Espírito Paulistano: Ai, Como Dói Uma Saudade…

José Mujica - Presidente do UruguaiO Brasil tem uma burguesia paulista muito forte, que custa a entender que não é mais tempo de colonizar, mas sim de juntar aliados para construir empresas transnacionais latino-americanas. Estão muito fechados em São Paulo e com uma visão de elite. Isso tende a provocar um temor em eventuais competidores da região. Isso vai contra à integração. A briga é internacional. Mas São Paulo não pode ir sozinho. Não vamos pedir aos empresários paulistas que sejam socialistas. Mas temos que pedir-lhes que sejam latino-americanos.” Essa sábia declaração foi dada por José Mujica, presidente do Uruguai (Valor, 07/11/14).

Lorenna Rodrigues e Murillo Camarotto (Valor, 07/11/14) informam que, apesar de responder por 31,3% da produção industrial brasileira — o maior percentual entre as 27 unidades da federação – a industrialização crescente em outros locais fez de São Paulo o Estado que mais perdeu participação no PIB da indústria entre 2001 e 2011, último ano com dados disponíveis, período governado por tucanos. Entende-se, então, o “espírito paulistano conservador”, em vez de analisar “o que é“, imaginam “o que deveria ser” de acordo com a ideologia esnobe predominante entre a elite paulistana que se considera “a rainha da cocada-preta”… 🙂

De acordo com o estudo “Perfil da Indústria nos Estados“, divulgado no dia 06/11/14 pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o percentual do Estado de São Paulo recuou 7,7 pontos percentuais na década analisada. Reduções, ainda que menores, foram registradas também por Rio Grande do Sul (-1,2 ponto percentual), Paraná (- 1) e Bahia (-0,2). E nem por isso, os baianos se tornaram conservadores nativistas como os conservadores paulistas e sulinos…

Impulsionado pela indústria de petróleo e gás, o Estado do Rio foi o Estado que registrou maior aumento de participação no PIB industrial, com acréscimo de 2,5 pontos percentuais. Atrás de São Paulo, o Estado tem a segunda maior fatia no indicador, com 12,3% do total. Em seguida, os maiores avanços foram obtidos em Minas Gerais (2,2 pontos), Tocantins (1,5) e Goiás (0,5).

Há uma desconcentração na indústria no Brasil. As empresas estão procurando se aproximar de mercados consumidores ou do fornecimento de seus insumos”, diz o gerente-executivo de pesquisa da CNI, Renato da Fonseca. E isto é bom para diminuir a desigualdade regional do País!

Ele atribui razões diferentes para as mudanças. De acordo com o gerente, a redução na participação de São Paulo pode ser explicada por dificuldades estruturais do grande centro, como a falta de mão de obra barata dos emigrantes nordestinos. Rio de Janeiro e Minas Gerais, por outro lado, devido às características das indústrias locais, foram beneficiados pela melhoria nos preços das commodities.

Em termos regionais, a região Norte foi a que registrou maior expansão, com aumento de 1,9 ponto percentual no PIB industrial no período. O Centro-Oeste aumentou a participação em 1,6 ponto e o Nordeste, em 0,6 ponto. O Sul registrou redução de 2,1 pontos percentuais. Com o recuo expressivo registrado por São Paulo, depois de 20 anos de governos tucanos, também houve queda no Sudeste (-1,7 ponto percentual). Evidentemente, quem sai de baixo, tem maior taxa de crescimento.

A descentralização é positiva porque leva desenvolvimento para outros Estados do país. A tendência é que continue o aumento mais forte nos Estados da região Norte, Centro-Oeste e Nordeste.

O Pará é o Estado em que a indústria responde pela maior participação do PIB local (38,9%), seguido por Amazonas (34,8%) e Espírito Santo (31,1%). No Distrito Federal, a fatia é de apenas 5,6%.

Apesar de considerar a descentralização positiva, a CNI ressalta que o desempenho da indústria brasileira vem caindo ano a ano. Mesmo após o encerramento do processo eleitoral, os lobistas representantes da indústria nacional já cobram dos políticos eleitos uma série de iniciativas visando o favorecimento do setor para crescimento da produção industrial. Não fazem uma abordagem estruturalista e global.

Com o encerramento do 9º Encontro Nacional da Indústria, em Brasília, onde vaiaram petistas e aplaudiram gente conservadora, a CNI divulgou documento no qual desafia a classe política a implementar uma “correção de rota” na economia. A “Carta da Indústria 2014” elenca uma série de pontos que devem ser resolvidos durante a próxima legislatura, que termina em 2018.

Entre as principais demandas do setor estão as reformas tributária e das relações de trabalho, bem como redução da taxa de juros, câmbio competitivo, melhoria na qualidade dos serviços públicos e expansão dos investimentos em infraestrutura. Só?!

O documento também pede a desburocratização da política comercial e o avanço dos indicadores de qualidade da educação. “A mensagem principal é que a indústria tem pressa”, disse o diretor de políticas e estratégia da CNI, José Augusto Fernandes. Por que não propagam menos ideologia conservadora interesseira, trabalham mais e tomam o exemplo de humildade de José Mujica?

Jose Mujica

O fusca azul 1987 do presidente José Mujica está sendo cobiçado por um xeque árabe. Segundo o semanário uruguaio “Búsqueda“, Mujica recebeu uma oferta de US$ 1 milhão pelo carro, que tem valor estimado em 70 mil pesos (cerca de R$ 7,3 mil). Ele também foi sondado pelo embaixador mexicano Felipe Enríquez, que ofereceu dez caminhonetes de tração dupla em troca do Volkswagen. “Fizeram uma proposta. Isso me surpreendeu um pouco e duvidei dessa importância toda, mas depois que outra proposta chegou levei um pouco mais a sério. Se a venda se concretizar, todo o dinheiro irá para o Plan Juntos [programa de construção de casas para pessoas sem recursos]”, disse Mujica.

3 thoughts on “Espírito Paulistano: Ai, Como Dói Uma Saudade…

  1. A submissão acatada pelos trabalhadores extrapolou todos os limites históricos. À atenuação da “luta-de-classe” virou um discurso de alienação de ódio, não que os marxistas não alimentem o ódio de classe, porém estamos falando de algo semelhante a síndrome de estocolmo. Nunca vi o proletário defender tanto a burguesia (Desorientação de Consciência de classe) se achando burguês, e até entrar em um processo de auto rejeição. Alguns devaneios bobos me torturam e questões pairam além do meu alcance. Seria isso uma relação de avanço na harmoniosidade de interesses de classe??? Ou seria isso um retrocesso e uma relação de servidão cada vez mais agravante???

    • Prezado Victor Hugo,
      então, Marx não errou ao resumir o processo histórico futuro à luta de duas classes antagônicas? Onde fica a classe média ascendente?

      Nos últimos anos, a simplificação de Marx entrou em descrédito. A história não se restringe a um conflito perpétuo entre grupos coletivos em rixa.

      Uma mesma sociedade singular tem sido descrita pelo menos em três formas diferentes e contraditórias:
      1. Como uma hierarquia individualista, tradicional e complexa, unida por uma corrente invisível;
      2. Como três grupos coletivos: as classes superior, média e baixa;
      3. Como uma fenda fundamental entre a classe rica e as pessoas comuns: um “nós” e “eles”.

      As três versões da estrutura social são simplificações extremas de um realidade muito mais complexa. O quadro hierárquico implica que todos possam ser colocados em uma única grande cadeia de cidadãos. Presume que cada indivíduo tem um posto na ordem das coisas divinamente pré-estabelecida. A obediência, a subordinação e a deferência são atitudes naturais e valores que o sustentam. Na prática social, não é assim.

      O modelo de três categorias estanques não faz justiça à diversidade da economia. Pressupõe, erroneamente, que a profissão é a única e exclusiva chave para identidades sociais. Desenvolveu-se a partir de agrupamentos medievais de religiosos, guerreiros e lavradores. A Economia Política dividiu também a sociedade em três ordens:
      1. os improdutivos que viviam de rendas de arrendamentos e/ou aluguéis,
      2. os produtores que viviam de lucros, e
      3. os trabalhadores que ganhavam salários em troca de sua força de trabalho.

      A idéia de que a sociedade foi (ou é) separada por uma ampla linha divisória maniqueísta ignora o fato de que pessoas diversas traçaram essa linha de maneira desigual e em níveis diferentes. O conflito de interesses não foi biunívoco, senão essa estrutura social, provavelmente, já estaria destruída.

      O mesmo modelo dicotômico dividiu a sociedade, no século XVIII, entre:
      1. de um lado, os ilustres, a qualidade ou os grã-finos, e
      2. de outro, os pobres, a turba ou as pessoas comuns.

      No século passado, Marx e Engels tentaram universalizar a luta entre a burguesia e o proletariado, ou o capital e o trabalho. Agora, no final do milênio, a própria esquerda reconhece o insucesso da tentativa.

      Enfim, usamos uma dessas descrições ou outra, muitas vezes inconscientes de estarmos fazendo isso. Essas três versões da ordem social, descritas pelo termo resumido de “classe”, são versões imaginadas, isto é, as diferenças de classes podem ser inexatas, pois são uma construção cultural.

      Conquistas sociais foram obtidas com mudanças de regras do jogo do livre-mercado, colocando travas institucionais frente à exploração, e não a liberdade do funcionamento do sistema em seu estado puro, como defendem os fundamentalistas.

      Países com melhores distribuições de renda conquistaram-nas com lutas sociais, desde o violento sindicalismo de resultados norte-americano, passando pelo ideológico sindicalismo social-democrata europeu, até as revoluções totalitárias do leste-europeu e da Ásia.

      Por exemplo, a menor desigualdade educacional foi uma conseqüência de política pública e não de lei do mercado, como sugerem os economistas neoliberais.
      att.

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