem conhecimento especializado em questões de dinheiro e de crédito, mas, obviamente, não em outro setor de atividade. Isto deve fazer diferença.

Em segundo lugar, o assunto em questão deve ter grandes implicações para a condução da política monetária. Por exemplo, dado o elevado nível de endividamento público na Europa, falha em não reduzi-lo poderá colocar forte pressão sobre o BCE para possibilitá-lo inflar. O BCE deve considerar, razoavelmente, os problemas fiscais dos governos da Europa altamente endividados. Isso, no entanto, não é uma licença para pontificar sobre a política fiscal em geral.

Em terceiro lugar está a questão-chave: um banco central pode resolver alguma crise sem perder de vista a sua responsabilidade fundamental de controlar o crescimento dos preços e manter a estabilidade financeira? O BCE tem resistido ao afrouxamento da política monetária por medo de que tal estímulo reduziria a urgência percebida de reformas. Esta prioridade equivocada empurrou a Europa à beira da deflação. É um excelente exemplo do que um banco central não deve fazer.

Saber onde traçar a linha é difícil. Goste ou não, conduzir o banco central ainda é mais arte do que ciência.”

2 thoughts on “Stiglitz: Independência do Banco Central É Desnecessária e Irrealizável

  1. Pingback: Stiglitz: Independência do Banco Central É Desnecessária e Irrealizável | MANHAS & MANHÃS

  2. Pingback: Treze Razões para Votar Contra a Independência do Banco Central. | MANHAS & MANHÃS

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s