Crise da Rússia: Comparação entre 1998 e 2014

Contaminação dos EmergentesExportações dos Emergentes 2013-14

Roberta Costa (Valor, 17/12/14) apresenta uma didática comparação histórica: a derrocada do rublo, que caiu 12% contra o dólar apenas em um dia, lembra muito a situação do país na crise que enfrentou em 1998, mas há também diferenças importantes quando se extrapola o olhar para outros países emergentes.

O mundo, àquela época, estava na recuperação da crise asiática, que explodiu no verão de 1997 com o colapso da moeda tailandesa, e logo se espalhou pela região da Ásia. A visão dos investidores e credores em relação aos países em desenvolvimento tornou-se muito mais cautelosa a partir de então. Descobriu-se o Efeito Contaminação entre os emergentes: crise na Rússia levava à venda de títulos da dívida externa do Brasil, que tinham mais liquidez, para os investidores estrangeiros compensarem o prejuízo na carteira de ativos dos emergentes.

Em agosto de 1998, a Rússia embarcava em sua própria crise cambial, que culminou em um “default” de sua dívida interna. Naquele mês, o BC russo foi forçado a queimar US$ 27 bilhões de suas reservas, o que é, curiosamente, o mesmo volume gasto em outubro de 2014 com suas intervenções no mercado. No ano corrente, o BC russo já vendeu US$ 67 bilhões, quando em 1998, chegou a US$ 213 bilhões.

O BC russo já anunciou seu plano de intervenções no mercado cambial em 2015. Segundo dados do BNP Paribas, serão US$ 143 bilhões divididos entre:

  1. apoio à moeda (US$ 85 bilhões),
  2. acordos de recompra aos bancos (US$ 50 bilhões, até o final de 2016) e
  3. US$ 8 bilhões para recapitalizá-los e aumentar a concessão de empréstimos à infraestrutura.

Como o câmbio era antes controlado, na crise de 1998 as reservas praticamente se exauriram, quando hoje o declínio é significativo mas menos perigoso, já que o BC russo anunciou a flutuação da moeda, em regime de câmbio flexível, em 10 de novembro de 2014. Entretanto, o volume de reservas cambiais caiu 21% no ano, para US$ 360 bilhões — montante que cobre a dívida externa e corporativa até o fim do ano que vem (US$ 130 bilhões), mas não a dívida total.

“Ao contrário de 2008 e 2009, eles [a Rússia] estão aquém da cobertura total de US$ 678 bilhões da dívida soberana e corporativa. Além de ser duas vezes mais alavancada, a Rússia também está entrando em crise com reservas menores, que estão abaixo do pico de US$ 598 bilhões de julho de 2008“, diz em relatório Tatiana Tchembarova, especialista em crédito do BNP.

Outras questões remetem à crise russa do fim dos anos 90. O petróleo, motor da economia russa, havia caído para menos de US$ 10 o barril após a crise asiática e se manteve abaixo de US$ 20 até 1999. Em 2014, acumula retração de 40% desde junho, e veio agora abaixo de US$ 60, pela primeira vez desde maio de 2009, no auge na crise americana. Para se ter uma ideia do problema, o orçamento aprovado pelo Parlamento russo há poucos dias projeta um preço médio de US$ 100 para o barril entre 2015 e 2017, atrelando a maior parte das receitas a essa perspectiva.

O pano de fundo político é tão conturbado hoje quanto foi em 1998, dadas as óbvias diferenças de cenário. As sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia se misturam ao cenário econômico já debilitado.

O sistema bancário tem recursos líquidos suficientes para cobrir os vencimentos cambiais até o final de 2015. Dito isso, a dependência dos bancos ao financiamento do Banco Central está crescendo, enquanto o conjunto de garantias está encolhendo. No pior cenário de uma corrida bancária, o BC obviamente precisará aumentar a oferta de liquidez para os bancos, que já estão tendo de substituir o capital externo pelo doméstico por conta das sanções econômicas.

Cabe também destacar as diferenças entre esses dois momentos da Rússia e, de resto, dos países emergentes. A principal, talvez, seja o câmbio flutuante adotado por essas economias, o que atenua sobremaneira os solavancos no mercado e ajusta a conta corrente, a despeito de movimentos por vezes extremados da moeda, além de as reservas cambiais serem muito maiores e as taxas de juros dos emergentes mais baixas.

O overshooting cambial, em princípio, seria favorável à recuperação das exportações brasileiras. O problema será controlar o decorrente choque inflacionário, por causa da alta dos preços dos importados em reais. Porém, a queda do preço do petróleo poderá compensar o maior custo de importá-lo, estimado em reais depreciados. Será necessário verificar até que ponto a depreciação da moeda nacional compensa, em dólares, a queda dos preços internacionais das commodities brasileiras exportadas.

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