Economia Indiana

Nehru_Gandhi

Após a Independência, em 1947, a Índia pretendeu criar um modelo econômico misto entre o capitalismo e o socialismo. O plano do então primeiro-ministro Jawaharlal Nehru era buscar a autossuficiência do país. Ele se inspirou na economia planejada dos soviéticos e criou um sistema de planos quinquenais que existe até hoje.

Para construir um Estado moderno, privilegiava grandes projetos de construção de hidrelétricas. A Índia começaria a construir seus navios, locomotivas e bicicletas só na década de 1960.

Em 1969, foi criada a Organização de Pesquisa Espacial Indiana e, seis anos depois, a Índia lançou seu primeiro satélite. Hoje, o país concentra a maior constelação de satélites não militares do mundo, a maioria de comunicação e de meteorologia. Em 2008, cumpriu uma missão lunar. Os indianos agora se preparam para mandar uma missão não humana para Marte.

Mas, em busca da escalada na sociedade, o sistema econômico misto se tornou promíscuo, ineficiente e corrupto. Não conseguiu fazer a planejada revolução industrial. Segundo Florência Costa, autora do livro Os Indianos (Coleção Povos & Civilizações; São Paulo; Editora Contexto; 2012), “a Índia tinha criado, na verdade, um capitalismo monopolista. Apenas um pequeno grupo de empresas privadas, a maioria familiares, foi beneficiado e passou a controlar amplos setores da economia, sem concorrência externa e com a proteção do Estado”.

Em 1967, estou uma crise econômica-cambial que, sob pressão dos Estados Unidos e do Fundo Monetário Internacional, obrigou-a desvalorizar a moeda nacional – a rúpia. Na década de 1970, Indira Gandhi nacionalizou os bancos e impôs limites às propriedades urbanas. Em 1977, várias multinacionais, entre elas a Coca-Cola e a IBM, chegaram a ser expulsas do país.

A burocracia kafkiana era em parte responsável pela “taxa de crescimento hindu” de 3,2% ao ano, durante o período 1950-1980, muito próxima da taxa de aumento da população, ficando então estagnada a renda per-capita. Não contribuía para elevação do baixíssimo Índice de Desenvolvimento Humano. Essa taxa de crescimento do PIB era a metade da alcançada, na ocasião, pelos “tigres asiáticos”.

Com o baixo desempenho da economia e os controles exagerados do setor privado, ficou evidente que o país precisava de reformas liberalizantes que propiciassem uma abertura externa. Foi na década de 1980, ainda no governo Rajiv Gandhi, que o país experimentou algumas reformas, que serviram para a maior abertura da economia na década de 1990. Um grave crise econômica, em 1991, precipitou a liberalização, porque deixou a Índia com reservas internacionais (US$ 1 bilhão) suficientes apenas para pagar duas semana de importação de comida e combustível.

No dia 24 de julho de 1991, o então ministro das Finanças (e desde 2004 o primeiro-ministro), Manmohan Sigh, economista formado em Oxford, tendo já trabalhado no FMI, citou o escritor francês Victor Hugo para anunciar a abertura da economia e o fim das licenças industriais: “Ninguém pode impedir uma ideia cujo momento [de ser concretizada] chegou”.

Esta passagem do Capitalismo de Estado ao “Socialismo de Mercado”, ou seja, combinação de políticas econômicas neoliberais e políticas sociais ativas, ocorreram 13 anos após Deng Xiaoping do PCCh ter anunciado reformas liberalizantes similares na China. A abertura da economia criou um ambiente otimista de confiança para as iniciativas particulares. Depois de crescer a uma média de 6% aa nos anos 1990, o PIB acelerou a uma média anual de 9% aa de 2003 a 2008, o segundo crescimento mais rápido depois da China.

No Fórum Econômico Mundial na Suíça, em 2006, anunciava-se a Índia como a democracia de mercado livre que mais crescia no mundo. Mas em 2011, duas décadas após o início das reformas, que permitiram-na também surfar na onda de crescimento de toda a economia mundial, a crise internacional colocou a Índia em posição defensiva, em Davos, prometendo se esforçar para:

  1. retomar o crescimento inclusivo socialmente,
  2. combater a corrupção e
  3. anunciar uma segunda rodada de reformas (reclamadas pelos empresários) em outubro de 2012.

A tecnologia de informações indiana e seu conceito de “modelo de entrega global” – os clientes norte-americanos voltavam para casa depois do trabalho e quando retornavam na manhã seguinte, o serviço já estava pronto – se transformou na maior propaganda da Índia. Tudo era feito via remota por indianos, durante o dia, quando era noite nos Estados Unidos, sem interrupção do processo de trabalho.

A revolução high-tech indiana levou a Índia ter a terceira maior mão-de-obra tecnologia e a segunda maior indústria de software do mundo, depois dos Estados Unidos. O país forma 300 mil profissionais de computação a cada ano. Tal especialização ficou famosa no exterior a partir da paranoia com o chamado “bug do milênio”: o temor de uma pane geral do sistema de computadores em todo o mundo no momento em que os relógios marcassem meia-noite no dia 1o. de janeiro de 2000. Houve um aumento incrível na demanda por profissionais baratos de tecnologia de informações indiana.

A indústria de tecnologia de informações se tornou uma das mais poderosas da economia indiana: suas exportações representam 25% do total do país, saltando de US$ 6,3 bilhões, em 2000-2001, para os atuais US$ 60 bilhões. Grande parte dessas vendas são para os Estados Unidos (60%) e para a Europa (20%). Mas o número de empregados é ínfimo comparado com o total da mão de obra indiana: emprega apenas 2,8 milhões de pessoas ou 0,5% da força de trabalho do país.

O setor de serviços em geral emprega menos de 1% da população e 34% da mão de obra. Mas é o que mais contribui para a renda nacional, representando mais da metade do PIB. O modelo de desenvolvimento indiano é bem particular: não foi impulsionado pela industrialização, mas sim pelos serviços.

Um dos fatores que impulsionaram a tecnologia de informações foi o sucesso dos profissionais indianos nos Estados Unidos, principalmente no Vale do Silício, na Califórnia. Emigrantes foram acusador de usarem a excelente educação recebida pela elite gratuitamente do governo indiano para impulsionar suas carreiras individuais sem dar nada de volta ao seu país. Há 25 milhões de indianos no exterior. São os emigrantes que mais fazem remessa de dinheiro: US$ 55 bilhões contra US$ 51 bilhões enviados pelos 60 milhões chineses fora do país.

A diáspora indiana é uma das de maior sucesso no mundo, atuando em todas as áreas profissionais. São os que mais estudam – 80% dos indianos residentes nos Estados Unidos têm diplomas de terceiro grau – e constituem o grupo étnico mais rico lá, com uma renda anual média de mais de US$ 50.000.

O país já é a décima economia mundial, quando o ranking é por PIB nominal. Ranqueado por PIB com Paridade do Poder de Compra, com US$ 5 trilhões já ultrapassou o Japão com US$ 4,7 trilhões e alcançou o terceiro-posto. Até 2030, estima-se que confirmará o terceiro-lugar também em PIB nominal.

2 thoughts on “Economia Indiana

  1. Prezado Fernando,

    admiro o povo da Índia em razão de estarem conseguindo aos poucos superar o legado das tradições populares e adquirindo uma postura pós moderna, amparada pela aprendizagem e especialização em áreas difíceis como matemática, cibernética e astronomia.
    Aquisição de conhecimento em informática e tecnologia aeroespacial é um marco para qualquer país, exigindo um preparo profundo direcionado na obtenção de resultados que valorizam tanto a mão de obra, quanto as técnicas aprendidas e disseminadas.

    Ano passado conseguiram colocar um satélite na órbita de marte – vide matéria: http://www.bbc.co.uk/portuguese/videos_e_fotos/2014/09/140924_satelite_india_marte_rb

    Em 18 de dezembro/2014 conseguiram testar com sucesso um foguetão que impulsionará as futuras cápsulas com astronautas a bordo: http://youtu.be/tWxWXen_4NQ

    Tenho a impressão de que os países latino americanos estão perdendo feio a corrida tecnológica atual e se tornando cada vez mais dependentes da exportação de commodities, em um momento crítico da atualidade, pois sem tecnologia não há como competir em mercados inovadores.

    Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      a experiência indiana é muito particular. Conquistada mais tarde sua Independência Política, devido ao seu sistema tradicional de castas, privilegiou a educação superior das elites. Resultado: tornou-se um país extremamente desigual que combina modernidade tecnológica com atraso social.

      Na sequência de posts sobre a Índia, postarei amanhã sobre sua realidade social miserável.

      Temos de estudar e buscar entender os BRICS para pegar lições aplicáveis ao nosso País. Os países emergentes que lutam para tirar o atraso histórico são “desiguais e combinados”. Necessitam diminuir a desigualdade, completando a inclusão social, não só no mercado de trabalho e de bens, mas também na Educação e Saúde. Massificando-a, políticas públicas para Ciência & Tecnologia darão saltos de qualidade. O Ciência Sem Fronteiras inspira-se na experiência chinesa.

      Enfim, a conquista completa da Cidadania & Cultura, com direitos e deveres estabelecidos, é uma longa e árdua luta ainda em andamento.
      att.

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