Motor da História

Sábio-contador

David Priestland, em seu ensaio Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014), argumenta que “os conflitos entre essas castas e seus valores, à medida que vão se adaptando às mudanças no ambiente econômico e tecnológico, são o motor da história”.

As sociedades são transformadas quando uma aliança de grupos, incorporando determinados valores de casta, é capaz de se impor com mais sucesso que as rivais. Em seguida, ela “coloniza”, ou penetra, outras áreas da sociedade, reproduzindo-se em outras profissões e organizações, seja pela força, seja pela persuasão.

Em sociedades pré-modernas, por exemplo, a aristocracia não só dominava a política e a posse da terra. Seus hábitos paternalistas moldavam todos os domínios da vida. As empresas muitas vezes eram administradas como famílias aristocráticas, com um “amo” (ou “senhor patriarcal”) controlando a vida dos aprendizes e operários como se fossem seus filhos.

Hoje, os valores dos comerciantes são cada vez mais predominantes na maioria das áreas da vida. Isto ocorre mesmo em esferas aparentemente muito distintas, como a aristocracia. Nossos antepassados ficariam chocadíssimos com a violação das normas de casta que ocorre quando há a fundação de negócios comerciais por parte de aristocratas.

Qual é o motivo de ascensão e queda das castas? Para responder, é necessário examinar as estruturas e ideias tanto econômicas como sociais. Para florescer, as castas têm de:

  1. conseguir se adaptar às mudanças sociais e econômicas e
  2. também justificar sua existência com as ideias prevalecentes na época.

Os aristocratas paternalistas se davam bem nas sociedades agrárias hierárquicas, onde as diferenças de poder entre os camponeses produtores e os governantes militares eram enormes. A aristocracia guerreira ofereceria proteção em tempos de insegurança. Seu domínio era justificado por visões de mundo religiosas. Mas, à medida que as sociedades se tornaram mais urbanas, comerciais e móveis, formas mais igualitárias de ver o mundo passaram a fazer mais sentido.

O profundo senso de hierarquia e status dos aristocratas afastou seus “inferiores”, unindo seus adversários e provocando revoluções, seja a francesa em 1789, seja a russa em 1917.

Desde meados do século XIX, com as indústrias e os Estados se tornando mais complexos, os sábios-tecnocratas vêm oferecendo valioso planejamento e perícia.

Contudo, o crescimento do Estado de Bem-Estar Social em vários países e a generalização do ensino superior após a Segunda Guerra Mundial contribuíram para o surgimento de uma nova casta criativa de profissionais “focados em pessoas” – professores, assistentes sociais, médicos, etc. Eles valorizavam as competências de autonomia e criatividade, pós-anos 1960, típicas dos artesãos e homens santos. Juntamente com seus equivalentes em um mundo de negócios mais flexível e orientado para o consumidor, eles se rebelaram contra os tecnocratas, abrindo caminho para o domínio do comerciante.

Nos últimos trinta anos, o comerciante e a mentalidade mercantil vêm predominando em boa parte do mundo. O amor pela eficiência e pela produtividade gerou uma abundância de consumo. O cosmopolitismo tolerante sustentou a promessa de um mundo unido pelo comércio interno e externo, onde a guerra era inconcebível.

Ao mesmo tempo, a visão do mundo como um vasto mercado – uma democracia dos consumidores – ajudou a dissolver as hierarquias étnicas e sociais das ordens anteriores. Apontando-se apenas as vantagens, os problemas relativos ao domínio do comerciante não ficaram aparentes com os das outras castas.

As desvantagens de todas as castas ficam claras, de repente, depois de um fracasso, como uma derrota em guerra, uma crise econômica, um revolução social, ou essas três coisas juntas. Em geral, é um grande colapso desse tipo que abre caminho para uma casta concorrente antes marginalizada assumir a proeminência.

O fracasso das castas dominantes e as crises ideológicas que o acompanham também trazem mudanças. A implosão de uma elite pode ser mais importante que as explosões revolucionárias. As ordens sociais podem desmoronar quando seus governantes acreditam que estão fracassando – e adotam profundas reformas.

As ordens das castas estão em situação mais vulnerável quando são menos inclusivas, pois o domínio irrestrito exercido por qualquer uma delas tem suas desvantagens:

  1. os sábios-tecnocratas podem trazer a burocratização ou a presunção típica dos especialistas;
  2. os trabalhadores e artesãos podem excluir “os de fora” na sua busca de espírito comunitário;
  3. os guerreiros atiçam guerras intermináveis por honra e vingança; e,
  4. quando o mercador domina sem restrição, sua influência pode ser igualmente catastrófica, infligindo com instabilidade econômica e elevação das desigualdades.

No século XX, as ordens dominadas pelos comerciantes mostraram tendência a desmoronar sob o acúmulo de dívidas e subsequentes períodos de baixa, acabando por trazer conflitos sociais e guerras.

Se as ordens baseadas em castas podem entrar em colapso com notável rapidez, reconstruí-las é muito mais demorado. As castas dominantes usam sua riqueza ou seu poder político para se entrincheirar em sua posição. Por exemplo, os financistas norte-americanos protegem seus interesses, após a crise de 2008, financiando os políticos de sua preferência.

As castas dominantes também têm tido sucesso notável em colonizar mentes, fazendo com que seja difícil conceber alternativas. Apenas a mudança de geração, em vinte ou trinta anos, costuma estabelecer um novo consenso, quando as diferentes castas aprendem lições contrastantes com o fracasso da velha ordem. As pessoas que chegam à maturidade durante uma crise muitas vezes têm uma visão mais clara das lições ali contidas.

Através desse esquema de lutas de casta e alianças mutáveis, distinto das revoluções de classe e/ou lutas econômicas que Marx destacou como “motor da história”, sempre em sentido progressivo – escravismo-feudalismo-capitalismo-socialismo –, que Priestland nos ajuda a entender a crise que o mundo desenvolvido enfrenta hoje. Destaca a possibilidade de reversão histórica.

A ascensão do comerciante ao poder político e cultural começou nos Países Baixo e na Inglaterra no século XVII e atingiu o auge nos Estados Unidos da Era do Jazz, antes de implodir nos anos 1930. Foi apenas nos anos 80, quando seus rivais aristocráticos, burocráticos e trabalhadores estavam muito enfraquecidos, que o comerciante recomeçou sua ascensão, passando a dominar a ordem mundial. Essa fase de retorno ficou conhecida como a Era Neoliberal.

Assim, a história sugere que nenhuma casta deve governar sozinha, mas que o comerciante é especialmente inadequado para isso. O problema não está no mercado em si, pois é autodestrutivo impor um bloqueio total ao mercador. Mas o modelo de livre-mercado, dominante sobretudo nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e em multinacionais, também não é sustentável.

Priestland reafirma: “precisamos aprender novas lições com nossa história recente”. Só reconhecendo os perigos do domínio do comerciante e limitando seus excessos podemos escapar a uma repetição dos colapsos sofridos em 1929 e 2008.

 

3 thoughts on “Motor da História

  1. Muito boa a análise.
    Ainda não li a obra, minha dúvida seria em que ponto as bases filosóficas do humanismo estabelecem um contra-ponto a essa luta pelo poder, ao ser um caminho que permite o livre arbítrio, mas com uma fé raciocinada e responsável. De modo que essa marcha da evolução em sua maior parte acontece, ainda,nos moldes apresentados no artigo, mas aos poucos é uma dimensão do tecido social que transforma essa condição ao trazer a realidade do ser para essas conquistas, bem como ser uma condição imprescindível para se ter propriedade no continuísmo da raça humana.

    • Prezado Guilherme,
      será a marcha da humanidade racional? Não sei, parece que não quando observamos o estado atual do mundo…

      O pensar, o querer e o julgar são três atividades mentais básicas, cuja crítica da razão pura (o conhecimento), da razão prática (a ética), e da razão de julgar (a decisão) permitiria a compreensão da existência racional.

      Reconhecer esse limite para o pensamento doutrinário e para as ações políticas é evitar repetir os filósofos políticos do passado que deduziam diretamente do Pensar a prática de Julgar, não respeitando o Querer da sociedade.

      Isso não implica nem a renúncia do nosso próprio pensamento (Pensar), do nosso ponto de vista (Querer), e da nossa própria ação (Julgar), nem que aceitemos, cegamente, tudo o que a sociedade quer e a história produz.
      att.

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