Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio

Um Nova História do Poder

David Priestland, nascido na Inglaterra em 1964, é professor de História na Universidade de Oxford desde 1992. Publicou um extraordinário ensaio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014) sob o título acima, em que que procura estabelecer as bases para soluções da crise que vivemos, convidando a repensar nossa história.

Só podemos começar a resolver nossos problemas atuais se tivermos uma visão clara do passado. A história é o único guia que temos para o futuro. Assim, antes de avançar, temos que retroceder, para entender:

  1. como chegamos aqui,
  2. o que deu errado e
  3. por quê.

Infelizmente, no momento, a visão mais influente de nossa história – uma retomada da crença oitocentista dos whigs no progresso liberal – tornou muito difícil refletir sobre essa crise e atravessá-la. Essa análise neoliberal foi defendida, logo na época do colapso do comunismo (ou “socialismo realmente existente”), em 1989, no artigo de Francis Fukuyama, intitulado “O Fim da História?”. A hipótese de que o capitalismo liberal é a culminação e o ponto final do desenvolvimento humano continua seduzindo e permanece dominante entre as elites políticas e intelectuais do Ocidente liberal, mesmo depois da ascensão do “socialismo de mercado” (ou “capitalismo de Estado”) da China e do colapso financeiro de 2008.

Esse otimismo liberal tornou-se muito mais influente hoje do que seu principal rival na explicação “total” da história: o Manifesto Comunista, publicado em 1848 por Marx e Engels. Eles viam o caminho da história como a marcha inevitável da humanidade rumo a uma nova ordem não capitalista. Depois de ser atraente para milhões de pessoas, hoje a hipótese de Marx perdeu muito do seu poder: é difícil acreditar que o capitalismo entrará em colapso, sem data marcada, e surgirá uma nova sociedade sem mercados.

No entanto, a versão neoliberal da história também falha. É enganosa sua hipótese de que a história do século XX é, essencialmente, a luta épica entre o capitalismo liberal e seus inimigos totalitários, o fascismo e o comunismo. Há muitas variedades de capitalismos, e o tipo que adotamos faz uma diferença enorme para o bem-estar e a estabilidade da sociedade.

O argumento de Priestland é que “nossa atual forma de capitalismo, uma forma ‘mercadora’ desequilibrada, nos trouxe até esta crise e continua a ameaçar nosso bem-estar. Por isso, não enfrentamos uma escolha radical entre o nosso modelo atual de capitalismo e o gulag, como muitos [neoliberais] parecem acreditar. Temos de escolher entre diversos tipos de sociedade de mercado, e nem a narrativa marxista nem as narrativas liberais nos ajudam a compreender nosso dilema. Precisamos de uma história alternativa que nos ajude a entender nossa situação.” É isto que seu ensaio tenta oferecer.

A academia segue a moda de negar a validade de qualquer “grande narrativa” da história, alegando que todas descambam para fábulas ingênuas de progresso. Mas é possível buscar as forças da mudança histórica sem sugerir um movimento inevitável em direção a determinado ponto final. Priestland abomina o determinismo histórico.

Hoje, existem excelentes pesquisas históricas que podem ajudar na busca de uma síntese histórica. Este livro de Priestland é um ensaio histórico sobre as raízes da atual crise voltado para o público em geral, e não mais um ensaio acadêmico. Evita fazer suposições simplistas e ideológicas e não nega nossa capacidade de enxergar o grande rumo do desenvolvimento histórico.

Vamos resenhá-lo em uma série de posts.

2 thoughts on “Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio

  1. Muito interessante a proposta.. Será que ele consideraria uma sociedade colaborativa e de partilha? O Capitalismo em sua forma atual só funciona porque os valores sociais são condizentes: Luxúria, Esbanjo, Status Social, e por aí vai. A “qualidade de vida” que é de fato o objeto, por vezes fica em segundo plano. Curioso para os próximos posts! Abraços!

    • Prezado Leonardo,
      como eu disse, Priestland abomina o determinismo histórico: o futuro será resultante de conflitos de interesses das diversas castas, cada qual defendendo o seu e aliando-se com alguma outra para obter hegemonia em certas ocasiões. Ele acrescenta, em sua narrativa, uma casta que não está explícita no título do livro: a casta dos trabalhadores organizados.

      A análise histórica dele é extremamente interessante, p.ex., ele mostra a socialdemocracia sueca como uma aliança entre os sábios-tecnocratas com os trabalhadores-organizados. Aguarde, será um post por dia até o fim-de-semana. Sugiro ler, antes, os posts sobre castas na Índia:
      https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2015/01/05/india/
      abs

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