Mythos e Logos: Dois Modos de Pensar, Falar e Adquirir Conhecimento

Em nome de DeusTendemos a achar que nossos ancestrais eram (mais ou menos) como nós, porém, na verdade, possuíam uma vida espiritual diferente da nossa. Tinham dois modos de pensar, falar e adquirir conhecimento, aos quais os estudiosos, segundo Karen Armstrong, no livro Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo (Tradução: Hildegard Feist. São Paulo; Companhia das Letras; 2001), deram os nomes de:

  1. mythos e
  2. logos.

Ambos os modos eram essenciais, visto como métodos complementares de se chegar à verdade, e cada um tinha sua área especial de competência.

O mito, considerado primário, referia-se ao que se julgava intemporal e constante em nossa existência. Remontava às origens da vida, aos fundamentos da cultura, aos níveis mais profundos da mente humana. Reportava-se a significados, não a questões de ordem prática. Se não encontramos algum significado em nossa vida, facilmente nos desesperamos.

O mythos de uma sociedade proporcionava-lhe um contexto que dava sentido a seu cotidiano; dirigia sua atenção para o eterno e o universal. Também se arraigava no que chamaríamos de inconsciente.

As histórias da mitologia, que não pressupunham uma interpretação literal, constituíam uma forma antiga de Psicologia. Quando contavam historias de heróis que desciam ao mundo dos mortos, percorriam labirintos ou lutavam com monstros, as pessoas traziam à luz as regiões obscuras do subconsciente que é inacessível á investigado puramente racional, mas tem um profundo efeito sobre nossa experiência e nosso comportamento. A falta de mito na sociedade moderna obrigou-nos a conceber a ciência da Psicanálise para nos ajudar a lidar com nosso mundo interior.

O mito não comportava demonstrações racionais; suas percepções eram mais intuitivas, como as da arte, da música, da poesia, da escultura. O mito se tornava realidade quando incorporado num culto, em rituais e cerimônias que tinham um impacto estético sobre os devotos, inspirando-lhes um senso do significado sagrado e habilitando-os a apreender as correntes mais profundas da existência.

Mito e culto eram tão inseparáveis que cabe aos acadêmicos discutir o que surgiu antes:

  1. a narrativa mítica ou
  2. os rituais a ela ligados.

O mito também estava associado ao misticismo, ao mergulho na psique através de estruturadas disciplinas de concentração que todas as culturas desenvolveram para tentar chegar à percepção intuitiva. Sem culto ou práticas místicas, os mitos religiosos não teriam sentido. Continuariam sendo abstratos e incríveis, mais ou menos como uma partitura musical que precisa de intérprete para expor sua beleza.

O mundo pré-moderno tinha uma visão diferente da historia. Interessava-se menos que nós por o que efetivamente acontecerá e se preocupava mais com o significado do acontecimento. Via os incidentes históricos não como ocorrências únicas, situadas em uma época distante, e sim como manifestações exteriores de realidades constantes, intemporais. A história tendia, portanto, a repetir-se, pois não havia nada de novo sob o sol. As narrativas históricas tentavam ressaltar essa dimensão eterna.

Assim, não sabemos o que de fato ocorreu quando os antigos israelitas escaparam do Egito e atravessaram o mar vermelho. 0 episódio foi registrado deliberadamente como mito e relacionado com outras narrativas referentes a ritos de passagem, imersão nas profundezas e deuses que abrem mares para criar uma nova realidade. Os judeus vivenciam esse mito anualmente nos rituais da Páscoa, que transportam essa estranha historia para sua vida e os ajudam a incorporar seu significado.

Karen Armstrong diz que, para tornar-se religioso, um fato histórico tem de ser mitificado desse modo e libertado do passado em um culto inspirador. Perguntar se os êxodos do Egito acontecem exatamente como está na Bíblia ou exigir evidencias históricas e científicas que comprovem sua verdade factual equivale a desentender a natureza e o propósito desse relato. Equivale a confundir mythos com logos.

Igualmente importante, os logos é o pensamento racional, pragmático e científico que permite a boa atuação do homem no mundo. O sentido do mythos pode ter se perdido no Ocidente moderno, mas os logos nos é familiar, constitui a base de nossa sociedade. Para ser eficaz, o logos, ao contrario do mito, precisa ater-se aos fatos e corresponder a realidades exteriores. Precisa funcionar com eficiência no mundo profano.

Usamos esse raciocínio lógico e discursivo quando temos de:

  1. suscitar acontecimentos,
  2. conseguir alguma coisa ou
  3. convencer os outros a adotarem determinado procedimento.

O logos é prático. Ao contrario do mito, voltado para as origens, o logos avança e tenta encontrar algo novo:

  1. explorar velhas percepções,
  2. adquirir maior controle sobre o meio que nos cerca,
  3. descobrir e inventar novidade.

Mythos e logos eram indispensáveis para o mundo pré-moderno. Dependiam um do outro para não empobrecer. Contudo eram essencialmente distintos, e considerava-se perigoso confundir seus discursos. Cada qual tinha sua função.

O mito não era racional; suas narrativas não comportavam demonstrações empíricas. O mito fornecia o contexto que dava sentido e valor às atividades práticas. Tomá-lo como base de uma política pragmática podia ter consequências desastrosas, porque o que funcionava bem no mundo interior da psique não se aplicava necessariamente aos assuntos do mundo exterior.

Por exemplo, ao convocar a primeira Cruzada, em 1095, o papa Urbano II agiu no plano do logos. Queria que os cavaleiros europeus parassem de lutar entre si e de dividir a cristandade ocidental e fossem gastar suas energias em guerra no Oriente Médio e ampliar o poder da Igreja. No entanto, quando essa expedição militar se misturou com mitologia popular, textos bíblicos e fantasias apocalípticas, o resultado foi catastrófico do ponto de vista prático, estratégico e moral.

Durante o longo período das Cruzadas, seus participantes prosperaram sempre que o logos prevaleceu. Tiveram bom desempenho no campo de batalha, fundaram colônias viáveis no Oriente Médio e aprenderam a relacionar-se satisfatoriamente com a população local. Quando começaram a basear sua conduta em uma visão mítica ou mística, amargaram frequentes derrotas e cometeram terríveis atrocidades.

O logos também têm suas limitações. Não pode aliviar a dor ou o sofrimento. Argumentos racionais não explicam uma tragédia. O logos não sabe responder perguntas sobre o valor da vida humana. O cientista pode tornar as coisas mais eficientes e descobrir fatos maravilhosos acerca do universo físico, porém não consegue decifrar o sentido da vida. Isso compete ao mito e ao culto.

5 thoughts on “Mythos e Logos: Dois Modos de Pensar, Falar e Adquirir Conhecimento

  1. Prezado Fernando,

    hoje o mito não funciona mais e coloca seus seguidores em uma profunda submissão emocional. Isso acontece com aqueles que seguem as chamadas religiões pentecostais, cujos referidos pastores enriquecem e riem do empobrecimento de seus incautos.

    Outra exploração do mito é uma prática usada pelas pseudociências como: homeopatia, ufologia, psicanálise, seitas, etc.

    Mas o pior mito da atualidade é o chamado criacionismo ou DI (design inteligente). A exploração desse mito está tentando ensinar sobre Deus nas aulas de ciências, algo completamente absurdo, visto que a ciência não encontrou qualquer Deus.

    Para aqueles que desejam um conhecimento detalhado sobre esse mito sugiro o seguinte vídeo do Pirulla: Saiba o que é o criacionismo e porque de sua negação (excelente resumo): http://rcristo.com.br/2013/07/11/saiba-o-que-e-o-criacionismo-e-porque-de-sua-negacao/

    Recomendo a leitura do livro: Agonia das Religiões – J.Herculano Pires Franco Epub: http://lelivros.club/book/download-agonia-das-religioes-j-herculano-pires-franco-em-epub-mobi-e-pdf/

    Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      de acordo. Estou publicando em série alguns capítulos sobre a Historia do Fundamentalismo Religioso, elaborada por Karen Armstrong. É muito interessante conhecer as origens deles como uma reação à modernidade nas 3 grandes religiões ocidentais: cristianismo, judaísmo e islamismo.

      Seu conhecimento nós dá empatia, além de deixar também clara a origem do ateísmo. Fora que acho que temos de conhecer o fundamentalismo religioso para entender a geopolítica econômica internacional contemporânea, principalmente para compreender os conflitos do Oriente Médio.
      abs.

      • Prezado Fernando,

        aprecio o seu trabalho, é um esforço magnífico na elaboração da compreensão histórica de como a crença evoluiu até o presente momento.

        Penso que as três grandes religiões estão sofrendo hoje um afunilamento e uma compressão desse secularismo, o que provoca conflitos preocupantes na região onde esse embate está acalorado, principalmente no oriente médio.

        A boa notícia é que para o restante do planeta, o Ateísmo está ganhando cada vez mais terreno e conquistado as pessoas esclarecidas. Um povo sem Deus é voltado para as questões tecnológicas, planetárias, ecológicas e humanitárias; algo sublime, visto que esses valores foram transferidos de um povo com religião para os sem religião assim como afirmou Nietzsche em transvaloração de todos os valores. Abs.

      • Prezado Reinaldo,
        lendo esse livro saquei que os fundamentalistas têm mais medo dos ateus secularistas do que nós deles. Eles reagem contra o medo da modernidade ultrapassar suas religiões, ou seja, o logos superar o mythos. Karen Armstrong conclui que, para a boa tolerância e convivência mútua, cada qual terá de ter empatia com o outro.

        Tem de haver um pacto social de não agressão, ou seja, a compreensão que ninguém conseguirá exterminar o outro. O secularismo tem que “dar tempo ao tempo” de cada qual…
        abs

  2. o mito primordial se refere a cosmogonia, o qual trata sobre o surgimento do universo e logo apos a teogonia,que trata sobre os deuses, aprendam!!!

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