Comparação entre Indicadores Geoeconômicos e Demográficos do G15

 

G15 - Indicadores e Componentes da Demanda Final

Em campanhas eleitorais, a retórica oposicionista abusa da comparação entre indicadores econômicos conjunturais do País com seus vizinhos latino-americanos. Serve para “denúncia” da taxa de crescimento do PIB, da inflação e do déficit externo. Não serve para explicar, por exemplo, porque a taxa de desemprego é baixa no Brasil.

O discurso situacionista reage, de imediato, reclamando de que a comparação deveria ser realizada frente, pelo menos, aos países que se situam nas quinze primeiras posições no ranking do PIB por PPC (Paridade do Poder de Compra). Nessa listagem, incluindo a União Europeia (tratado já como constituísse os “Estados Unidos da Europa”), o Brasil encontra-se em oitavo lugar, ou seja, um posto intermediário no G15.

Qual é o problema dessas comparações? Elas fazem um corte temporal no ano dos últimos dados disponíveis, focalizando diferenças interespaciais no planeta e, portanto, abstraindo diferenças intertemporais. Em outras palavras, não analisa os diferentes dinamismos – variações ao longo do tempo – das economias e perde de vista o mais relevante: a evolução histórica. Sem o conhecimento dado por séries temporais, não se avalia se cada país está tirando o atraso histórico em relação ao(s) país(es) de capitalismo mais avançado ou maduro.

Talvez por razões de espaço – ou mesmo por falta de iniciativa inovadora no design ou layout – os diversos sites que apresentam Indicadores Conjunturais fornecem, no máximo, taxas de crescimento mensal, mês contra mês anterior, no ano, nos últimos 12 meses. Pesquisar longas séries históricas exige maior esforço por parte do analista.

Entretanto, mesmo quando comparamos uma amostra adequada dos “países mais ricos”, em termos absolutos, abstraindo a melhor (e mais fácil) relatividade dos “pequenos países”, podemos obter intuições interessantes a partir da análise dos agrupamentos dos Indicadores Geoeconômicos e Demográficos do G15. Resgatemos, então, a esquecida Abordagem Estruturalista das maiores economias.

Comecemos pela análise das dimensões dos territórios. A Rússia abrange 17,1 milhões de km2, porém logo alguém ponderará a respeito da gelada Sibéria. Os outros quatro grandes países – Canadá (9,99 MM km2), EUA (9,83 MM km2), China (9,6 MM km2) e Brasil (8,5 MM km2) – dão a perceber que um grande território, dependendo da localização geográfica, aumenta a possibilidade de possuir maior reserva de petróleo: Canadá (173,1 bilhões BBL), Rússia (80,0), EUA (20,7), China (17,3) e Brasil (13,1 hoje e 145 bilhões de barris após o Pré-Sal, ou seja, 8,5 vezes mais). Esses países têm uma produção expressiva de petróleo, o problema é que o consumo de cada qual é muito grande devido ao tamanho de sua população.

Os 2,5 bilhões de chineses (1,336 bi) e indianos (1,236) representam mais de 1/3 dos 7 bilhões de habitantes do Planeta Terra. A população da União Europeia (UE) soma mais de ½ bilhão (511 milhões). Nos Estados Unidos habitam quase 320 milhões, que somados aos 120 milhões mexicanos e 35 milhões canadenses, potencializam um mercado interno no NAFTA que se aproxima do número de consumidores europeus. Somando essas populações, são ½ do total mundial.

Evidentemente, a renda per capita (PPC) dos mexicanos (US$ 15.600) é menos do que 1/3 da dos americanos (US$ 52.800) e dos canadenses (US$ 43.100). A da UE é US$ 34.500. Todas elas superam, largamente, as do BRIC: Brasil (US$ 12.100), Rússia (US$ 18.100), Índia (US$ 4.000) e China (US$ 9.800). Entretanto, estes quatro países estão no G7 por PIB PPC, desconsiderando a UE.

Quando se considera “a vizinhança”, isto é, o bloco regional em que cada qual está inserido, verifica-se como a geoeconomia (e a história) são determinantes do desempenho das economias de mercado. Somando os percentuais de exportação/PIB e importação/PIB, obtém-se o fluxo comercial ou grau de abertura externa de cada qual. Brasil (27,3%), Estados Unidos (29,7%), Inglaterra (29,7%) e Japão (34,2%) são países relativamente “fechados”, ou melhor, são mais autossuficientes com seus grandes mercados internos!

Entretanto, por definição, o fluxo comercial da UE com seu imenso mercado interno expandido atinge 87,8% do PIB, obtendo superávit no “comércio exterior”. Boa parte dele é constituído por comércio intrafirmas ou, usando o termo da moda, “cadeias globais de valor”. De qualquer modo, exceto os países citados (“fechados”), todos os outros do G15 são mais abertos.

Os outros do BRIC – Rússia (52,6%), Índia (57%) e China (47,3%) – estão com fluxo comercial em situação mais próxima da dos outros europeus – França (56,1%), Itália (58%), Espanha (63,2%), exceto Alemanha (93,6%) – e norte-americanos – México (65%) e Canadá (62,4%).

A Coreia do Sul (105,4%) é um caso típico das plataformas de exportação do Sudeste Asiático. Deve ser observado que sua população (49 milhões) só supera a canadense (34,8 milhões) entre as desses países do G15. A dedução é que aqueles quatro países — Brasil, EUA, Reino Unido e Japão — constituem “ilhas geoeconômicas” ao não fazerem tanto comércio transfronteiras terrestres como os demais.

Destacadamente, apenas no PIB da China há baixa participação relativa do Consumo das Famílias (36,3%) entre os componentes da demanda final dos bens e serviços. Todos os demais do G15 ficam entre 50% e 59% (Rússia, Coreia do Sul, Canadá, Índia, UE, Alemanha, França, Espanha) ou entre 60% e 69% (Itália, Japão, Brasil, Inglaterra, Estados Unidos) em ordem crescente. Em outras palavras, o peso do consumo no PIB brasileiro fica abaixo apenas dessa relação na ex e na atual potência econômica mundial.

Em Taxa de Investimento, a brasileira (18,3% do PIB) supera a da Inglaterra (13,8%) Estados Unidos (15,3%), Alemanha (17,5%), Itália (17,6%) e UE (17,9%). Fica próxima da Espanha (18,4%) e França (18,7%). Quem afirma que “o mundo ocidental já superou a crise em 2009” não dimensiona o que está falando.

De fato, os vizinhos norte-americanos (México com 22,7% e Canadá com 24,6%) estão “tão perto dos Estados Unidos quanto perto do paraíso consumista (e longe de Deus)”. Por sua vez, nem a da Coreia do Sul com 27%, nem a da Índia com 29,6%, nenhuma economia atinge a Taxa de Investimento da China: 46%! Ou será Chimérica?

Ao “terceirizar a fabricação” para a China – em 2000, os Estados Unidos respondiam por 26,6% e a China por 6,6% do total do valor adicionado gerado pela indústria mundial; em 2009, os números modificaram-se para 18,9% e 15,6%, respectivamente, ou seja, os dois países em conjunto mantiveram quase a mesma participação: de 33,2% para 34,5%. Estes números revelam a extensão com que se deu a transferência de atividade industrial dos Estados Unidos para a China. As corporações norte-americanas se aproveitaram do baixo custo da mão de obra e da imensa economia de escala da produção chinesa.

Ao vender trilhões de títulos financeiros dolarizados ao Banco da China, para manter a paridade do dólar com o yuan, os Estados Unidos conseguiram usufruir de taxa de juros significativamente mais baixa. O resto do mundo financiava e os norte-americanos consumiam.

Outra diferença do Brasil em relação aos demais países que constituem o BRIC refere-se ao Gasto Governamental: 21,7% do PIB contra 18,8% na Rússia, 13,7% na China e 12,4% na Índia. E também em relação ao México (11,8%) e à Coreia do Sul (15,9%). Todos esses grandes países emergentes tentam “tirar o atraso histórico”, mas não se apoiam no gasto público. Esse componente da demanda final brasileira está bastante próximo da UE (21,6%), Espanha (19,9%), Itália (20,6%), Japão (20,7%), Inglaterra (21,4%), Canadá (21,6%) e França (25,1%). Será que isso não indica que o Brasil adota políticas públicas que seguem o modelo do Estado de Bem-Estar Social, adotado nesses países?

O avanço nas conquistas sociais da cidadania está aqui mais importante do que o avanço macroeconômico. O País já ultrapassou a fase de industrialização nascente. Está mais maduro.

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