Propensão ao Crescimento (por José Eli da Veiga)

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Todas as referências bibliográficas que apoiam o ensaio compartilhado abaixo estão no livro do José Eli da Veiga, “Desenvolvimento Sustentável – O Desafio do Século XXI”, Editora Garamond, 3ª ed., 2008). Ele publicou o ensaio (Valor, 02/01/15) como espécie de crítica indireta, porém não explícita, ao livro “O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty. Quando este fez uma apresentação na FEA-USP, para o lançamento de seu livro no Brasil, os intelectuais provincianos (e neoliberais) que o cercaram tentaram provar para a audiência, sem convencer, que o livro dele está equivocado! Ciumeira do sucesso alheio é uma praga que assola os nossos autores vaidosos de seus artigos acadêmicos, que acumularam “pontinhos Qualis”, mas que jamais publicaram um livro best-seller de qualidade…

Verifiquem a metodologia de Thomas Piketty no post anterior — Lei do Crescimento Acumulado — e confiram que enquanto ele fala de baixo crescimento da renda per capita mundial, ou seja, uma renda média de todo o mundo, Eli da Veiga apresenta alguns “estudos de casos“, em lugares e períodos delimitados, para tentar falsear sua hipótese generalista!

Embora ele não consiga “falsear Piketty” — como era seu propósito –, compartilho o excelente artigo de José Eli da Veiga abaixo:

“Praticamente não teria havido crescimento econômico até o início do século XVIII, diz André Lara Resende na abertura de excelente ensaio sobre “O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty. A íntegra do que foi antecipado no Valor em 5 de setembro de 2014 acaba de ser publicada na revista Política Externa”.

É muito pouco provável, contudo, que a renda tenha ficado estagnada por mais de “dezessete séculos, muito provavelmente, desde o início dos tempos”. Essa impressão de que todas as épocas que precederam a Revolução Industrial teriam sido marcadas por uma espécie de longuíssimo marasmo decorre do imenso contraste entre os últimos 150 anos e toda a evolução humana anterior. O conhecimento científico sobre o processo desencadeado pela descoberta/invenção da agricultura não confirma esse tipo de avaliação da história econômica.

Claro, é certeza que até o século XVIII o crescimento da economia mundial foi predominantemente extensivo. Isto é, foram bem mais longos os períodos em que produção e população aumentaram a taxas muito próximas. Mas esse fato não autoriza a suposição de que crescimento intensivo — com aumento da renda per capita, essência do crescimento econômico moderno -– só tenha se manifestado com a ascensão da grande indústria.

Na era pré-moderna, o crescimento não podia deixar de ser principalmente extensivo, porque os avanços tecnológicos que permitiram a progressiva intensificação agrícola frequentemente resultaram em redução da produtividade do trabalho, malgrado o aumento do rendimento físico das culturas (produtividade dos recursos naturais). Mesmo assim, a intensificação da produção agropecuária de toda a época pré-industrial foi um árduo processo de encurtamento do período de descanso da terra (pousio).

Por milênios, só houve agricultura de sequeiro, isto é, sem qualquer forma de aporte de água por submersão ou irrigação, em ecossistemas florestais, com sistemas produtivos que exigiam a completa regeneração da cobertura vegetal por meio de pousios que duravam de 20 a 30 anos. O encurtamento desses períodos de descanso, por meio de tratos culturais e fertilização, não aumentava a produção na proporção do aumento das necessidades de mão de obra, acarretando redução da produtividade marginal do trabalho. Em tais circunstâncias, só com forte pressão demográfica parte das sociedades antigas era levada a adotar inovações tecnológicas, mesmo que conhecidas havia muito tempo.

Esse crescimento extensivo permitido pela agricultura de sequeiro predominou desde o surgimento dos primeiros núcleos sedentários na região situada entre a atual Palestina e as montanhas do Irã, cujos principais testemunhos são os restos das vilas de Jericó e Çatal Hüyük, 8350-5000 a.C., até a chamada revolução agrícola europeia, a partir de meados do século XVI.

A marcha do crescimento extensivo pode ser razoavelmente inferida pelas estimativas de aumento populacional.

  • Do surgimento da agricultura até por volta do ano 1000 a.C., a população mundial dobrou a cada milênio, passando de 4 para 50 milhões de habitantes.
  • Em seguida, dobrou a cada 500 anos, chegando a 200 milhões no ápice dos impérios Romano e Han (c. 200 d.C).
  • Com o declínio desses impérios, as guerras desestabilizaram a tendência até por volta do ano 1000. A partir daí, tanto na Ásia quanto na Europa, houve nova aceleração, que levou a população mundial a 350 milhões por volta de 1200.
  • Mas o ritmo voltou a diminuir no século seguinte, elevando a população a apenas 400 milhões por volta de 1300.
  • Com as grandes fomes e pestes, houve novo declínio e a população voltou aos 350 milhões por volta de 1400.
  • Nos dois séculos seguintes, recuperou-se a tendência anterior e a população chegou a 550 milhões por volta de 1600, quando as dificuldades climáticas tornaram a reduzir o ritmo de crescimento.
  • Por volta de 1700, a população mundial estava em torno de 600 milhões.

Todavia, a transição ao cultivo de forrageiras em rotação com cereais — característica essencial de uma “revolução” que precisou de três séculos para atingir todo o Oeste europeu — não foi a única saída. Muito antes, diversas civilizações cultivaram suas melhores terras uma ou mais vezes por ano com muito adubo e irrigação, deixando as terras mais fracas para pastagens permanentes.

Graças a tal alternativa, surtos muito significativos de crescimento intensivo viabilizaram o que costuma ser classificado de “civilizações antigas”, principalmente na Mesopotâmia, Egito, Índia, China, Mesoamérica e Peru. Mensurá-los é uma tarefa muito mais difícil, mas é evidente a ocorrência de períodos duradouros de elevação da renda per capita também na Grécia – particularmente, na ilha de Rodes — e, com certeza, na República e Império Romanos.

O avanço tecnológico exigido pela irrigação fez com que os primeiros surtos de crescimento intensivo só tenham ocorrido em férteis bacias aluviais de grandes rios que desciam de contrafortes montanhosos para irrigar planícies. Sociedades complexas, muito parecidas entre si, surgiram:

  1. nas bacias dos rios Tigre-Eufrates;
  2. no vale do Nilo;
  3. no vale do Indus, nos arredores de Harappa e Mohenjo Daro; e
  4. no rio Amarelo (Huang), nas proximidades de An-yang.

O aparecimento de cidades já indicava uma nítida divisão do trabalho:

  1. a existência de pessoas que tinham capacidade para ler e escrever, e uma classe culta (geralmente sacerdotes);
  2. edifícios públicos monumentais;
  3. hierarquias políticas e religiosas;
  4. uma monarquia descendente dos deuses; e,
  5. finalmente, um império ou a pretensão a um governo universal.

Foi a eliminação do pousio mediante o domínio desse tipo de irrigação que estabeleceu uma clara distinção entre o que passou a ser considerado “mundo civilizado” e “bárbaros do mundo exterior”. As investidas violentas de povos cujos sistemas agrícolas eram baseados no pousio longo foram uma constante na história mundial até o século XV, quando o advento de poderosas armas de fogo passou a permitir uma defesa mais eficaz dos núcleos “civilizados”.

A primeira civilização urbana da Mesopotâmia (c. 3500 a.C.) parece ter influenciado indiretamente a civilização de Harappa no vale do rio Indus (c. 2500 a.C.).

  • Excedentes agrícolas obtidos com irrigação permitiram que uma parte da sociedade fosse mantida em atividades não-agrícolas e que segmentos políticos, militares e religiosos fossem mantidos por meio de tributos.
  • Escribas treinados e empregados em templos registravam as contas e redigiam mensagens.
  • Edifícios públicos monumentais reforçavam a autoridade do Estado, que detinha o controle do comércio de longa distância.
  • Expedições comerciais eram enviadas à busca de bens raros e valiosos, como metais, madeiras e gemas.
  • Artigos de luxo e matérias-primas importadas eram trocados por têxteis e outros produtos manufaturados.
  • Tais atividades levaram à comunicação entre cidades das planícies aluviais e centros menores dos vales ribeirinhos de regiões circunvizinhas, onde processos de urbanização ocorriam em menor escala.
  • Uma verdadeira rede de centros comerciais em expansão formava um grande arco, do Mediterrâneo Oriental ao vale do Indus, enquanto do outro lado da selva do Sudeste Asiático e do Himalaia se desenvolvia a civilização chinesa.

A decadência da primeira civilização letrada do mundo, formada por dezenas de cidades-Estado sumérias – principalmente, Kish, Uruk, Ur e Lagash — foi motivada pelo processo de salinização, que obrigou a substituição do cultivo do trigo pela mais tolerante cevada.

  • O trigo, que, por volta de 3500 a.C., ocupava uma área semelhante à da cevada, passou a abranger apenas 15% da área por volta de 2500 a.C..
  • Quatrocentos anos depois, Ur já havia abandonado completamente a cultura do trigo, que só ocupava agora 2% de toda a região suméria.
  • Por volta de 1700 a.C. a salinização havia liquidado a cultura do trigo em todo o sul da Mesopotâmia.
  • Ao mesmo tempo, os rendimentos físicos da cevada diminuíram em 42% entre 2400 e 2100 a.C. e em 65% por volta de 1700 a.C..
  • Com o colapso da base agrícola, conflitos bélicos se multiplicaram e a sociedade suméria foi declinando, até tornar-se um império despovoado, empobrecido e atrasado.

Por razões similares, durou menos de 500 anos a complexa, hierárquica e centralizada civilização que surgira no vale do Indus por volta de 2300 a.C..

  • Mas, neste caso, além de salinização também influiu a erosão provocada pela devastação florestal.
  • Enquanto na Mesopotâmia templos e palácios eram construídos com tijolos que secavam ao sol, no vale do Indus os tijolos eram cozidos em fornos a lenha.
  • Em 1900 a.C., essa civilização praticamente desapareceu, tendo como causa imediata uma invasão bárbara, seguida de um período de colapso interno.
  • Mas a base desse processo também foi a insegurança alimentar engendrada pela corrosão da base agrícola.

Nem sempre era viável a alternativa de interromper o cultivo de terras mais pobres, usadas em rotações com pousio curto, transformando-as em pastagens permanentes, enquanto áreas mais férteis passavam a ser cultivadas uma vez por ano (ou mais) com adubos e irrigação.

  • Muitas sociedades não conseguiram encontrar os meios de repor a fertilidade dos solos que começavam a se degradar à medida que se encurtavam os pousios.
  • E, quando tentaram encurtá-los sem realizar as outras mudanças necessárias, provocaram o declínio dos rendimentos físicos e a exaustão dos recursos naturais.
  • Outras vezes, essas sociedades até poderiam saber como fertilizar os solos, mas não chegaram a estabelecer a necessária relação entre agricultura e pecuária que teria permitido a obtenção tanto da força de tração para o arado quanto o indispensável estrume.

O declínio de muitas sociedades esteve ligado a processos erosivos decorrentes de devastação florestal.

  • O caso mais evidente foi o desaparecimento da civilização maia clássica entre 800 e 900 d.C..
  • Mas também na Grécia haviam começado a surgir sinais de destruição por volta de 650 a.C., como consequência de excessivo pastoreio nas terras que não serviam para a agricultura (4/5 do total).
  • Apesar do conhecimento grego sobre técnicas de conservação de solo, como o terraceamento e a fertilização orgânica, a pressão demográfica tornou carecas as colinas da Ática.
  • Em 590 a.C., uma reforma constitucional proposta por Sólon chegou a prever a proibição da agricultura em áreas de declive.
  • E, algumas décadas mais tarde, o tirano Peisistratus iniciou a recuperação dos solos degradados por meio do plantio de oliveiras.
  • A mesma coisa ocorreu em escala ampliada com o império romano a partir de 58 a.C..

Notável exemplo inverso é o do Egito. O manejo do processo natural da cheia do Nilo, desde o surgimento dos primeiros núcleos agrícolas (c. 5500 a.C.), garantiu por sete milênios a sucessão de muitas sociedades dominadas por faraós, ptolomeus, romanos, árabes e mamelucos, até que a especificidade desse agroecossistema passou a ser ameaçada pelas alterações introduzidas no modelo hídrico a partir do século XIX.

No entanto, a mais genuína experiência pré-moderna de crescimento intensivo parece ter sido a da China sob a dinastia Sung, entre os séculos X e XIII.

  • Sob os Sung, mais de um milhão de homens chegaram a trabalhar em atividades não agrícolas.
  • A produção de ferro per capita foi multiplicada por seis entre 806 e 1078, chegando, no Norte, a 7 libras per capita.
  • Na Europa, em 1700, essa relação variava entre 3,5 e 4,3 libras per capita.
  • Considerando-se o preço do arroz como base 100, o preço do ferro passou de 632, em 997, para 177 em 1080.

Na Inglaterra, considerando-se o preço do trigo como base 100, o preço do ferro passou de 223, em 1600, para 160 em 1700.

  • Somente o avanço tecnológico do final do século XVIII fez com que o preço relativo do ferro britânico viesse a ser inferior ao obtido na China durante a dinastia Sung.
  • Apesar de os britânicos continuarem venerando a elegante ponte de Coalbrookdale, construída em 1779, como “the first iron bridge”, os chineses dispunham, sob os Sung, de centenas delas, e de melhor qualidade.

Mesmo perdendo territórios, a China da dinastia Sung manteve a prosperidade, pois as áreas meridionais eram mais produtivas do que a região central do norte.

  • A população continuou a crescer, comércio e indústria floresceram e a capital Hangchou tornou-se a maior cidade da época.
  • Foi um período de realização cultural, com avanços nas artes visuais, literatura, filosofia, ciência e tecnologia.

A instrução difundiu-se, ajudada pela invenção da imprensa em 730. A sociedade se transformou.

Exames oficiais para a admissão de funcionários públicos aos poucos substituíram a casta aristocrática pelo mandarinato, uma meritocracia de burocratas de carreira.

  • Os mercadores foram excluídos do funcionalismo público, mas muitos enriqueceram, formando corporações e instalando uma organização comercial complexa, com bancos, sistema de crédito e papel moeda.
  • Foi liberado o mercado de terras, muitos camponeses tornaram-se arrendatários, e um sofisticado sistema agrícola elevou os rendimentos físicos ao nível máximo que poderia ter sido obtido antes da introdução da fertilização química.
  • O grande fator limitante parece ter sido a falta de terras que pudessem ser destinadas aos animais, fonte indispensável da adubação.

O ritmo de mudanças diminuiu no século XIII, devido a conflitos sociais e perturbações causadas pelos mongóis.

  • Mesmo assim, a China continuou mais populosa, produtiva e rica, e sua sociedade muito mais avançada do que a da Europa.
  • Nesse período, a China foi a maior potência mundial e a cultura chinesa a mais esplendorosa.

Outro surto de inequívoco crescimento intensivo pré-moderno também foi asiático, manifestando-se no Japão durante o shogunato Tokugawa (1600-1868).

  • A população japonesa, que havia dobrado entre 1000 e 1300, passando de 5 para 10 milhões, saltou para 18 milhões por volta de 1600.
  • O desempenho da agricultura não apenas permitiu tal aumento populacional, mas também um avanço dos padrões de vida do clero, dos mercadores e dos guerreiros.
  • E esse progresso continuou, inclusive, durante o tumulto político do século XVI, que precedeu a unificação.
  • Sob o controle Tokugawa, entre 1600 e 1850, a produção agrícola quase dobrou, enquanto a população aumentou cerca de 45%.
  • Isso foi possível pela expansão da área cultivada, mas também por avanços técnicos significativos nas práticas de irrigação e adubação.
  • Como consequência, houve inédita urbanização, especialização regional e aumento da esperança de vida.
  • Em 1850, o padrão de vida era certamente mais alto no Japão do que na Grã-Bretanha.

Também na Europa Ocidental houve muito progresso tecnológico entre os séculos XI a XIII, por mais exageradas que possam ser as alusões a uma primeira revolução industrial.

  • De qualquer forma, o mito de uma obscurantista Idade Média difundido pelos historiadores liberais do século XIX foi totalmente desmentido pela historiografia contemporânea.
  • E foi no Oeste europeu que acabou ocorrendo o maior surto de crescimento intensivo pré-moderno.
  • A população europeia passou de 70 milhões para 190 milhões entre 1500 e 1800.
  • Em 1700, Londres, Paris e Constantinopla já haviam ultrapassado a marca do meio milhão de habitantes.
  • A grande demanda de trigo e centeio impulsionou a chamada revolução agrícola iniciada no século XVI, principalmente nas zonas mais densamente povoadas da Itália, Holanda e Inglaterra.
  • Foi o processo que possibilitou, pela primeira vez, a supressão do pousio na agricultura de sequeiro.
  • E o que permitiu a passagem do pousio curto ao cultivo anual foi a viabilização da tração animal, graças à introdução de forragens nas rotações.

As estimativas sobre a evolução da renda per capita no período em que ocorreu a revolução agrícola são divergentes.

Algumas estimativas indicam que:

  • do ano 1000 até o século XVIII, a renda per capita aumentou expressivamente (talvez tenha triplicado), e
  • essa elevação se acelerou drasticamente no século XVIII, antes mesmo da emergência da indústria.
  • Outras indicam que o aumento da renda per capita pode ter sido de apenas um quarto entre 1500 e 1700, passando de US$ 215 a US$ 265 (dólares de 1970).
  • Neste caso, antes de 1500, com o simples agrarismo, a produção apenas acompanhava o aumento populacional.

Após 1500, o crescimento intensivo ocorreu em três estágios:

  1. o de agrarismo avançado (1500-1700), quando o produto per capital teria aumentado a uma taxa média de 0,1% a.a.;
  2. o de capitalismo mercantil (1700-1820), quando essa taxa passou a 0,2% a.a.; e,
  3. finalmente, o de capitalismo industrial (1820-1980), quando saltou para 1,6% a.a.

Seja como for, é inegável que, no caso europeu, a gestação do capitalismo -– o sistema que fez nascer o crescimento econômico moderno -– ocorreu no chamado Renascimento do fim do século XV. Como ferramenta modeladora da história do mundo, a Europa nasceu dois ou três séculos antes.

Mas foi a partir do século XV que os componentes do capitalismo fundiram-se na poderosa mescla que impeliu as nações europeias à:

  1. conquista territorial do mundo e
  2. formação de uma economia mundial capitalista poderosíssima e verdadeiramente global.

Uma das principais raízes desse processo foi a precocidade da integração entre a cidade-Estado genovesa e a Ligúria, região rural circundante.

Muito antes que a Terraferma fosse controlada por Veneza, a Lombardia por Milão e a Toscana por Florença, a aristocracia rural genovesa já dera impulso à expansão comercial.

  1. Quando caía a rentabilidade do comércio, ela se refeudalizava, trazendo seus recursos para a apropriação do espaço rural e a formação de poderosos exércitos particulares;
  2. quando aumentavam os lucros comerciais, se aburguesava.

Com o correr do tempo, os banqueiros mercantis genoveses se transformaram na mais poderosa classe capitalista da Europa do século XVI.

O capitalismo europeu se desenvolveu em três etapas, ou ciclos sistêmicos de acumulação, liderados por:

  1. Gênova (séculos XV e XVI),
  2. Holanda (séculos XVII e XVIII) e
  3. Inglaterra (século XIX).

E foi exatamente esse o percurso da revolução agrícola. Ela começou no populoso e altamente urbanizado vale do Pó e dali moveu-se para a Inglaterra e o norte da França, passando pela densamente povoada e urbanizada Flandres.

Em suma, muitas evidências indicam que o surgimento da agricultura pode ter sido um acelerador do progresso material até mais importante que o surgimento da grande indústria.

O fenômeno que os arqueólogos chamaram de revolução neolítica — mas que pode muito bem ser denominado primeira revolução econômica — foi um forte acelerador do crescimento, principalmente porque o direito de propriedade trouxe o incentivo essencial para o avanço do conhecimento e aprendizado tecnológico.

Deu origem ao Estado, condição essencial da especialização e da divisão do trabalho.

Aquilo que os historiadores estereotiparam como a Revolução Industrial pode ter sido apenas um momento muito significativo da segunda revolução econômica.

O auge de uma série de eventos anteriores, que exigiu mais um século para gerar a verdadeira revolução, com a fusão entre ciência e tecnologia.

E muito mais importante do que o feixe de inovações normalmente associados à ideia de revolução industrial foi a extraordinária ampliação da oferta de novos conhecimentos, que se tornou possível com a mudança do direito de propriedade, iniciada na Grã-Bretanha, em 1624, com a primeira lei de patentes.

Por outro lado, o crescimento econômico dos quase 11 milênios anteriores ao que se considera a época moderna sempre foi contrariado pelo “rent-seeking”: arranjos institucionais que fazem com que o comportamento maximizador dos indivíduos gere “ganhos improdutivos” e, portanto, prejuízos à sociedade.

Pela comparação entre experiências inequívocas de crescimento intensivo, como a da China Sung, entre os séculos X a XIII, e inúmeras outras de frustração desse tipo de crescimento, é muito razoável supor que foi a tendência ao “rent-seeking” o mais poderoso e recorrente obstáculo ao crescimento na época pré-moderna.

Só pode estar errada, portanto, a ideia de uma espécie de marasmo “por mais de 17 séculos, muito provavelmente, desde o início dos tempos”. De resto, a grande virada:

  • foi engendrada pela fusão da ciência com a tecnologia, que só ocorreu na segunda metade do século XIX, e
  • não pelos primórdios da industrialização, no fim do século XVIII.”

3 thoughts on “Propensão ao Crescimento (por José Eli da Veiga)

  1. Prezado Fernando,

    para aumentar a riqueza do texto segue links dos termos técnicos pouco compreendidos:

    Sistemas aluviais e fluviais: http://www.igc.usp.br/pessoais/renatoalmeida/P%20GeoSED/Aula%205%20Aluvial.pdf
    Peste bubônica: http://pt.wikipedia.org/wiki/Peste_bub%C3%B4nica
    Pousio: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pousio
    Rent-seeking: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rent-seeking

    Estou de acordo sobre a fusão da ciência com a tecnologia ser o verdadeiro foguete que impulsionou a economia para um rápido crescimento no fim do século XIII. O verdadeiro vilão da história do pouco crescimento econômico mundial tanto no período pós surgimento da escrita até aos primórdios da era industrial, sem dúvida foi o “analfabetismo”, misturado com o misticismo e a crença equivocada dos povos em deuses que nunca existiram e levaram civilizações inteiras ao declínio.

    O resultado do último Enem (http://pt.wikipedia.org/wiki/Exame_Nacional_do_Ensino_M%C3%A9dio) provou que os nossos próprios jovens não sabem escrever; não conseguem sem dificuldades tratar um tema organizado em assunto, corpo, desenvolvimento e conclusão. Imagine nos primórdios da humanidade?!

    Naquela época o conhecimento não era compartilhado, as pessoas não sabiam escrever, não tinham acesso ao material básico para a confecção de textos e a comunicação mal passava da fase oral.

    Na Inglaterra provinciana o próprio Darwin demorou quase 30 anos para publicar “A origem das espécies: http://rcristo.com.br/2013/01/03/a-origem-das-especies-de-charles-darwin-filme-e-livro/”.

    A falta de acesso às técnicas para o melhor aproveitamento das atividades sejam: agrícolas, industriais ou comerciais pode ter ocasionado uma ruptura no desenvolvimento econômico e social dos vários povos. Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      de acordo. O ritmo médio do progresso humano é muito lento, inclusive por causa de alguns fatores que você aponta.

      Isso não que dizer que há períodos quando se aceleram as inovações e o progresso social. Há também fases de ajuste, como estamos vivendo, onde há um atraso econômico, porém, em paralelo, poderá haver progresso na consciência dos deveres da cidadania.

      Muitas vezes, sob a aparência de estagnação, há grandes inovações ainda não tão aparentes. Por exemplo, a divisão internacional de trabalho (DIT) alterou-se, aparentemente, em “fábricas do mundo” (China e Sudeste Asiático), “escritórios dos mundo” (Índia), “fazenda do mundo” (Brasil) e “energia do mundo” (Rússia e petro-Estados). Mas esta DIT é questionada e muitos países não aceitam o determinismo histórico da doutrina liberal da Teoria das Vantagens Comparativas. Acham que não há “vocações naturais” e nem “dependência de trajetórias”. As vontades políticas coletivas constroem e reconstroem a história de cada qual.

      Estarei postando uma série de resenhas de livros a respeito desse tema.
      Abraço

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