Gueto

Ettore_Roesler_Franz,_Gueto alagado

Imagem acima: o gueto de Roma quando o rio o inundava.

Em meados do século XVII, muitos judeus pareciam inconformados com sua situação. Em nenhum outro lugar da Europa encontravam a liberdade que os marranos tinham em Amsterdam. O radical afastamento de Spinoza (ler post anterior) só foi possível por que ele se misturara com os gentios e estudara as novas ciências.

No resto da cristandade os judeus viviam à margem da sociedade. No século XVI viram-se confinados ao distrito especial conhecido como “gueto“, onde levavam uma vida inevitavelmente introvertida. A segregação intensificou o preconceito antissemita, e os judeus naturalmente reagiram com amargor e desconfiança dos gentios que os perseguiam.

O gueto se tornou um mundo auto contido, com suas próprias escolas, instituições sociais e beneficentes, casas de banho, cemitérios e matadouros. A kehilla (governo comunal) de rabinos e anciões eleitos presidia seus próprios tribunais, de acordo com a lei judaica.

O gueto era um mundo autônomo, um Estado dentro de um Estado, e seus habitantes tinham pouco contato – e pouca vontade de tê-lo – com a sociedade dos gentios.

Em meados do século XVII, porém, muitos se revoltavam com essas limitações. Os guetos geralmente se situavam em locais insalubres e miseráveis. Cercados de muros altos eram superpovoados e não tinham como se expandir. Não havia espaço para jardins, nem mesmo nos guetos maiores de Roma ou Veneza. A única maneira de ampliar as acomodações consistia em acrescentar novos andares aos edifícios existentes, e, como nem sempre os alicerces podiam suportar acréscimos, sucediam-se os desabamentos. O perigo de incêndio e epidemias era constante.

Os judeus tinham de usar roupas que os distinguiam, sofriam restrições econômicas e suas opções profissionais praticamente se resumiam em mascate e alfaiate. Não podiam ter nenhuma grande empresa comercial, e muitos dependiam da caridade.

Privados da luz do sol e do contato com a natureza definhavam fisicamente. Apartados das artes e das ciências europeias, estavam também mentalmente confinados. Tinham boas escolas, mas continuavam estudando apenas a Torá e o Talmude, enquanto o currículo escolar da cristandade se tornava mais liberal, a partir do século XV. Imersos em seus próprios textos e tradições culturais, tendiam a atrofiar seus conhecimentos, concentrando-se em minúcias.

No mundo muçulmano, não sofriam tantas restrições. Como os cristãos, constituíam dhimmis (“minorias protegidas”), contando com proteção civil e militar, desde que respeitassem as leis e a supremacia do Estado islâmico. Não eram perseguidos, pois lá não havia tradição de antissemitismo, e, embora fossem cidadãos de segunda classe, gozavam de plena liberdade religiosa, podiam cuidar de seus assuntos em conformidade com suas próprias leis e tinham maiores possibilidades de participar da cultura e do comércio.

No entanto, como os acontecimentos demonstrariam, também estavam cada vez mais inquietos e ansiavam por maior emancipação. Desde 1492, recebiam notícias dos desastres que se sucediam na Europa e em 1648 horrorizaram-se com relatos das atrocidades cometidas na Polônia – atrocidades que até o século XX não teriam paralelo em sua história.

A Polônia havia anexado grande parte do que hoje é a Ucrânia, e os camponeses locais formaram esquadrões de cavalaria para organizar sua defesa. Esses “cossacos” odiavam tanto os poloneses quanto os judeus, que geralmente administravam as propriedades dos nobres poloneses.

Em 1648, atacaram a ambos, em insurreição liderada por Boris Chmielnicki. Rezam as crônicas que, quando a luta terminou, em 1667, haviam sido mortos 100 mil judeus e destruídas trezentas comunidades judaicas. Esses números provavelmente são exagerados, mas as cartas e histórias dos refugiados aterrorizaram os judeus em todo o mundo. Descreviam massacres em que judeus foram despedaçados, valas comuns em que foram enterradas mulheres e crianças judias, execuções entre judeus por ordem dos cossacos.

Muitos acreditavam que esses fatos correspondiam às tão esperadas “dores do parto do Messias” e, numa tentativa de apressar a redenção messiânica, recorreram aos ritos e penitências da Cabala luriânica.

Em 1683, cerca de duzentas famílias judias da Turquia otomana adotaram o islamismo. Essa seita de donmeh (“conversas”) tinha suas sinagogas clandestinas, mas também rezava nas mesquitas. Em seu apogeu, na segunda metade do século XIX, contava aproximadamente 115 mil adeptos. Começou a desintegrar-se no início do século XX, quando seus membros passaram a receber uma educação moderna, secular, e já não sentiam necessidade de qualquer religião. Alguns jovens donmeh atuaram na rebelião secularista dos Jovens Turcos, em 1908.

Outro movimento radical foi mais sinistro e demonstrou o niilismo que pode resultar de uma tradução literal do mito em ação concreta. O polonês Jacob Frank (1726-91) iniciou-se no shabbetaísmo quando visitou os Bálcãs. Ao retornar para seu país, fundou uma seita clandestina cujos adeptos observavam publicamente a lei judaica, mas secretamente se dedicavam a práticas sexuais proibidas. Excomungado em 1756, Frank se converteu primeiro ao islamismo (durante uma visita à Turquia) e depois ao catolicismo, levando consigo seu rebanho.

Frank não se limitou a rejeitar as restrições da Tora, mas abraçou claramente a imoralidade. A seu ver a Tora era não só antiquada, como perigosa e inútil. Os mandamentos eram leis da morte, e cumpria descartá-los. Somente através do pecado e do despudor podia-se alcançar a redenção e encontrar Deus.

Frank não chegara para construir, mas “apenas para destruir e aniquilar”. Seus seguidores estavam empenhados em uma guerra contra todas as normas religiosas: “Eu lhes digo que os guerreiros não podem ter religião, o que significa que devem alcançar a liberdade por suas próprias forças”.

Como muitos secularistas radicais da atualidade, Frank considerava nociva toda religião. Com o progresso do movimento, os frankistas se voltaram para a política, sonhando com uma grande revolução que apagaria o passado e salvaria o mundo. Para eles a Revolução Francesa constituiu um sinal de que sua visão era verdadeira e que Deus interferira em seu favor.

Os judeus anteciparam muitas das posturas do período moderno. Seu encontro doloroso com a sociedade europeia, agressivamente modernizadora, levou-os ao secularismo, ao ceticismo, ao ateísmo, ao racionalismo, ao niilismo, ao pluralismo e à privatização da fé.

Para a maioria, o caminho do mundo novo que se abria no Ocidente passava pela religião, porém essa religião era muito diferente do tipo de fé habitual para nós, no século XX. Tinha uma base mais mítica; não fazia uma leitura literal das Escrituras e estavam plenamente preparadas para apresentar soluções novas, algumas das quais pareciam chocantes em sua busca de novidades.

Para entender o papel da religião na sociedade pré-moderna, segundo Karen Armstrong, autora de “Em Nome de Deus”, temos de nos debruçar sobre o mundo islâmico, que no inicio da era moderna sofria suas próprias convulsões e desenvolvia diferentes formas de espiritualidade, que continuariam a influenciar os muçulmanos pela modernidade adentro.

venice-ghetto Imagem acimaKids playing soccer in the Venetian ghetto. Only a handful of Jews live in Venice and very few live in the old ghetto region.

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