Fundamentalismo do Livre-Mercado

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Estando voltado para o futuro, o racionalismo do mundo moderno dificulta-nos o entendimento das velhas formas de espiritualidade depositadas na fé de que o livre-mercado nos leva, automaticamente, à ordem espontânea. Não é o Dedo-de-Deus, mas sim a Mão-Invisível de O Mercado que faria esse milagre econômico.

Imbuídos do espírito científico, achamos impossível compreender essa mitologia. Tendemos a ver a verdade como factual, histórica e empírica. Para levar essa fé liberal a sério, precisamos ter a prova de que seus mitos são históricos e capazes de funcionar na prática com toda a eficiência que a modernidade espera.

Ao longo do século XIX e XX, um número crescente de economistas desenvolvimentistas, sobretudo nos países de capitalismo tardio, que tinham de tirar o atraso histórico, abandonou a religião ortodoxa. Para quem acreditava que só a razão pode conduzir à verdade, esse posicionamento era consequente.

O logos racional não pode abordar questões que transcendem a investigação empírica. Confrontada com o subdesenvolvimento, a razão não pode se omitir acreditando de que o livre-mercado nos livrará desse mal, amém…

Existe, pois, um vácuo no centro da Ciência Econômica. Os subdesenvolvidos o sentiram já no primeiro estágio de desenvolvimento que necessitariam uma revolução científica para preenchê-lo. Muitos economistas perderam o rumo de casa e correram atabalhoadamente para um nada infinito: foram buscar o título de PhDeuses! Outros, porém, superaram a perda da fé e se libertaram das restrições que a religião neoliberal sempre impôs. Tínhamos o dever de rejeitar a divindade – O Livre Mercado – que, paradoxalmente, nos negava a liberdade!

Outros colocaram sua fé nos ideais do Iluminismo e ainda anseiam por um futuro em que seremos mais racionais e tolerantes. Em lugar de um Ente Mitológico distante e imaginário, veneram a sagrada liberdade do indivíduo. Criaram versões secularistas de espiritualidade, que, com suas próprias disciplinas racionais e emocionais, propiciam-lhes percepção, transcendência e êxtase.

Muitos, porém, ainda querem ser religiosos e tentam desenvolver novas formas de fé. Seguem uma seita de louvadores de Keynes: aproximando-se dele, estarás salvo, afastando-se criticamente dele, estarás condenado por muitas gerações!

O fundamentalismo, seja dos adoradores de O Livre-Mercado, seja dos crentes de O Planejamento Central, é apenas um desses experimentos religiosos modernos que teve certo sucesso em recolocar a fé na agenda internacional. Porém, perdeu alguns dos valores mais sagrados das crenças confessionais.

Os fundamentalistas transformaram o mythos de sua religião em logos, fosse insistindo na verdade científica de seus dogmas, fosse convertendo sua complexa mitologia em uma compacta ideologia. Misturaram, assim, duas fontes complementares e dois estilos de conhecimento que os pré-modernos geralmente achavam melhor não misturar. A experiência recente ratifica o acerto dessa visão conservadora contra a essa mistura.

Ao afirmar que as verdades do livre-mercado são factual e cientificamente demonstráveis, os fundamentalistas neoliberais produziram uma caricatura da religião e da ciência. Todos deixaram de lado ensinamentos de tolerância e compaixão e cultivaram teologias de fúria, ressentimento e vingança pessoal contra quem lhes opõe.

Às vezes isso leva uma pequena minoria a perverter a religião, usando-a para sancionar o homicídio profissional. Mesmo a vasta maioria dos fundamentalistas, que se opõem a esses atos de terrorismo praticados pelas editorias das revistas acadêmicas qualificadas pelo Qualis e nas colunas monopolizadas da “grande” imprensa, tendem a ser exclusivistas e a condenar quem não partilha suas ideias.

Entretanto, a fúria fundamentalista nos lembra que nossa cultura moderna nos impõe exigências dificílimas. Embora ela tenha ampliado nossos horizontes, com frequência abalou nossa autoestima. Ao mesmo tempo que proclamou o homem a medida de todas as coisas, ela nos liberou da humilhante dependência de uma divindade transcendente. Nossa visão de mundo racional também revelou nossa fragilidade financeira e nossa vulnerabilidade econômica.

Copérnico nos relegou a um papel periférico no Universo. Kant declarou que nunca poderíamos ter certeza de que nossas ideias correspondem à realidade concreta. Darwin sugeriu que não passamos de animais. Freud mostrou que estamos à mercê das poderosas forças irracionais do inconsciente às quais dificilmente temos acesso. Smith sugeriu que, diante tudo isso, basta “liberar geral” que uma divina mão-invisível nos guiará para uma ordem espontânea equilibrada!

Apesar do culto à racionalidade, explosões de desrazão, como as desregulamentações, as privatizações do patrimônio público, as desnacionalizações selvagens, as bolhas de ativos, etc. marcam a história neoliberal moderna. Sem as restrições de uma verdade mítica “superior”, a razão neoliberal pode-se tornar demoníaca e cometer crimes econômicos tão grandes quanto as atrocidades perpetradas pelos fundamentalistas religiosos.

No passado, os velhos mitos, liturgias e práticas místicas da melhor fé conservadora forneciam os meios necessários para acessar as regiões mais profundas da psique. Abandonando-os, a razão liberal às vezes se perde em nosso admirável mundo novo.

No final do século XX, o mito neoliberal de que humanidade estava evoluindo para um estágio superior de maior esclarecimento e tolerância com a crescente desigualdade social parecia tão fantástica quanto qualquer um dos mitos milenaristas. Prometiam que o profeta Adam Smith voltaria, para presidir o Juízo Final, depois que os neoliberais estabelecessem o milênio – período de mil anos de paz e justiça – por seus próprios esforços virtuosos!

Paródia de: Karen Armstrong, no livro Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. São Paulo; Companhia das Letras; 2001.

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