Filmografia Completa de Almodóvar

Almodóvar - Obras Completas

Deu-me vontade de rever pela enésima vez a filmografia de Pedro Almodóvar — a ser apresentada na XXXVIII Mostra Internacional de Cinema de São Paulo — ao ler Pedro Butcher (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 10/10/14) que resume, sumariamente, sua biografia. Quem ainda não o (re)viu, sugiro ler (e escutar) antes os seguintes posts, além do link acima em seu nome:

Las Canciones de Almodóvar

Metamorfose Ambulante: A Pele que Habito do Pigmaleão Almodóvar

“Nascido na pequena e conservadora cidade de La Mancha, em 1949, Pedro Almodóvar Caballero mudou-se para Madri em 1968. Começou a fazer cinema após comprar uma câmera Super-8 com o dinheiro que conseguiu economizar como funcionário de uma companhia telefônica. Filho legítimo da “movida madrileña”, movimento boêmio e de contracultura que marcou a cidade de Madri após a ditadura franquista, Almodóvar realizou, entre 1974 e 1978, dezenas de curtas e um longa-metragem em Super-8, todos exibidos apenas em bares ou na casa de amigos. Fez parte também do grupo musical Almodóvar & McNamara (há registros, no YouTube, de apresentações de hits como “Suck It to Me” e “Voy a Ser Mamá”). Seu primeiro longa distribuído comercialmente na Espanha foi “Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão“, de 1980.

Depois de “Pepi…” e antes da explosão de “Mulheres à Beira…”, Almodóvar dirigiu cinco filmes que misturavam comédia e melodrama de forma absurda, como “Maus Hábitos“, “Que Eu Fiz para Merecer Isto?” e o “Matador“, culminando com o excepcional “A Lei do Desejo“, com Antonio Banderas como um jovem aspirante a ator. A partir do sucesso de “Mulheres à Beira…”, Almodóvar aposta em uma vertente mais cômica que gera “Ata-me” e “De Salto Alto“, até que a fórmula começa a dar sinais de cansaço em “Kika” (1993).

Vem aí sua primeira grande reinvenção: “A Flor do Meu Segredo” (1995), um filme que trabalha todos os elementos caros ao diretor, mas, desta vez, dominado por uma tristeza cortante. “A Flor do Meu Segredo” é um filme sobre a dor, definiu Almodóvar em depoimento a Frederic Strauss, no livro “Conversas com Almodóvar“. “Essa dor é a dor do abandono, e creio que é uma dor que se sente como uma morte, fisicamente. Pouco importa se a pessoa que partiu continua viva para o resto do mundo. Para nós, o fim dessa relação equivale a uma morte.”

Para filmar essa dor, Almodóvar empreende mudanças de estilo sutis, conseguindo chegar ao que o melodrama tem de mais verdadeiro. “Lembro de um dia em que passeava por Madri com outro cineasta espanhol e passamos por dois rapazes sentados num banco. Um deles fumava um cigarro e se debulhava em lágrimas. Chorava da forma mais natural do mundo, sem dramatizar, sem realçar o fato de chorar. Foi isso que quis fazer nesse filme, distanciar-me do sentimentalismo, de tudo o que é realçado.”

A Flor do Meu Segredo” inicia uma fase de maturidade artística, em que o cineasta realiza pelo menos duas outras obras-primas: “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999) e “Fale com Ela” (2002). Aqui, já não é possível falar nas “referências”, tão características de seus filmes anteriores. Elementos das obras de Tenessee Williams, Truman Capote, Joseph L. Mankiewicz, John Cassavetes, Pina Bausch e tantos outros artistas passam a fazer parte da “carne” de seus filmes.

Nesses longas, Almodóvar mergulha na alma feminina, aprofundando uma característica que já podia se vislumbrar no começo de sua carreira, mas que a partir de “A Flor do Meu Segredo” ganha contornos mais definidos. Não por acaso, será menos conhecido por ter lançado Antonio Banderas e mais por ter proporcionado grandes papéis para Carmen Maura, Victoria Abril, Cecilia Roth, Marisa Paredes, Penélope Cruz (e também grandes pequenos papéis para um grupo de fiéis colaboradoras, como Chus Lampreave, Lola Dueñas e Rossy de Palma).

Em 2011, Almodóvar voltou a trabalhar com Banderas em um filme mais centrado no universo masculino, “A Pele que Habito“. A surpresa, aqui, foi uma guinada mais sombria, que flerta com o terror e assume uma forte influência do diretor francês Georges Franju (“Os Olhos Sem Rosto“). No ano passado, uma nova cartada inesperada: “Amantes Passageiros“, comédia de cunho visivelmente mais comercial que ele fez, assumidamente, como um antídoto para a crise econômica espanhola. De “enfant terrible” do cinema espanhol a “grande autor” do cinema mundial, Almodóvar, enfim, tem conseguido se reinventar como poucos, mantendo-se fiel ao que ele define como o essencial da vida: “Sobreviver e manter a paixão”.

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