Entendendo o Poder

Castas Valores e Ocupações

A abordagem sociológica conjunta marxista-weberiana é a base do livro de David Priestland, Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014). Porém, tem um ponto fraco: ela se preocupa demais com as estruturas e organizações sociais e tem muito pouco a dizer sobre a cultura e a experiência subjetiva.

Se quisermos entender o Poder, precisamos compreender:

  1. de que modo os membros das redes de Poder pensam e agem, e
  2. por que seus valores podem ter uma atração mais ampla, para além do seu próprio grupo, com o predomínio cultural que Antônio Gramsci chamou de hegemonia.

Com Priestland defende em seu livro, não é apenas o poder político e econômico do comércio que explica a influência da Economia de Livre Mercado, desde os anos 1970, quando houve o fim do Acordo de Bretton Woods e o regime de câmbio tornou-se flexível ou flutuante. É também a sua capacidade de convencer as elites e os eleitorados de que essa visão de mundo é correta.

É para captar esse aspecto cultural e subjetivo das redes de poder que Priestland usou o termo casta. Hoje, os sociólogos costumam empregar essa palavra para se referir a um grupo fechado de determinado status, onde os membros com frequência são hereditários, enquanto os escritores medievais viam as castas como parte de uma hierarquia rígida.

Contudo, Priestland utiliza o termo de outra maneira. Quando os antigos escritores indianos usavam o termo casta (varna), eles assumiam que os diferentes grupos ocupacionais tinham diferentes estilos de vida e diferentes valores, ou formas de comportamento adequado à sua missão (darma). Também os escritores medievais da Europa Ocidental acreditavam que as ordens da sociedade se comportam e pensam de forma distinta.

É bastante difícil separar o conceito de casta das ideias de hierarquia. Em última análise, a base para as castas, que é a divisão do trabalho, gera desigualdade. Mas muitos pensadores indianos tentaram fazer isso, inclusive Mahatma Gandhi.

O conceito de casta tem duas vantagens sobre as outras formas de categorização:

  1. é mais abrangente do que classe, incorporando vários tipos de grupos, por exemplo, burocratas e sacerdotes, assim como capitalistas e trabalhadores; e
  2. inclui a perspectiva cultural, além dos interesses econômicos.

As castas são, portanto, membros de diversas redes e instituições de poder, cada uma apresentando sua própria cultura e incentivando determinado estilo de vida, o que tende a dar a seus integrantes determinadas atitudes para com:

  1. a autoridade,
  2. a organização e
  3. a política.

Um sacerdote religioso terá um estilo de vida e um sistema de valores muito diferentes dos de um soldado do Exército. Mas a posição da pessoa em uma organização também importa: um profissional instruído no alto escalão de uma burocracia vai desfrutar de bem mais autonomia do que um auxiliar de escritório. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, este é o lema dos escritórios hierárquicos…

Os conceitos de casta que Priestland usa – comerciante, sábio-tecnocrata, guerreiro e trabalhador – são, claro, muito generalizados e, inevitavelmente, não há uma correlação direta entre os valores e a posição na estrutura do poder político ou econômico. Mas, como tipos ideais, empregando o termo de Weber, são úteis para mostrar como nossas ocupações se relacionam com nossos valores.

Há alguns paralelos entre a abordagem de Priestland e a dos sociólogos franceses associados a Pierre Bourdieu, o qual fez uma tentativa semelhante de mostrar como as estruturas sociais objetivas se relacionam com as visões de mundo. Para ele, as pessoas operam em redes sociais ou campos, em que operam diferentes formas de poder. Por exemplo, alguém pode trabalhar em uma empresa comercial, onde o capital econômico é predominante, ou então pode estar em um departamento universitário, onde o capital cultural tem mais importância. Cada campo gera seu próprio conjunto de pressupostos não examinados (doxa) e de práticas e atitudes (habitus), embora o habitus também resulte em criação e educação.

Seguidores de Bourdieu desenvolveram um esquema de possíveis ordens morais, identificando seis visões do “bem comum” no mundo contemporâneo, cada uma das quais pode se relacionar com o esquema de castas, elaborado por Priestland:

  1. a visão de mercado: comerciante;
  2. a industrial: sábio-tecnocrata;
  3. a inspirada: sábio-homem santo;
  4. a doméstica: aristocrata paternalista;
  5. a de fama: guerreiro;
  6. a cívica: trabalhador.

Será que as pesquisas empíricas sobre as sociedades como um todo confirmam o argumento que diz que a ocupação da pessoa se relaciona com sua visão do mundo? Sim, a profissão e a experiência de trabalho são fundamentais para a formação das atitudes políticas. Porém, o gênero e a fase de vida da pessoa importam. Esses fatores são mais relevantes nas sociedades ocidentais modernas do que as classes marxistas, ou seja, a posse de meios de produção.

Os fatores ocupacionais são particularmente importantes na formação de ponto de vista políticos:

  • primeiro, a relação da pessoa com o mercado: quanto mais está sujeita à concorrência do mercado no seu trabalho, mais tende a uma visão de mundo mais pró-mercado do que um servidor público;
  • segundo, o lugar da pessoa na hierarquia de trabalho e na educação: os que têm alto nível educacional e muita autonomia no trabalho, sobretudo em empregos de “processamento de pessoas” – por exemplo, professores e médicos –, que envolvem relações diretas com indivíduos consumidores de serviços, exigem discernimento e empatia, não podendo ser submetidos a muito controle gerencial, tendendo a um conjunto de atitudes antiautoritárias, culturalmente libertárias;
  • terceiro, os que fazem trabalhos de processamento de objetos, tipo produção e trabalhos técnicos, ou que lidam com o público de uma forma rotineira, por exemplo, em lojas ou em repartição pública, estão mais sujeitos à hierarquia no trabalho e se inclinam menos a ter ideias libertárias.

Podemos relacionar a ocupação com as quatro posições políticas que dominam as sociedades democráticas modernas.

  1. Os que estão nas profissões liberais, tais como os advogados, ou são gerentes empresariais instruídos tendem a estar na direita culturalmente liberal comerciantes brandos no esquema de Priestland.
  2. Os pequenos comerciantes e vendedores, ou seja, a pequena burguesia para os marxistas, que são processadores de objetos e sujeitos à pressão do mercado, tendem a estar na direita autoritáriacomerciante firme e guerreiro.
  3. Os que estão em empregos administrativos ou manuais no setor público são processadores de objetos e antimercado, e tendem a ter pontos de vista culturalmente conservadores da Velha Esquerda.
  4. Já os profissionais instruídos no setor público votam na Nova Esquerda, pois são culturalmente libertários como os trabalhadores criativos, que têm valores tanto artesanais como de sábio-homem santo.

Mas essas relações nem sempre estão presentes, há fortes distinções nacionais, sugerindo que as variações entre os diferentes sistemas partidários também têm forte influência.

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