Baruch Spinoza (1632-1677): Inserção do Logos Moderno em Ordem Mítica

Spinoza

Baruch de Espinoza (24 de novembro de 1632, Amsterdã — 21 de fevereiro de 1677, Haia) foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Nasceu em Amsterdã, nos Países Baixos, no seio de uma família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno.

Na mesma época em que excomungaram Juan del Prado (leia post anterior) pela primeira vez, Karen Armstrong conta, em seu livro Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo (Tradução: Hildegard Feist. São Paulo; Companhia das Letras; 2001), que os rabinos se voltaram contra Baruch Spinoza, que tinha então 23 anos de idade. Ao contrário de Prado, Spinoza nasceu em Amsterdam. Seus pais eram marranos judaizantes em Portugal e, quando se instalaram em Amsterdam, conseguiram fazer a transição para o judaísmo ortodoxo. Portanto, Spinoza não sofreu perseguição enquanto não se tornou um incômodo.

Sempre morou na liberal Amsterdam, onde tinha acesso à vida intelectual dos gentios e podia praticar sua religião livremente. Recebeu uma educação tradicional na esplêndida escola Keter Torah, mas também estudou Matemática, Astronomia e Física.

Destinado ao comércio, parecia devoto, mas, em 1655, pouco antes da chegada de Prado a Amsterdam, parou de frequentar a sinagoga e começou a expressar dúvidas. Assinalou contradições nas Escrituras que, a seu ver, provavam que o texto bíblico tinha origem humana, e não divina. Negou a possibilidade da revelação e afirmou que “Deus” era simplesmente a totalidade da natureza.

Em 27 de julho de 1656 foi excomungado pelos rabinos e, ao contrário de Prado, não pediu para permanecer na comunidade. Afastou-se sem pesar e tornou-se o primeiro europeu que conseguiu viver bem à margem da religião estabelecida.

Spinoza teve mais facilidade que Juan del Prado ou Uriel da Costa para sobreviver no mundo dos gentios. Era um gênio, capaz de definir claramente sua posição e de sustentar-se no inevitável isolamento decorrente de sua independência. Sentia-se à vontade na Holanda e, graças à mesada razoável que recebia de protetores poderosos, estava livre da pobreza. Se polia lentes, não era para ganhar o pão, como acreditam alguns, mas para ampliar seus conhecimentos de óptica. Embora conquistasse a amizade de ilustres cientistas, filósofos e políticos gentios da época, continuava solitário. Sua irreligião chocava ou desconcertava judeus e cristãos.

No entanto, havia espiritualidade em seu ateísmo, pois para ele o mundo era divino, era uma visão do Deus imanente na realidade terrena que o enchia de medo e admiração. Spinoza via o estudo e o pensamento filosóficos como uma forma de oração.

Conforme explicou em seu Breve Tratado sobre Deus (1661), a divindade não é um objeto a ser conhecido, mas o princípio de nosso pensamento. Por conseguinte a alegria que sentimos ao alcançar o conhecimento constitui o amor intelectual de Deus.

O verdadeiro filósofo cultiva o que Spinoza chamou de conhecimento intuitivo, um lampejo de percepção que reúne toda a informação adquirida discursivamente e que corresponde a uma experiência do que ele acreditava ser Deus. A tal experiência deu o nome de “beatitude“: nesse estado o filósofo compreende que é inseparável de Deus e que Deus existe através dos seres humanos.

Trata-se de uma Filosofia mística, que Karen Armstrong considera como uma versão racional do tipo de espiritualidade cultivado por João da Cruz e Teresa de Ávila, mas Spinoza não tinha paciência com essa espécie de percepção religiosa. Segundo ele, o anseio por um Deus transcendente afasta a humanidade de sua natureza.

Posteriormente alguns filósofos achariam embaraçosa sua busca do êxtase da beatitude e descartariam seu Deus. Todavia, por se concentrar neste mundo e negar o sobrenatural, Spinoza se tornou um dos primeiros secularistas europeus.

Como muitos modernos, ele tinha aversão a toda religião formal. O que não surpreende, dada sua experiência de excomunhão. Spinoza recusou toda religião revelada como um “misto de credulidade e preconceitos”, um “amontoado de mistérios sem sentido”.

Encontrara o êxtase no uso livre da razão, não no texto bíblico, e, assim, tinha uma visão das Escrituras inteiramente objetiva. Dizia que se devia ler a Bíblia como se lê qualquer texto e não corno uma revelação do divino. Foi um dos primeiros a estudar a Bíblia cientificamente, examinando os antecedentes históricos, os gêneros literários e a questão da autoria.

Também a utilizou para esmiuçar suas ideias políticas. Foi um dos primeiros europeus a promover o ideal de um Estado secular e democrático que seria uma das características da modernidade ocidental. Argumentou que, quando os sacerdotes adquiriram mais poder que os reis de Israel, as leis do Estado se tornaram punitivas e restritivas.

Em sua origem, o reino de Israel era teocrático, mas a voz do povo prevalecia, pois Deus e o povo eram exatamente a mesma coisa. Quando os sacerdotes assumiram o comando, não se pôde mais ouvir a voz de Deus.

No entanto, Spinoza não tinha nada de populista. Elitista, como a maioria dos filósofos pré-modernos, considerava as massas incapazes de pensar racionalmente. As massas precisavam de alguma forma de religião que lhes proporcionasse um mínimo de esclarecimento, mas essa religião devia ser reformada e ter como base não a lei revelada, e sim os princípios naturais de justiça, fraternidade e liberdade.

Spinoza foi, sem dúvida, um dos precursores do espírito moderno e mais tarde se tornaria uma espécie de herói para os judeus secularistas, conquistando sua admiração por haver deixado honradamente o abrigo da religião. Em vida, porém, não teve seguidores entre os judeus, apesar de muitos deles parecerem prontos para uma mudança fundamental.

Mais ou menos na mesma época em que desenvolvia seu racionalismo secular, um fervor messiânico se apoderou do mundo judaico. Trata-se de um dos primeiros movimentos milenaristas da modernidade, que proporcionou a homens e mulheres um modo religioso de romper com o passado e buscar algo inteiramente novo. Reencontraremos isso várias vezes em nossa história.

Pouca gente consegue entender a elite intelectual que propôs as filosofias secularistas da era moderna. A maioria fizera a transição para o mundo novo através da religião, que propicia alguma consoladora continuidade com o passado e insere o logos moderno em uma ordem mítica.

5 thoughts on “Baruch Spinoza (1632-1677): Inserção do Logos Moderno em Ordem Mítica

  1. O que tem de de conhecimento e sabedoria oriental em Baruch Spinoza?
    Os Gregos já escreveu a 2500 anos (Herodotus): “o Oriente é o berço de toda a civilização e de toda sabedoria.”

    Desde a viajem de Marco Polo no século XIII para a China, que precede a Divina Comédia (1308-1321, Séc. XIV) de Dante Alighieri, a viajem dos Jesuitas (Macau em 1552), os europeus pré-renascentista e renascentistas, beberam na fonte da civilização greco-romana e da civilização chinesa, nesse período até o começo da idade moderna no ocidente, foram escritos centenas, se não milhares de livros sobre a cultura chinesa.
    Como diz o texto, somente na primeira metade do século XVIII, na fermentação do iluminismo, foram publicados 599 livros sobre a China.
    (…) In the first half of the 18th century – the heyday of the Enlightenment – 599 foreign language books about China were published. In these texts, China’s Confucian ethics and philosophy, the view that man is a part of nature,….”
    Europe’s 500-Year Chinese Dream
    http://english.cntv.cn/special/newleadership/chinesedream03.html

    E a cultura intelectual livresca tupiniquim?

    Como diria Darcy Ribeiro sobre os intelectuais livresco tupiniquim, “os agentes europeuzinho aqui”, ou Gilberto Freyre, sobre o Brasil ser a “China Tropical” (2011), portanto antes de Darcy Ribeiro, já alertava sobre nossa propensão em europeizar-se e americanizar-se, embora em nossa formação, sejamos bem menos influenciados pela cultura europeia que achamos, temos em nossa raízes, em nossa cultura popular, bem mais mouros que supomos, assim como da cultura chineses e claro, africana, mas continuamos a ver o mundo somente do ponto de vista dos europeus, dos americanos, e aí “demos uma enorme dificuldade em entender o mundo” (Milton Santos).

    Em um debate no CCBB em sampa, alguns anos atrás, sobre o filme Jango (1984), de Sílvio Tendler, com ele presente no debate, argumentei que a melhor definição sobre o golpe de 1964, na minha modesta e limitada visão, foi definida pelas palavras de Leonel Brizola, quase meio século depois e anos antes dele morrer, disse ele sobre a esquerda no poder em 1961: “Ganhamos o poder de graça e não sabíamos o que fazer” e emendei sobre a minha visão do filme, o filme mostra como somos uma sociedade de maturidade estudantil, ainda estamos na adolescência da mediocridade, na qual fui veementemente contestado pelo diretor do filme.

    Nesse crise e diria, fim de um ciclo da democracia brasileira, na qual a esquerda, com base sindicalista, chegou ao poder novamente, depois de 12 anos, vemos que as estruturas patrimonialistas não mudou quase nada, continuamos gastando 45% do que arrecadamos com juros da dívida, a pequena grande mudança – quirelas de pão – que foi implementada, o Bolsa Família, foi feito pela percepção e intuição de Lula, pois a depender de sua equipe de auxiliares petista, não teria implementado.

    La nave va

    • Prezado Oswaldo,
      só discordo de sua avaliação final: “o Bolsa Família, foi feito pela percepção e intuição de Lula, pois a depender de sua equipe de auxiliares petista, não teria implementado”.

      Sugiro rever essa informação, pois fui testemunho ocular, na Caixa, que muitos colegas que, de fato, participaram da implementação prática do Programa Bolsa Família, não mereceram nenhum crédito. Entre os quais, destaco Jorge Mattoso, pois a Caixa Econômica Federal desenvolveu a estrutura técnica para alcançar milhões de beneficiários em todo o país, Ana Fonseca, estudiosa do tema que mais tarde coordenaria o Bolsa Família, e o idealizador do Programa Fome Zero, o professor José Graziano da Silva, do Instituto de Economia da Unicamp, atual presidente da FAO. Isto sem falar no papel-chave do ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias.
      att.

      • Fernando,
        Concordo com você, o time, as pessoas que participaram da implementação prática do programa, é de primeira, mas você sabe que a ideia original não era do PT, e a turma do “apparatique’ partidário foi contra, essa ideia já tinha sido apresentada à FHC, mas ele e sua sensibilidade de príncipe da sociologia livresca, perdeu mais essa, e essa é a essência da majoritária elite livresca tupiniquim,…..

        Outra história, ano passado, num debate na FFLCH, com nada mais nada menos com um dos formadores de nossa história recente, que admiro e respeito, Luiz Felipe de Alencastro, com seu “TRATADO DOS VIVENTES”, numa entrevista na Revista FAPESP em outubro de 2011, disse, o Brasil comprou sua independência, D. Pedro I fez um acordo com a Inglaterra para assumir o Trono em Portugal”, ou seja, pode-se dizer que é um demiurgo, para aumentar a lista de mestre Antonio Candido, como Celso Furtado, Raymundo Faoro etc.

        Fiz a ele uma última pergunta e provocação, disse que em 2014 faria 100 anos que as forças armadas francesas havia invadido a casa de Santos Dumont para, entre outros, roubar os projetos dele de aviação, com a desculpa de que estaria traindo a França blablablá, pode se dizer que é um segundo caso Dreyfus, guardadas as devidas proporções.
        Perguntei-lhe: Quantos vezes vocês questionou as autoridades francesas para se reparar e se desculpar sobre esse episódio?
        Ele ficou com o rosto vermelho na hora, ou seja, certamente conhecia as injustiças que foi feita contra Santos Dumont e consequentemente com a história e o Brasil, mas admitiu que jamais abriu a boca, nem um a palavra sobre o assunto, assim como os milhares de intelectuais tupiniquim que foram e vão pegar sua chancela da especialização francesa.

        Esses anos de participação em algumas universidades, universidades que tem algumas ilhas de excelência, mas no geral são uma ilha da fantasia, não tem e nunca teve nada com a cultura popular do povo brasileira, deparei-me com a música da Maysa, “Meu Mundo Caiu”, e então meu caro, “se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar”.

        Gostaria de acrescentar que sou otimista com relação ao Brasil, dentro da perspectiva de tempo oriental, para tal peguei emprestado a figura de linguagem de Machado de Assis, incorporei o personagem Brás Cubas, sou ele no fim do século XXI, estou olhando a história do Brasil, principalmente do meio do século para o fim, acredito que muita coisa vai mudar nesse século, porque o Brasil ainda nem conhece sua história, ou seja, “o importante é inventar o Brasil que nós queremos”.
        La nave va.

      • Prezado Oswaldo,
        de acordo, de acordo…

        Ontem, lendo o obituário de Márcio Thomaz Bastos, pensei mais uma vez a respeito desse exemplo de gente boa que busca “inventar o Brasil que nós queremos”. Já colhemos alguns frutos do que ele e sua equipe implantaram para o combate à corrupção.

        Sei que há léguas a nos separar
        Tanto mar, tanto mar
        Sei, também, que é preciso, pá
        Navegar, navegar

        abs

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