Estimativa do Produto Potencial

Crescimento médio do produto potencial 1950-2014

Edmar Bacha é Diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças. Regis Bonelli é Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV). Tentar calcular o potencial de crescimento de um país é uma atividade irresistível para muitos economistas neoclássicos, inclusive para eles. Recentemente, eles concluíram outro exercício deste tipo para o Brasil. Sumariaram o argumento em artigo publicado no jornal Valor em 03/11/14.

A visão gráfica do produto potencial está apresentada acima. As barras verticais no gráfico ao lado retratam as taxas de crescimento do PIB brasileiro, ano a ano, de 1950 até 2014, ano para o qual supuseram 0,3%, em linha com as projeções do Boletim Focus. A linha que se superpõe às barras indica a média móvel decenal das taxas anuais do PIB.

A trajetória histórica das médias decenais é resumida por eles. “De 1950 a 1980 [antes do desmanche do Estado Desenvolvimentista], o país tinha um potencial de crescimento da ordem de 7-7,5%. Esses valores são superados durante o chamado “milagre econômico” dos anos 1970, mas as consequências nefastas dessa superação vieram logo depois – a crise da dívida externa e a hiperinflação que se lhe seguiu, as quais trouxeram o crescimento da economia brasileira para cerca de 2,5% ao ano – de 1981 até os dias de hoje. Mesmo após renegociada a dívida externa e vencida a hiperinflação, o país não conseguiu superar essa faixa mais baixa de crescimento.”

Com esse argumento, Bacha & Bonelli adotam a hipótese de “inflação de demanda” para explicar o regime de alta inflação instalado no final do regime militar! Isto após os choques em preços relativos por causa dos dois choques de petróleo, choque de juro norte-americano e duas maxidesvalorizações cambiais. Abandonam também a interpretação que, depois da mudança do patamar para cerca de 220% aa, a taxa de inflação anual tornou-se inercial. Após as experiências com congelamentos de preços, a inflação tornou-se acelerada com base em expectativas e “financeirização dos preços a prazo”.

Saltando a análise do período em que estiveram no poder (1994-2002), fase em que se concluiu “duas décadas perdidas”, esses economistas, que esperavam a fatalidade de um fracasso do governo petista, dizem que “houve um ‘pequeno milagre’ de 2004 a 2010, quando o crescimento anual se aproximou dos 4,5%. A reversão se dá a partir de 2011, com uma série de ‘pibinhos’ que trazem o valor da média decenal para 3,2% em 2014. O pequeno milagre se deveu a uma bonança externa que entre 2004 e 2011 premiou o país com um bônus de cerca de 10% do PIB, em termos de alta dos preços das exportações (em relação aos preços das importações) e de entrada líquida de capital estrangeiro. Finda a bonança, restabeleceu-se o “novo normal” sob o qual o Brasil vive há muitos anos – ou seja, um crescimento na casa dos 3% ao ano.”

Na realidade, o auge da “inflação de commodities”, verificada pelo índice CRB, ocorreu em junho de 2008 (três meses antes da crise mundial), mas a grande melhoria dos termos de troca ocorreu de fevereiro de 2009 até agosto de 2011. Percebendo isso, neste mês o governo Dilma afrouxou a exagerada regulação macroprudencial, adotada pelo Banco Central do Brasil no primeiro semestre de 2011, justamente por causa do pavor alardeado na imprensa oposicionista, inclusive por parte de diagnóstico do sr. Bacha de que “o país estava em pleno emprego por ter em 2010 ultrapassado o produto potencial”. O Banco Central era antes pautado por O Mercado…

Bacha e Bonelli usam um pouco de economês para explicar uma forma simples de calcular o PIB potencial, tratando-o como o produto de dois fatores: o número de trabalhadores disponíveis multiplicado pela capacidade de produção de cada trabalhador. Para calcular o potencial de crescimento do PIB, temos que somar a taxa de crescimento do número de trabalhadores com a taxa de crescimento da capacidade de produção por trabalhador, ou seja, a produtividade do trabalho.

Para estimar o crescimento do número de trabalhadores, eles recorreram ao IBGE, que informa que a população adulta (15 a 65 anos) deverá crescer em torno de 0,9% ao ano em média nos próximos dez anos. Eles desconhecem o bônus demográfico e o aumento da dedicação exclusiva aos estudo para dizerem que “houve uma queda ainda não explicada na relação entre o número de trabalhadores e o número de pessoas adultas no Brasil. Imaginamos que isso possa ser revertido no futuro próximo e, assim, estimamos que o crescimento do número de trabalhadores nos próximos dez anos será de 1% ao ano”. Por que?

Agora, quando vão estimar a produtividade, isto é, o crescimento da capacidade de produção por trabalhador, eles dizem que envolve dois fatores.

“Em primeiro lugar, a contribuição da expansão do estoque de capital por trabalhador. Quanto mais houver de terra cultivada, equipamentos e estruturas maior será a produção por trabalhador. De 1950 até 2011, há períodos de alta e baixa da contribuição do crescimento do estoque de capital por trabalhador, mas em média esse número é de 1,4% ao ano. Se nos ativermos ao período mais recente, de 2011 a 2014, encontramos o valor de 1,3%. Ou seja, há uma certa normalidade que se mantém ao longo de nossa história. Por isso, supomos que o ocorrido no passado vá se repetir no futuro e teremos uma contribuição do crescimento do estoque de capital por trabalhador para o crescimento do PIB por trabalhador da ordem de 1,3% ao ano nos próximos anos”. Outro ponto duvidoso…

Não dizem qual foi a fonte e a metodologia para estimar esse “estoque de capital por trabalhador”. Supor uma “normalidade” depois de ter ocorrido um longo período de automação, robotização e incorporação de tecnologia de informações e comunicações ao processo de trabalho? Não houve nenhuma mudança estrutural para inviabilizar essa hipótese de regularidade para o passado explicar o futuro?

“O segundo fator que contribui para o crescimento da capacidade de produção por trabalhador é a tecnologia, amplamente entendida. Sementes de melhor qualidade, equipamentos mais modernos, informatização, trabalhadores mais bem educados e melhor treinados, melhor alocação de recursos etc., tudo isso faz com que a capacidade de produção por trabalhador cresça mesmo que a quantidade de capital por trabalhador se mantenha constante. Na experiência histórica brasileira, constatamos que, entre altos e baixos, os avanços da tecnologia contribuíram com cerca de 1% ao ano para o crescimento do PIB por trabalhador entre 1950 e 2011”. Por que? Mais uma questão duvidosa.

Daí, depois dessa leviandade científica, dão a “cutucada, ou melhor, a bicada tucana” de maneira inteiramente viesada e arbitrária. “Infelizmente, no período mais recente, ou seja, 2011-2014, houve uma involução. É difícil entender por que, mas nesse período a tecnologia, ao invés de avançar, retrocedeu e fez reduzir a produção por trabalhador à taxa de 0,47% ao ano. Algo parecido com isso somente aconteceu durante a chamada década perdida dos 1980; em todos os demais períodos de nossa história, no pós-Segunda Guerra Mundial, a tecnologia contribuiu de forma positiva para o crescimento da produção por trabalhador”. Qual é a fonte e a metodologia de cálculo? A reportagem não explicita.

Não fazem o cálculo mais óbvio. Como o crescimento está menor, devido tanto ao esfriamento do mercado externo das exportações quanto ao desaquecimento do mercado interno pela política de juro adotada pelo Banco Central desde o ano passado – Selic elevada de 7,25% aa para 11,25% –, e a taxa de desemprego se manteve, com a diminuição da PEA em busca de emprego, matematicamente, a taxa da produtividade (medida por produção/emprego) diminuiu!

Em vez disso, optam por descontruir a imagem pública do governo que venceu a eleição democrática recentemente. “Apenas podemos especular sobre o que terá acontecido. Um fator é que a tecnologia tende a ser pró-cíclica, ou seja, em períodos de expansão econômica há maior incorporação de tecnologia e, em períodos de contração econômica, menor incorporação de tecnologia. Outro componente da explicação do retrocesso tecnológico em 2011-14 deve ser externo – a perda de dinamismo da economia mundial se refletindo em uma menor incorporação de novas técnicas na economia nacional. Finalmente, há o impacto das distorções na economia introduzidas pelo excesso de intervencionismo no governo Dilma. Foram muitas as intervenções que distorceram a alocação de recursos e reduziram a produtividade da economia: do controle de preços no setor energético aos excessos da política de conteúdo nacional, do deslocamento dos bancos privados pelos bancos públicos à escolha de campeões nacionais, dos vaivéns da política monetária aos malabarismos contábeis da política fiscal.”

A conclusão a priori esperada é a postura de não aceitar a derrota eleitoral do programa tucano. Querem forçar sua adoção, via formação midiática da opinião especializada, contra a maioria da opinião pública que votou na continuidade!

“É difícil ser otimista quanto ao futuro próximo nessa área. Por um lado, não há sinais de que a economia internacional se fortaleça. Por outro, a reeleição da presidente Dilma pode significar que serão mantidas as políticas econômicas distorcedoras de seu primeiro mandato”. Isto na opinião deles. Não na opinião da maioria dos eleitores. Eles acreditam que ela vale mais em uma democracia?

Com a superficialidade apresentada em suas previsões, extrapolam a média móvel, desconsiderando as mudanças estruturais em andamento, para estimar o crescimento potencial. “Nesse contexto, é possível supor que, ao longo dos próximos dez anos, se restabeleça a trajetória de progresso técnico que caracterizou os sessenta anos anteriores a 2011. Nesse caso, ao 1% de crescimento da força de trabalho e ao 1,3% por cento da contribuição do aprofundamento do capital por trabalhador, devemos agregar mais 1% por conta do progresso técnico. Assim, obtemos uma estimativa para o crescimento do produto potencial brasileiro de 3,3% ao ano na próxima década.”

Leia mais:

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2014/08/09/produto-potencial-e-produtividade/

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2013/08/19/produto-potencial-metafisica-e-metodologia/

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