Revolução Norte-americana e Contexto Mitológico

Pais Fundadores dos EUA

Os líderes da Revolução Norte-americana – George Washington, John e Samuel Adams, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, por exemplo – viam-na como um acontecimento secular. Eram racionalistas homens do Iluminismo, inspirados pelos ideais modernos de John Locke, pela filosofia escocesa do Bom Senso, pela ideologia whig radical. Eram deístas e diferiam dos cristãos mais ortodoxos no tocante à revelação e à divindade de Cristo. Conduziram uma ofensiva sensata e pragmática contra uma potência imperial e demoraram a aceitar a revolução.

Certamente não se imaginavam travando uma guerra cósmica contra as legiões do Anticristo. Quando a ruptura com a Inglaterra se tornou inevitável, definiram um objetivo prático e restrito ao plano terreno: as “colônias unidas são e devem ser por direito Estados livres e independentes”.

A Declaração de Independência, redigida por Jefferson com a colaboração de John Adams e Franklin, e ratificada pelo Congresso Continental em 4 de julho de 1776, é um documento iluminista. Baseia-se no ideal dos direitos humanos expostos por Locke e definidos como “vida, liberdade e busca da felicidade”, Endossa os modernos ideais de independência, autonomia e igualdade em nome do Deus da Natureza dos deístas. Todavia não é politicamente radical. Não fala em redistribuir a riqueza da sociedade, nem em estabelecer uma ordem milenar. Prática, racional, lógica, delineia um plano de ação extenso, mas sustentável, segundo Karen Armstrong.

Entretanto, os Pais Fundadores da República Norte-americana compunham uma elite aristocrática de ideias atípicas. A vasta maioria dos americanos era calvinista e não podia acatar o etos racionalista. Na verdade, muitos consideravam o deísmo uma ideologia satânica.

A princípio, o grosso dos colonos relutaram tanto quanto seus líderes em romper com a Inglaterra. Nem todos participaram da campanha revolucionária. Cerca de 30 mil combateram ao lado dos ingleses, e depois da guerra um número entre 80 mil e 100 mil deixou os novos estados e migrou para o Canadá, as Índias Ocidentais ou a Inglaterra.

Os que escolheram lutar pela independência seriam tão motivados pelos velhos mitos e sonhos milenaristas do cristianismo quanto pelos ideais secularistas dos Fundadores. Tornou-se difícil separar o discurso religioso do político. As ideologias secularistas e religiosas se misturaram para permitir a união dos colonos, que acalentavam esperanças divergentes em relação aos Estados Unidos, contra o poderio imperial da Inglaterra.

Karen Armstrong alerta que ocorreu uma aliança semelhante de idealismo religioso e secularista na Revolução lslâmica iraniana (1978-79). Esta também constituiu uma Declaração de Independência contra uma potência imperialista.

Na primeira década do conflito revolucionário, relutou-se em romper radicalmente com o passado. Cortar relações com a Inglaterra parecia impensável, e muitos ainda esperavam que o governo britânico mudasse sua política. Ninguém se mostrava empolgado com o futuro ou desejoso de uma nova ordem mundial. A maioria ainda reagia instintivamente à crise segundo os padrões antigos, pré-modernos: voltava-se para um passado idealizado que sustentasse sua posição.

Os líderes revolucionários e os que abraçaram a ideologia whig radical, mais secular, inspiravam-se na luta dos saxões contra os invasores normandos, em 1066, ou na dos parlamentares puritanos durante a Guerra Civil inglesa, mais recente. Os calvinistas relembravam sua “idade do ouro” na Nova Inglaterra e a rebelião dos puritanos contra o tirânico establishment anglicano da Velha Inglaterra. Haviam fugido da opressão e encontrado liberdade na América selvagem, onde construíram uma sociedade devota.

Os sermões e a retórica revolucionária dessa época (1763-73) enfatizavam o desejo de salvaguardar as preciosas conquistas do passado. A ideia de mudanças radicais suscitava temores de decadência e ruína. Os colonos procuravam preservar sua herança, de acordo com o velho espírito conservador. O passado era apresentado como idílico; o futuro, como potencialmente horrível.

Os líderes revolucionários diziam conduzir suas ações de modo a impedir a catástrofe que inevitavelmente se seguiria a uma ruptura radical com a tradição. Falavam com medo das possíveis consequências da política britânica, utilizando a linguagem apocalíptica da Bíblia.

Mas isso mudou. Como os ingleses se atinham obstinadamente a sua controversa política imperial, os colonos cortaram as amarras. Depois da Boston Tea Party (1773) e das batalhas de Lexington e Concord (1775), não havia como voltar atrás. A “Festa do Chá em Boston” ocorreu, em 16 de dezembro de 1773, quando colonos americanos disfarçados de índios lançaram ao mar centenas de caixas de chá que retiraram de três navios ingleses ancorados no porto de Boston. Seu gesto constituiu um protesto contra os impostos sobre o chá e o monopólio do produto por parte da Companhia das índias Orientais.

A Declaração de Independência expressa uma corajosa determinação de abandonar a velha ordem e construir um futuro sem precedentes. Nesse aspecto é um documento modernizador, que traduz em termos políticos a independência intelectual e a iconoclastia características da revolução científica europeia.

Contudo, a maioria dos colonos era mais inspirada pelos mitos da profecia cristã que por John Locke. Para digerir a moderna autonomia política tinham de situá-la em contexto mitológico que conheciam bem, que se harmonizava com suas crenças mais profundas e lhes permitia encontrar a força psicológica necessária para operar essa difícil transição. Como Karen Armstrong revela, no livro “Em Nome de Deus”, a religião com frequência fornece os meios para os fiéis cumprirem o doloroso rito de passagem para a modernidade.

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