Keynes Up-to-Date

EvoluÇão de indicadores renda-endividamento-poupança

O keynesianismo foi, de fato, entendido e incorporado pela profissão de economista como um conhecimento básico imprescindível? Não me parece, quando vejo colegas de profissão, que se rotulam como “fieis seguidores”, usando, p.ex., o conceito pré-keynesiano de “poupança” e não destacando o crédito como seu substituto em uma economia de endividamento. Não é necessário cortar gastos para gastar mais adiante, porque o crédito é uma antecipação da capacidade de pagamento. O ônus é que se passa a pagar juros em vez de recebê-los…

Outros confessam que não são crentes dogmáticos, porém têm dificuldades de se tornarem autenticamente “pós-keynesianos“, isto é, superarem Keynes a la Hegel, mantendo o que há positivo e indo além do contexto histórico limitado de todo autor. Embora sua obra maior seja intitulada “Teoria Geral”, nem tudo dela se aplica sempre — e em todos os lugares. No entanto, os fundamentalistas se tornaram sectários defensores da doutrina original, transformando-a em dogmas, e condenam, sumariamente, todos os “hereges” que tentam “ir além do que Keynes pensou”.

João Sayad, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, didaticamente, tenta adequar a teoria keynesiana ao contexto econômico contemporâneo. Nele, a economia é aberta, então, a política cambial e a de controle de entrada/saída de capital são imprescindíveis. Da mesma forma, instituições financeiras fazem arbitragens entre moedas ou ataques especulativos contra câmbio fixo contra os quais os Bancos Centrais tentam reagir. Nada disso aparecia na “Teoria Geral” de Keynes. Sayad (Valor, 16/12/14) busca propor um Keynes “up-to-date” para o próximo mandato do Governo Dilma.

Porém, parece-me que não se pode classificar a política econômica do primeiro mandato como tipicamente “keynesiana”. Guido Mantega e Márcio Holland (SPE), professores licenciados da FGV-SP, nortearam-se mais pelo Novo-Desenvolvimentismo na manipulação dos instrumentos de política econômica em curto-prazo. O Governo Dilma I foi Social-Desenvolvimentista só considerando as políticas sociais ativas fundamentais para ampliação massiva do mercado interno e os investimentos em infraestrutura, inclusive energética (petróleo do pré-sal e usinas hidrelétricas), e logística (rodovias, ferrovias, hidrovias, aeroportos e portos) como sustentáculos de um crescimento no longo prazo.

“Por que a “nova matriz de política econômica” do primeiro mandato da presidente Dilma não deu certo? Culpa do Keynes?

A revolução keynesiana consiste, essencialmente, em usar ativamente a política fiscal e a política monetária para estabilizar o nível de demanda agregada e o emprego. Uma revolução no pensamento econômico para os anos 30 do século passado.

Até então, a única tarefa atribuída às autoridades monetárias era garantir a conversibilidade da moeda nacional em ouro. A oferta de crédito e moeda era controlada automaticamente pela situação do balanço de pagamentos – superávits no balanço de pagamentos, expansão do crédito e da liquidez; déficits no balanço de pagamentos, contração do crédito e da liquidez.

Do lado fiscal, o governo deveria deixar de se comportar como um empresa privada sem acesso ao crédito, gastando apenas o que arrecadasse e passaria a atuar, também, de forma anticíclica – expandindo gastos e déficit em momentos de alto desemprego e fazendo o contrário em períodos de excesso de demanda. Friedrich August Von Hayek, o grande opositor às ideias keynesianas, temia que a intervenção do governo na economia levasse ao totalitarismo. Keynes temia, por outro lado, que o desemprego elevado e longo levasse a soluções radicais totalitárias como o nazismo e o stalinismo. Meio século depois, Hayek venceu a discussão e muitos declararam que Keynes estava morto. Mas morto não estava – a ideia de um governo ativo tanto do lado monetário quanto fiscal e preocupado com o desemprego não é, hoje, uma ideia nova ou radical.

Mas a revolução keynesiana tratava de economias fechadas onde a mobilidade de capital era muito menor do que a observada depois da globalização financeira. E, apesar da fobia anti-inflacionária da Alemanha e da França nos anos 30, o problema principal era a deflação e não a inflação.

Os monetaristas argumentaram que Keynes poderia ter nos poupado de tantas modificações no pensamento econômico se tivesse levado em conta que a taxa cambial da libra estava supervalorizada e era isto o que explicava o desemprego na Inglaterra. É um bom argumento, embora a desvalorização cambial não pudesse ser utilizada durante o regime do padrão ouro.

O keynesianismo sempre enfrentou uma barreira intransponível – a ética do capitalismo, isto é, o “ganharás o teu pão com o suor do teu rosto”. Criar empregos, garantir segurança social, fazer investimentos públicos afrontam a disciplina do mercado de trabalho que o desemprego traz. Gastos públicos são aceitos politicamente apenas se o governo estiver com partidos conservadores. Obama sabe bem disto. E a objeção aos gastos públicos é menor se estes gastos públicos forem em investimentos.

Roosevelt conseguiu recuperar a economia, reduzir o desemprego através de gastos públicos e de uma política monetária surpreendente– desvalorizou o dólar e aumentou deliberadamente o preço do ouro para valorizar os preços agrícolas nos Estados Unidos e causar inflação. Mas, em 1937, o próprio Roosevelt volta atrás e promove uma redução do deficit público que mergulha a economia em nova crise de desemprego. Até Hitler se preocupa em “disfarçar” os gastos públicos criando uma holding composta pelos grandes grupos industriais alemães e pelo Tesouro do III Reich que financiava os gastos desta holding como se fossem gastos privados. A grande depressão só é superada pelos gastos da Segunda Grande Guerra. É um registro histórico do fracasso político do keynesianismo e dos economistas.

Mas este não é o problema que explica o fracasso da “nova matriz de política econômica”. O fracasso decorre do esquecimento de que a economia brasileira é uma economia aberta com grande mobilidade de capitais entre o país e o resto do mundo e com taxas cambiais flexíveis. O keynesianismo precisa ser adaptado.

Primeiro, porque o aumento de gastos públicos eleva a renda e a taxa de juros e a taxa cambial se sobrevaloriza. O aumento de demanda decorrente dos gastos públicos maiores é compensado por um déficit no balanço de pagamentos. O multiplicador de demanda agregada se reduz, pode até ser nulo. A sobrevalorização cambial rouba a competitividade da economia nacional e não reduz o desemprego.

Segundo, a inflação, do jeito que é controlada atualmente, exige um aumento nas taxas de juros que atrai dólares do exterior, valoriza o real e prejudica, ainda mais, a indústria brasileira.

Assim, o keynesianismo aplicado sem modificações causa um crescimento da demanda enviezado a favor das importações, contra as exportações e contra a indústria nacional. O crescimento da demanda decorrente dos gastos públicos acaba se refletindo apenas no setor de bens não comerciáveis, o setor de serviços, que não depende da taxa cambial, aumentando salários nominais e reais e tornando a indústria nacional ainda menos competitiva.

O “custo Brasil” volta à manchete dos jornais. Mas os problemas causados por ele poderiam ser reduzidos antes que os investimentos em infraestrutura e em tantas outras coisas ficassem prontos. Para isto, a taxa cambial real (relativa ao índice de preços nacionais ou a média dos salários nacionais) precisa ser desvalorizada. Um hambúrguer do McDonald’s no Brasil precisa custar o mesmo que o hambúrguer do McDonald’s da Suiça ou, melhor ainda, da China quando medido em dólares.

Este é o bom keynesianismo para 2015-2018. A indústria e a economia brasileira minguam há muitos anos esperando por uma taxa cambial maior que é a forma mais rápida de recuperar o crescimento da economia brasileira. Keynesianos radicais propõem o fim do livre ingresso de capitais estrangeiros no país, à moda de alguns países do sudeste da Ásia – uma mudança radical, improvável e que acabaria com o necessário financiamento externo.

A nova equipe econômica tem muitas prioridades. A meu ver, a mais importante é a desvalorização permanente do real. Como fazer isto sem elevar a taxa de inflação?”

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