Fundamentalismo Cristão Popular X Secularismo Elitista nos EUA

Constituição dos EUA

Paradoxalmente com a decisão de desoficializar a religião e secularizar a política, Karen Armstrong, no livro “Em Nome de Deus”, mostra que, em meados do século XIX, os secularistas Estados Unidos se tornaram uma fervorosa nação cristã.

Na década de 1780, e mais ainda na de 1790, todas as igrejas se expandiram e passaram a combater a ideologia iluminista dos Fundadores. Sacralizavam a independência americana: a Nova República era um feito divino! A batalha revolucionária defendera “a causa do céu contra o inferno”. Só o antigo Israel experimentara tal intervenção divina em sua história.

A democracia fizera dos americanos um povo soberano, e por isso eles deviam ser mais religiosos, para que os novos estados escapassem dos perigos inerentes ao governo popular. Era preciso salvá-los do deísmo sacrílego de seus líderes políticos.

Os clérigos responsabilizavam o “deísmo” – doutrina que considera a razão como a única via capaz de nos assegurar da existência de Deus, rejeitando, para tal fim, o ensinamento ou a prática de qualquer religião organizada –, o novo inimigo satânico, por todas as falhas inevitáveis da jovem nação. Diziam que o deísmo promovia o ateísmo e o materialismo; que venerava a Natureza e a Razão, em lugar de Jesus Cristo.

Desenvolveu-se um medo paranoico de uma sociedade secreta denominada “Illuminati bávaros” e composta por ateus e maçons que estariam conspirando para derrubar o cristianismo nos Estados Unidos. Quando Thomas Jefferson se candidatou à presidência, em 1800, uma segunda campanha antideísta tentou associá-lo com os “jacobinos” ateus da ímpia Revolução Francesa.

A união dos novos estados federados era frágil. Os americanos acalentavam para sua pátria esperanças muito distintas, secularistas e protestantes. Ambas se revelaram duradouras. Eles ainda reverenciam sua Constituição e veneram os Pais Fundadores, mas também consideram seu país a “nação de Deus”; para alguns protestantes o “humanismo secular” continua sendo um mal de proporções quase satânicas.

Depois da Revolução, os americanos se dividiram, travando uma guerra interna para determinar sua cultura. Chegaram mesmo a desencadear “uma “segunda revolução” nos primeiros anos do século XIX.

Com grande dificuldade e muita coragem, haviam banido o passado, elaborado uma Constituição inovadora e criado uma nova nação. O processo envolvera esforço, tensão e paradoxo. A população como um todo ainda tinha de decidir os termos em que ingressaria no mundo moderno, e muitos dos colonos menos privilegiados estavam dispostos a contestar a hegemonia cultural da aristocrática elite iluminista.

Tendo derrotado os ingleses, os americanos comuns precisavam definir o que a Revolução significara para eles. Deviam adotar o racionalismo frio, civilizado, polido dos Fundadores, ou optar por uma identidade protestante bem mais rústica e mais populista?

Os Pais Fundadores e o clero das principais Igrejas cooperaram na criação de uma República secular moderna, porém sob muitos aspectos importantes ainda pertenciam ao Velho Mundo conservador. Eram aristocratas e elitistas. Achavam que, como dirigentes esclarecidos, deviam comandar a nação de cima para baixo. Não cogitavam na possibilidade de mudanças vindas de baixo.

Ainda atribuíam as transformações históricas a grandes personalidades que, como os profetas do passado, guiavam a humanidade e faziam a história acontecer. Não haviam percebido que uma sociedade com frequência é impulsionada por processos impessoais; forças ambientais, econômicas e sociais podem frustrar os planos e projetos dos líderes mais enérgicos.

Nas décadas de 1780 e 1790, discutiu-se muito a natureza da democracia. Até onde devia ir o poder do povo?

John Adams, o segundo presidente dos Estados Unidos, desconfiava de qualquer política que pudesse conduzir a oclocracia – exercício do poder ou do governo pela multidão, ou seja, pela plebe rude – e ao empobrecimento dos ricos.

Entretanto, os jeffersonianos mais radicais perguntavam como a elite podia falar em nome da plebe. Protestavam contra a “tirania” do governo de Adams e enfatizavam a necessidade de ouvir-se a voz do povo.

O sucesso da Revolução incutira em muitos americanos uma sensação de poder; mostrara-lhes que a autoridade constituída não era infalível nem invencível. Não se podia recolocar o gênio na garrafa.

Os Jeffersonianos afirmavam que as massas também tinham direito à liberdade e à autonomia pregadas pelos philosophes. Os novos jornais ridicularizavam os médicos, advogados, clérigos e outros especialistas. Ninguém tinha de dar pleno crédito aos chamados “peritos”. O Direito, a Medicina e a Religião deviam ser uma questão de bom senso e estar ao alcance de todos.

Essas opiniões eram particularmente comuns nas fronteiras, cuja população se sentia negligenciada pelo governo republicano. Em 1790, aproximadamente 40% dos americanos viviam em territórios colonizados por brancos cerca de trinta anos antes. Os habitantes das fronteiras se indignavam com a elite dominante, que não partilhava suas agruras, mas os escorchava tanto quanto os ingleses, e adquiria terras em sua região só como investimento, sem a menor intenção de abandonar o conforto e o refinamento da costa leste.

Tendiam a dar ouvido a uma nova espécie de pregador que ajudava a provocar a onda de reavivamentos conhecida como o Segundo Grande Despertar. Do ponto de vista político essa nova onda era mais radical que a primeira. Seus profetas se empenhavam não só em salvar almas, mas também em moldar a sociedade e a religião de forma muito diferente de tudo o que os Fundadores imaginaram.

Os novos incentivadores da fé não eram homens cultos. Odiavam acadêmicos e repetiam que todo cristão tinha o direito de interpretar a Bíblia livremente, sem se submeter a especialistas em teologia. Em seus sermões falavam de modo inteligível às pessoas comuns, geralmente recorrendo a gestos grandiloquentes, ao humor rasteiro e à gíria. Presidiam serviços ruidosos, tumultuados e altamente emocionais. Estavam reformulando o cristianismo em estilo popular muito distante do refinado etos da Era da Razão.

Organizavam procissões à luz de tochas, promoviam imensas concentrações populares e armavam barracas nos arredores das cidades, conferindo aos reavivamentos a aparência de um vasto acampamento. Surgiu novo gênero musical “gospel“, um cântico religioso característico dos cultos evangélicos da comunidade negra norte-americana, influenciado pelo blues e pelo gênero folclórico daquela comunidade. Ele tem como etimologia a expressão de “evangelho, a boa notícia, a boa-nova”. Posteriormente, o adjetivo inglês good (bom) se confunde com o substantivo inglês God (Deus), donde muito frequentemente a interpretação equivocada de gospel como formado de God + spell, mas cujo significado ‘palavra de Deus’ se adequa à ideia de “evangelho”. Ele levava as plateias ao êxtase: os fiéis choravam, sacudiam-se violentamente e gritavam de alegria.

Ao invés de racionalizar a religião, os profetas se baseavam em sonhos e visões, sinais e prodígios – tudo o que os cientistas e os filósofos do Iluminismo deploravam. E, no entanto, como os Jeffersonianos, recusava-se a ver o passado como o repositório da sabedoria. Eram modernos. Não se prendiam a tradições eruditas. Tinham a liberdade dos filhos de Deus e, com bom senso, apoiando-se nos fatos das Escrituras, podiam chegar à verdade sozinhos.

Criticavam a aristocracia, o establishment e o clero letrado. Enfatizavam as tendências igualitárias [de esquerda?] do Novo Testamento, segundo o qual os primeiros seriam os últimos e os últimos seriam os primeiros na comunidade cristã. Deus se revelou aos pobres e aos analfabetos: Jesus e os Apóstolos não tinham diploma universitário…

Religião e Política integravam o mesmo quadro.

1 thought on “Fundamentalismo Cristão Popular X Secularismo Elitista nos EUA

  1. Excelente! Sou mto interessada em estudos sobre religiões. Assinava a revista, nos anos 70, RELIGIÃO E SOCIEDADE da UNICAMP

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