Imigração dos Emigrantes Brasileiros

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Feliz Natal! E feliz regresso ao Brasil a aqueles que passam o Natal longe de suas famílias!

Como “presente de Natal”, compartilho informações com os emigrantes brasileiros para ajudar na hora da escolha de imigrar de volta sem Síndrome do Regresso — este é o tema de um post deste modesto blog que é um dos mais visitados por brasileiros que moram no exterior.

Lígia Guimarães (Valor, 16/12/14) publicou reportagem de utilidade pública sobre o regresso de brasileiros. Reproduzo-a abaixo para aqueles que não tiveram a oportunidade de lê-la.

“Nos últimos anos, o número de brasileiros vivendo no exterior caiu em alguns dos destinos mais tradicionais. De 2011 para 2013, a comunidade brasileira residente no Japão diminuiu de 230 mil para 181 mil; baixou de 1,4 milhão para 1 milhão nos Estados Unidos, e de 111,4 mil para 92,1 mil em Portugal. Embora não haja estatísticas comprovando que todos esses emigrantes tenham voltado ao Brasil definitivamente, há indicações de que o movimento de retorno à terra natal cresceu expressivamente desde 2007.

Especialistas em fluxos migratórios e o próprio Ministério das Relações Exteriores alertam para um fenômeno que até há pouco tempo era praticamente invisível no radar da criação de políticas públicas: o crescente número de brasileiros que, após anos morando no exterior para trabalhar, voltam ao Brasil em busca de oportunidades.

A preocupação atual do governo é impedir que, sem apoio ou orientação para se reintegrarem ao mercado de trabalho brasileiro, muitos desses retornados acabem indo embora novamente, por falta de opção. “É o que mais nos preocupa: temos o fenômeno da reimigração”, disse a ministra Luiza Lopes da Silva, responsável pela subsecretaria-geral das comunidades brasileiras no exterior do Itamaraty, que mantém contato frequente com residentes e consulados fora do país. “O problema é quando ele emigra em situação de vulnerabilidade uma segunda vez, por exemplo, pagando um coiote, contraindo uma dívida”, diz a diplomata.

Na visão de Luiza, o brasileiro retornado tem menos apoio público, por exemplo, que os imigrantes estrangeiros que chegam para tentar a vida no Brasil, como haitianos e bolivianos. “Os estrangeiros têm canais. Chegam, gritam a palavra ‘refúgio’ e imediatamente estão cobertos por uma rede de apoio. A Polícia Federal dá um visto, ele recebe a carteira de trabalho e as empresas já passam a recrutá-lo. O brasileiro não, ele chega no aeroporto e não tem nada que possa gritar por socorro”, exemplifica.

“Ele terá que, sozinho, encontrar algum empregador que dê valor ao seu trabalho. E em geral ele perdeu contatos”, diz Luiza, que afirma que mesmo as comunidades de brasileiros organizadas no exterior rapidamente se dissipam quando voltam para o Brasil, o que dificulta que suas demandas sejam detectadas e atendidas. “O brasileiro no exterior é uma minoria, tende a se unir. Já o brasileiros que retornam estão espalhados pelo Brasil; não terá meia dúzia de retornados unidos para fazer uma demanda para o governo estadual, ou federal”, diz.

Outro obstáculo à readaptação, segundo Luiza, é o alto índice de analfabetismo dos brasileiros retornados. “No Brasil, bem ou mal, todo mundo vai à escola. Mas os imigrantes que saíram muito cedo do Brasil largaram a escola, e no exterior se dedicaram a trabalhar em três turnos, sem inspiração ou disposição para estudar. Como ele saiu do Brasil ele voltará, dez ou quinze anos depois”, diz.

Opinião similar tem a professora Sueli Siqueira, doutora e especialista em território, migração e cultura da Universidade Vale do Rio Doce, em Governador Valadares, e que pesquisa há anos o retorno de brasileiros dos Estados Unidos e Portugal.

Ela diz que o emigrante que retorna após muitos anos encontra, de novo, todas as dificuldades que enfrentou ao sair do país. “Para a maioria o retorno é uma parte muito difícil, inclusive no aspecto psicológico”, afirma Sueli. “O grande problema atual é que as pessoas voltam sem muito capital. Muitos até perderam a casa por causa da crise imobiliária. Voltam querendo entrar no mercado de trabalho, o que é mais difícil”.

Para Duval Fernandes, pesquisador do grupo de estudos da distribuição espacial da população pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), não existem políticas públicas específicas para atender aos brasileiros retornados. O que há, afirma, são ações pontuais e voltadas para determinados segmentos. A ministra Luiza, do Itamaraty, concorda. “Nós [o Ministério das Relações Exteriores] somos o único órgão que tem essa visão de raio-X sobre o retornado. Temos esperança de vir a conseguir sensibilizar os órgãos competentes para isso”, afirma, citando como possibilidades o Ministério do Trabalho, o do Desenvolvimento social.

A crise financeira internacional, que cortou empregos em massa nos destinos mais tradicionais na emigração de brasileiros, foi o grande gatilho para essa virada no fluxo migratório, na visão dos especialistas: desde 2008, ficaram mais restritas as ofertas de trabalho e a possibilidade de ganhar muito dinheiro no exterior.

Para se ter uma ideia, entre 1990 e 2000, retornaram ao Brasil do exterior 187 mil pessoas. O fluxo aumentou entre 2000 e 2010, quando voltaram 298 mil pessoas ao país, de acordo com dados dos últimos Censos (2000 e 2010) realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e analisados pelo pesquisador especialista em fluxos migratórios Fernando Braga, do Instituto Federal de Minas Gerais.

Nos dados do Censo de 2010, que já refletem um pouco do mundo pós-crise, os brasileiros retornados correspondiam a 65% do total dos imigrantes internacionais, ante participação de 61,2% na pesquisa de 2000. “Isso é surpreendente porque a tendência que estava se desenhando desde 1980 era o saldo migratório caminhar para ficar negativo, ou seja, a gente mandar mais gente ao exterior do que receber. Talvez o evento mais forte dessa crise tenha sido a gente frear a mudança no saldo migratório. Desde que fomos colônia de Portugal nosso saldo migratório é positivo, sempre chega mais gente do que sai”, diz Braga.

O Ministério das Relações Exteriores estima que, de 2007 para cá, voltaram 500 mil brasileiros que moravam no Japão, Estados Unidos, Portugal, Espanha, e Paraguai. Tudo, na verdade, são estimativas. Não há números exatos porque, quando um viajante entra no Brasil, não há controle da Polícia Federal sobre a motivação da viagem: se é um turista que veio ficar poucos dias ou um emigrante que voltou.

Para Sueli Siqueira, a novidade recente no fluxo migratório brasileiro é o movimento de circularidade, – sem tendência predominante de entrada ou saída. Os brasileiros encontraram oportunidades em destinos ao redor do mundo e levaram para lá familiares e amigos, o que expandiu as redes de contato migratórias para além dos EUA, Portugal e Japão. “Hoje você não tem mais um fluxo predominante, fluxo de saída, por exemplo. Continua existindo, mas agora recebemos os imigrantes e os retornados. As pessoas estão circulando pelos países que oferecem melhores oportunidades”, diz.

Os únicos dados precisos sobre a quantidade de brasileiros que retornaram do exterior, segundo o Itamaraty, são os que vêm do Japão. Isso porque lá a maioria dos brasileiros utiliza visto e as saídas são registradas. A população de brasileiros residentes em território japonês, que era de 320 mil em 2008, caiu para cerca de 186 mil em 2013, e aproximadamente 120 mil em 2014, segundo estimativas do Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), órgão criado em São Paulo nos anos 90 para orientar as famílias nipo-brasileiras na emigração.

O diretor superintendente do Ciate, Tatsuya Otake, diz que ir trabalhar no Japão já não é tão atrativo quanto era antes para os “dekasseguis”: a diferença do salário japonês em relação ao Brasil, que era dez vezes maior na década de 90, caiu para apenas duas vezes nos últimos anos. Além disso, muitas fábricas migraram do Japão para países como a China e o Vietnã, e a oferta de trabalho diminuiu. Somado a isso, ganharam espaço outras opções de trabalhadores asiáticos mais baratos, como os da Indonésia, aumentando a concorrência pelas vagas.

Hoje, o que predomina no Ciate é a procura pela reimigração. “Quem vai agora para o Japão é o jovem que já morou lá, estudou lá, voltou para o Brasil com os pais e agora está voltando. E o idoso que não tem onde trabalhar no Brasil. São poucos os que nunca foram e querem ir agora”, diz Otake.

Atualmente, segundo o diretor do Ciate, há demanda por mão de obra no Japão nos setores de construção civil e de serviços, como cuidadoras e enfermeiras. Tais vagas, no entanto, são mais difíceis de serem preenchidas por brasileiros do que as da indústria. “Para isso é preciso falar japonês. Não é como era na produção, em que é só ficar quieto e fazer o seu trabalho”, afirma.

Desde a eclosão da crise financeira internacional, quando muitos empregos de dekasseguis foram cortados abruptamente, a disposição para emigrar caiu bastante, segundo Reimei Yoshioka, que preside o Núcleo de Informação e Apoio a Trabalhadores Retornados do Exterior (Niatre). O órgão, localizado no bairro da Liberdade, no centro de São Paulo, foi criado no final de 2010, com apoio financeiro do Ministério do Trabalho, para receber, orientar e reintegrar ao mercado de trabalho brasileiro o número expressivo de dekasseguis que retornaram ao Brasil.

“Tem muita gente que já fez esse movimento de vai e vem diversas vezes e é um negócio que desgasta. Se a família tem criança então, é um problema. Leva as crianças sem conhecer o idioma, e quando elas estão começando a se adaptar lá, os pais são cortados de repente”, diz Yoshioka, que destaca que grande parte dos brasileiros são empregados em vagas temporárias, com poucos benefícios. Apesar disso, ele acredita que os números fechados de 2014 sobre o movimento de dekasseguis voltando ao Brasil serão menores. “Quem tinha que voltar, já voltou”.

No auge da crise, o próprio governo japonês incentivou os brasileiros desempregados a retornarem para casa com passagens subsidiadas, em troca de o ajudado não entrar mais no Japão pelos próximos três anos. Desde então, as regras de entrada continuam bem mais rígidas do que eram nos anos 90. “Hoje eles exigem que a pessoa saiba o japonês, uma série de exigências que dificultam a concessão de vistos”, diz Yoshioka.

A tarefa de encontrar empregos para os dekasseguis é difícil porque requer readaptação intensa do trabalhador. “A maioria é operário de chão de fábrica, perfil de indústria. E a oferta de emprego que temos aqui na cidade de São Paulo é tudo no comércio”, afirma. “Quem trabalha no chão de fábrica não conversa e tem que produzir. Agora no comércio não, você tem que falar, tentar convencer o freguês. E o salário é mais baixo, tem essa dificuldade de readaptação”, afirma Yoshioka, que acredita que as indústrias do Estado de São Paulo desconhecem as qualidades dos trabalhadores retornados. “Infelizmente eles não conhecem. Só depois que alguns começam a trabalhar é que percebem a diferença”, diz, ressaltando que muitas empresas preferem profissionais que falam inglês. Segundo ele, apesar das dificuldades, a maior parte dos retornados que procura ajuda conseguem trabalho. O Niatre conta com apoio financeiro do Ministério do Trabalho: foram R$ 250 mil para dois anos, 2011 e 2012, para custear despesas como aluguel e folha de pagamento.

Em Portugal, o retorno de brasileiros também recebeu apoio. A Organização Internacional de Migrações (OIM), agência ligada à ONU, mantém um programa em parceria com o governo português de ajuda para imigrantes em situação de vulnerabilidade financeira e que desejam retornar aos seus países. Os brasileiros respondem por mais de 80% dos pedidos no programa, segundo Isabela Salim, responsável da OIM por orientar, encaminhar e monitorar a viagem de volta. “Compramos as passagens; se o passaporte está vencido, coordenamos com os consulados a emissão de documentos. Quando a pessoa chega ao país de origem é assistida lá, ou pelas nossas missões pelo mundo, ou pelas ONGs com quem somos parceiros no Brasil”, diz Isabela.

Nos mesmos moldes do apoio japonês, quem participa do programa da OIM fica proibido de regressar a Portugal durante três anos. “É obrigado a deixar o título de residência no aeroporto”, diz. Em 2007, 220 brasileiros se candidataram ao apoio financeiro no retorno; em 2011, o número saltou para 1.839, e para 790 brasileiros em 2013. A própria Isabela, brasileira nascida em Natal e que obteve a nacionalidade portuguesa há dois anos para morar em Lisboa, sabe como é difícil a decisão de abrir mão da cidadania portuguesa. “Mesmo assim, 40% preferem abdicar do título de residência e voltar ao Brasil”, diz.

O perfil da migração brasileira em Portugal é laboral: pessoas que têm o objetivo de trabalhar, juntar dinheiro e, se possível, mandar recursos para a família comprar uma casa ou montar um negócio próprio. “Normalmente atua em trabalho precário no Brasil e tinha o ideal do sonho europeu”, diz. O foco da assistência da OIM são os brasileiros de baixa renda, que não têm condições de bancar a própria viagem.

“A grande maioria dos que voltam é porque tudo deu errado. A pessoa quer ir para onde está a família. O argumento é: aqui estou na iminência de ficar na rua; no Brasil, fome eu não vou passar”, diz Isabela.

Quando Shimeny Soares voltou em 2009 para Governador Valadares, sua cidade natal em Minas Gerais, sentiu-se perdida. Depois de morar cinco anos nos Estados Unidos, tinha poucas memórias sobre o Brasil da época em que, aos 14 anos, mudou-se para Summersville, na Virgínia, para morar com o pai. “Voltar para cá foi como chegar a um país novo”, diz.

Na temporada americana, conciliou o ensino médio com trabalhos como atendente em redes de fast food e postos de gasolina, até mudar de área e evoluir para um cargo em instalações de TV a cabo, já com um salário “razoável”. Decidiu voltar ao Brasil quando percebeu que, nos EUA, não teria dinheiro para cursar a faculdade.

Readaptar-se ao mercado de trabalho brasileiro, lembra, foi um desafio. “Procurar emprego foi horrível. Me falaram que eu tinha que montar um currículo. Mandava, mas ninguém nunca me ligava; eu ficava muito frustrada. Achava que não tinha capacidade”, diz. Teve que reaprender o português enferrujado, os amigos da infância não estavam mais na cidade e não encontrava vagas em que pudesse aplicar a experiência profissional. Seus ex-empregadores, todos nos Estados Unidos, praticamente não serviam como referência.

Relatos como o de Shimeny são comuns entre os brasileiros que retornam após anos no exterior, segundo Duval Fernandes, que estudou nos últimos anos a experiência de brasileiros retornados de Portugal, Espanha e Estados Unidos e detectou na maioria um padrão de dificuldades comuns.

O Brasil de quando essas pessoas saíram não existe mais. Muitos saíram para regiões urbanizadas, com fácil acesso à informação, e voltam para a realidade de cidades pequenas, já vivendo um processo de expulsão: dificuldade de emprego, de construir sua casa, primeiro sonho de todo imigrante”.

Hoje com 28 anos, Shimeny diz que, por muitas vezes, sentiu vontade de voltar aos EUA. “Nos dois primeiros anos a vontade de ir embora era terrível. Até hoje às vezes me dá”, diz. Depois de cursar Letras e fazer pós-graduação, abriu há cinco meses uma escola de idiomas. “O governo daqui dá muita oportunidade para quem quer estudar hoje, tem Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), tem Prouni. Quem quer o curso técnico tem um monte de coisa que você pode fazer de graça. E lá fora não é assim. Ou você tem dinheiro ou você não tem nada”, diz a empresária, que se considera com sorte por ter o apoio da família. “Acho que falta um programa talvez de reabilitação a quem volta”, diz.

As iniciativas ainda são escassas. O Ministério das Relações Exteriores criou em 2013 o Portal do Retorno, site que reúne orientações e informações a quem regressa.

A diplomata Luiza Lopes da Silva, do Itamaraty, defende que se estendam aos retornados benefícios em estudo para acolher trabalhadores estrangeiros que chegam ao Brasil. Em junho, algumas propostas foram debatidas durante a 1ª Conferência de Migrações e Refúgio (Comigrar), promovida pelos ministérios da Justiça, do Trabalho e das Relações Exteriores.

Entre as sugestões estão o apoio às crianças brasileiras, que precisam de preparação na volta; criação de um call-center para apoio psicológico e social e implementação de pontos de atendimento e orientação em aeroportos.”

Emigrantes

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