Retórica da Intransigência Neoliberal

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Intransigência tem dois significados. Por um lado, refere-se à falta de transigência, ou seja, intolerância com o pensamento alheio, por exemplo, a dos neoliberais em relação ao pensamento econômico social-desenvolvimentista. Por outro, em si, designa a austeridade, a rigidez no controle do gasto social, pregada pelo neoliberalismo tupiniquim.

No período pré-eleitoral, tive a oportunidade de enfrentar dois debates, tendo como contendores professores universitários neoliberais, um da PUC-RJ, outro do INSPER-SP, oriundo da FGV-RJ. Conduzido sob forma de entrevista, na Globo News, foi possível rever o primeiro debate depois e pensar a respeito das reações mentais do meu sparring. Quanto ao segundo, durante sua palestra na PUC-SP, eu tive a oportunidade de anotar seus pontos metodológicos principais.

Refletindo a respeito, percebi que a Ciência Econômica, defendida arduamente por ambos, avançou em sua purificação, isto é, a eliminação dos elementos de outras áreas de conhecimento das Humanidades, como os políticos, os sociológicos, os psicológicos, os jurídicos, etc. Esta depuração vem desde meados do século XIX com o neoclassicismo e chega até as últimas décadas do século seguinte com o novoclassicismo. Nesse período, as premissas iniciais de racionalismo, atomismo e informações perfeitas foram sendo questionadas e revistas.

Sem confirmação de suas previsões, distintas das deduzidas do hard core do keynesianismo, seu núcleo rígido se mantém somente com emendas. São adotadas hipóteses ad hoc (adicionais) para explicar-se face às “críticas perturbadoras”. Revela sinais de fraquejar, na medida em que evita uma revisão profunda nas premissas do seu hard core.

De acordo com o neoclassicismo, todos os agentes econômicos têm informações perfeitas (e simétricas) e jamais se enganam. O monetarismo adotou a ideia de expectativas adaptativas formadas a partir de experiência passada, com ênfase maior nos períodos mais recentes. Como ele diferenciava entre a racionalidade dos capitalistas e a dos trabalhadores, ao aludir à ilusão monetária destes, o novoclassicismo lhe contrapôs a premissa de que todos os agentes têm o mesmo modo de entender a economia, correspondente à lógica verdadeira de funcionamento. E qual é esta? Obviamente, a dos próprios novos-clássicos!

Essa hipótese seria falseada, evidentemente, pela existência de debate entre distintas correntes de pensamento econômico. Então, eles abominam esse debate, já que se consideram “donos da verdade”! Enquanto pseudo “monopolistas da inteligência econômica”, desprezam profundamente o conhecimento alheio.

No caso dos tapuias brasileiros, denominação dada pelos portugueses a indígenas dos grupos que não falavam línguas do tronco tupi e que habitavam no interior do país, como os formados na Escola de Campinas, tratam-nos como caboclos mestiços, rudes, ignorantes. Na notável capacidade de síntese de Alexandre Rands (“mas quem é, hein?”), ele descreveu-nos da seguinte forma.

“O PSDB adora dizer que a gente está copiando. De fato, numa discussão, vamos concordar em 80% das coisas. Não é porque os economistas de Marina são tucanos, mas simplesmente porque hoje em dia existem alguns consensos na teoria econômica. Estão em todas as universidades americanas, em 98% das europeias, em 95% das asiáticas e 97% das brasileiras. Só uma universidade aqui não tem articulação internacional, não traz e não manda ninguém para o exterior: a de Campinas (Unicamp). Ela é endógena. No entanto, tem uma força no governo Dilma que não tinha no de Lula, que era muito mais próximo do que Marina defende hoje. Os economistas de Campinas não consideram todo o desenvolvimento da teoria econômica desde a década de 1960. Dilma pensa com a cabeça de Campinas, que hoje é um lugar isolado, fora do mundo. Uma ilha que parou no tempo”. Somos a aldeia de Asterix na Gália contra o Império Romano!

Os energúmenos encasquetaram essa “tese” como um mito fundador neoliberal: sua “era de domínio do pensamento único neoliberal” nasce em 1988 com o prócer Maílson da Nóbrega assumindo o comando do desastroso Plano Verão e dura vinte anos, perpassando o Governo Lula, até a crise mundial de 2008!

Naturalmente, esquecem da responsabilidade de sua ideologia de liberalização, desregulamentação e privatização na raiz dessa crise internacional. Optam também por esquecer o último erro de seus colegas no Banco Central do Brasil: elevação do juros em plena explosão da crise. Foram demitidos e substituídos por servidores públicos logo após. Daí, seus discursos de ódio contra a Dilma.

Em termos de Metodologia da Análise Econômica, o interessante é que, na ambição da acompanhar o monismo metodológico, mimetizando os modelos quantitativos e mecânicos das Ciências Exatas, especialmente da Física, acabam por depurar uma dimensão desta: o Tempo. Ficam apenas com o Espaço. Toda a crítica se dirige à “jabuticaba” (algum pensamento original nosso), exacerbando o “complexo de vira-lata” brasileiro.

Eles só comparam os heterogêneos espaços geoeconômicos, selecionando pequenos países, desde que sejam favoráveis para compor os desejados “grupos de controle” para a comparação entre “o desempenho macroeconômico superior deles” face à economia brasileira no pós-crise. Quando são contrapostas evidências que demonstram que nossa economia se sai muito melhor do que as demais do grupo de dez maiores economias do mundo, ficando apenas abaixo da China e Índia em performance, mudam de assunto…

Quando são apresentadas todas as séries temporais de indicadores socioeconômicos, desde 1994 a 2014, mostrando significativas melhorias em todos eles, a partir de 2003, dizem que a análise estatística saiu da moda no mainstream! Ora, como avaliar a evolução econômica ou o progresso social?

Desprezando o tempo, os neoliberais abandonam também a História. Importam-se apenas com o presente, esquecendo-se da comparação com o passado sob o governo deles e não traçando nenhuma perspectiva econômica para o futuro. Por isso, a ênfase deles apenas na estabilização conjuntural e o menosprezo por desenvolvimento e planejamento. Basta aos neoliberais “a liberdade para as forças de O Mercado”, pois daí se alcançaria, espontaneamente, “uma ordem econômica equilibrada”!

A retórica neoliberal se ridiculariza por si só. Não merece mais comentários

 

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