Lei das Duas Taxas de Juros

Visão de apoioKnut Wicksell mostrou a falha de vários autores em tratar a moeda contemporânea como uma mercadoria semelhante a todas outras mercadorias tal como na época do padrão-ouro. Continuaram a recorrer à Teoria Quantitativa da Moeda para explicar o valor da moeda. Esta teoria seria aceitável somente no caso extremo de um sistema de puro pagamento à vista. Com crédito, a velocidade de circulação da moeda tornar-se-ia uma variável e não se provaria a relação entre a quantidade de moeda e o nível de preços.

Em uma economia de endividamento, a quantidade de moeda em circulação efetiva ficaria determinada endogenamente por sua demanda.  A oferta de moeda deixaria de ser excessiva e, portanto, não determinaria os preços. Pelo contrário, o valor da moeda dependeria dos preços.

Para revelar as forças determinantes do nível geral dos preços, Wicksell propôs uma teoria da relação entre os juros sobre empréstimos monetários e o nível geral dos preços. Ele considerou duas abordagens:

  1. a relação da taxa de juros de empréstimos, determinada no mercado monetário, com a taxa de juros real ou “natural”, determinada pelo rendimento esperado do capital no processo de produção – os marginalistas identificam-no com a produtividade marginal do capital;
  2. a relação da demanda monetária agregada com a oferta agregada de mercadorias.

Em última instância, de acordo com Wicksell, a taxa de juros do dinheiro depende da oferta e demanda de capital real. Como dizia Smith e Ricardo, a taxa de juros é regida pelos lucros provenientes dos investimentos de capital, isto é, a taxa de juros natural, e não pelo número ou qualidade das peças metálicas que facilitam a venda e a circulação da produção, ou seja, a taxa de juros de mercado.

Em sua análise, Wicksell conectou ambas abordagens, mostrando que, em economia de endividamento fechada, um desvio entre a taxa de empréstimo e a taxa de juros real estimula a expansão ou a contração do crédito. Serve como incentivo para os empresários investirem ou desinvestirem, conduzindo à mudança na relação entre a demanda monetária agregada e a oferta agregada. Sob a hipótese de um dado produto (em pleno emprego ou em um modelo estático), isso resultar em crescimento ou queda de todos os preços monetários.

O processo cumulativo exposto por Wicksell é a tendência a aumentar a demanda de bens e serviços, e, em consequência, elevar seus preços. Ela se torna evidente em toda redução da taxa de juros de empréstimos que possibilita a intensificação do uso do crédito bancário.

Durante o processo cumulativo, os movimentos no conjunto dos preços monetários não forçam necessariamente uma operação em direção ao equilíbrio tal como na leitura walrasiana do equilíbrio dos preços relativos, cuja tendência ao equilíbrio estável é inerente. Uma vez perturbado, o equilíbrio monetário pode ser restaurado, entretanto, por meio de uma taxa de equilíbrio especial, a chamada taxa de juros normal sobre empréstimos. Wicksell pensava que as variações nos preços monetários, como reflexos das relações entre o mercado monetário e o mercado de bens e serviços, forçaria a Autoridade Monetária a estabelecer essa taxa.

Assim, Wicksell anteviu a exogeneidade dos juros e/ou a endogeneidade da moeda. A única possibilidade de exercer um controle racional sobre o nível de preços deve residir em regular adequadamente a política de juros dos bancos.

Um ciclo monetário seria causado pela discrepância entre a taxa de juros de mercado e a taxa de juros natural. Para eliminar essa causa de instabilidade no nível geral dos preços, as duas taxas teriam de se igualar. Entretanto, a taxa natural de juros não é fixa. Flutua conjuntamente com todas as causas reais de flutuações econômicas. Uma coincidência espontânea entre a taxa de mercado e taxa natural é, portanto, improvável.

Wicksell coloca a responsabilidade desse ajustamento recaindo sobre os bancos com base em argumento duvidoso de responsabilidade social: “suas obrigações para com a sociedade são muito mais importantes do que suas obrigações privadas”. Na realidade, os bancos não tem condições de avaliar a taxa natural antes de fixarem suas próprias taxas de juros de empréstimos. A taxa de juros natural, ex-ante, é hipotética, correspondendo àquela que equilibraria o sistema. No mundo real, o nível corrente de preços dos bens fornece a evidência ex-post se está havendo concordância ou discordância entre as duas taxas.

O procedimento prático é simplesmente o de um “modelo mecânico ou hidráulico”.

  • Enquanto os preços permanecerem inalterados, a taxa de juros bancários deve permanecer no mesmo nível.
  • Se os preços subirem, a taxa de juros básica deve ser elevada.
  • Se os preços caírem, a taxa de juros deve ser diminuída.

A taxa de juros deve, assim, ser mantida nesse novo nível até que outro movimento de preços exija nova mudança em um sentido ou em outro.

Reduz tudo a uma apropriada manipulação da taxa de referência para as várias taxas bancárias, abaixando-as quando preços estão declinando, e elevando-as quando preços estão crescendo. A causa principal da instabilidade nos preços estaria na resistência dos bancos em seguir essa regra pois as variações nas taxas de juros podem variar suas margens de lucro sem compensar com o volume de seus negócios. Em curto prazo, há uma inelasticidade da demanda de crédito ao juro.

O processo cumulativo do mecanismo indireto de transmissão não é explosivo. Ele não pode prosseguir indefinidamente, porque os bancos vão de encontro à barreira colocada por capacidade de empréstimos, estabelecida por suas reservas. Então, pode chegar ao fim através de causa interna: o aumento dos preços provoca elevação da demanda de dinheiro por motivo transacional, com efeito sobre o nível das reservas bancárias. Caso ocorra escassez de reservas, bancos são forçados a elevar a taxa de empréstimos até que se iguale à taxa normal.

O processo cumulativo leva a uma situação insustentável, em que o investimento empreendido sob estímulo de uma taxa de juros “artificialmente” baixa se revela como fonte de prejuízos: os booms terminam em liquidação que se traduz em depressão. Na atmosfera de prosperidade, as dívidas acumulam-se.

A inflação de crédito, provocada pela baixa taxa de juros, só reverte se esta elevar-se em termos reais, ultrapassando significativamente a taxa de inflação e invertendo, de maneira sustentável, a relação entre juros e preços. A inevitável liquidação das dívidas consiste no cerne da depressão.

A revolução introduzida por Wicksell no pensamento econômico foi justamente mostrar que são as taxas de juros relativamente baixas (e não relativamente altas sendo consideradas como custos) a origem primária ou antecedente da inflação. Ele não afirmou que são as taxas de juros baixas em valores nominais a causa da inflação, mas as baixas em relação à taxa natural.

defasagem temporal entre a baixa taxa de juros e o efeito inflacionário. A taxa de juros nominal é tanto menor quanto maior for a expansão de crédito no presente. Como o presente de hoje é o passado de amanhã, uma primeira lição wickselliana é que baixar juros nominais, apressadamente, acaba acelerando a inflação e, portanto, os juros futuros.

Outra lição wickselliana de bom senso diria que é vã a tentativa de adivinhar a priori, mesmo com o uso de sofisticados cálculos econométricos, qual é o valor da taxa natural, “derivada da interação entre poupança e investimento” na concepção neoclássica, a igualaria à taxa de mercado, referente à taxa observada de juros. Aquela é uma taxa hipotética, ou seja, idealizada, que corresponderia à que levaria o sistema ao equilíbrio monetário, em caso de igualdade entre as duas taxas.

O argumento teórico da “Lei das Duas Taxas de Juros” dispensa a tentativa prática de se usar econometria para medir produto potencial, taxa natural de crescimento, taxa natural de desemprego, NAIRU ou quejandos.

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