Epicuro e Lucrécio

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Em janeiro de 1417, conta Stephen Greenblatt, no livro A Virada: O Nascimento do Mundo Moderno, o caçador de livros Poggio Bracciolini resgatou das prateleiras de uma biblioteca monástica a obra-prima de Lucrécio, o poema Da Natureza, até então dado como perdido. “Era apenas Epicuro”, Lucrécio escreveu, “quem poderia curar a condição miserável do homem que, mortalmente entediado em casa, sai correndo para sua estância de veraneio apenas para descobrir que lá se encontra tão deprimido quanto antes”. Epicuro, morto mais de dois séculos antes, era nada menos que o próprio salvador.

Da Natureza é a obra de um discípulo que transmite ideias desenvolvidas sobre a sabedoria de viver com prazer. O núcleo de sua visão pode ser reduzido a uma única ideia incandescente: tudo que já existiu e tudo que ainda existirá é montado a partir de partículas indestrutíveis de dimensões diminutas, mas inimaginavelmente numerosas. Os gregos tinham uma palavra para essas partículas invisíveis, coisas que, como eles concebiam, não podiam ser divididas em elementos menores: átomos.

O físico Joseph John Thomson descobriu os elétrons, em 1897, por meio de experimentos envolvendo raios catódicos em tubo de crookes. Este consiste em uma ampola que contém apenas vácuo e um dispositivo elétrico que faz os elétrons de qualquer material condutor saltar e formar feixes, que são os próprios raios catódicos. Thomson, ao estudar os raios catódicos, descobriu que estes são afetados por campos elétricos e magnéticos, e deduziu que a deflexão dos raios catódicos por estes campos são desvios de trajetória de partículas muito pequenas de carga negativa, os elétrons. Thomson propôs, então, que o átomo era divisível em partículas carregadas positiva e negativamente (prótons e nêutrons), contrariando o modelo indivisível de átomo proposto por atomistas na Grécia antiga.

Uns filósofos gregos defendiam teorias contrárias: a matéria central do universo era o fogo, ou a água, ou o ar, ou a terra, ou alguma combinação desses elementos. Outros ainda propunham que a intrincada ordem do universo era prova de uma mente ou um espírito invisível que cuidadosamente montava as peças segundo um plano prévio. Este argumento do “design inteligente” é adotado ainda hoje pelo teísmo, doutrina comum a religiões monoteístas e sistemas filosóficos inclinados ao fideísmo – doutrina teológica que, desprezando a razão, preconiza a existência de verdades absolutas fundamentadas na revelação e na fé –, caracterizada por afirmar a existência de um único Deus, de caráter pessoal e transcendente, soberano do universo e em intercâmbio com a criatura humana.

Epicuro aos doze anos ficou contrariado porque seus professores não sabiam explicar o significado do caos. A antiga ideia dos átomos de Demócrito lhe parece o caminho mais promissor. Aos 32 anos de idade, em um jardim de Atenas, Epicuro construiu toda uma explicação do Universo e uma Filosofia da Vida Humana.

Constantemente em movimento, os átomos colidem uns com os outros, raciocinava Epicuro, e em certas circunstância formam corpos cada vez maiores. Os maiores que se podem observar – o Sol e a Lua – são feitos de átomos, assim como os seres humanos e até as moscas e os grãos de areia. Não há supercategorias da matéria; não há uma hierarquia dos elementos.

Os corpos celestes não são seres divinos que definem nosso destino para o bem ou para o mal, e também não se movem pelo vazio guiados pelos deuses: eles simplesmente fazem parte da ordem natural, são imensas estruturas de átomos sujeitas aos mesmos princípios de criação e destruição que governam tudo que existe. Se a ordem natura é inconcebivelmente vasta e complexa, continua sendo possível compreender parte de seus constituintes básicos e de suas leis universais. Na verdade, essa compreensão é um dos maiores prazeres humanos!

Talvez esse prazer seja a chave para entender o impacto da filosofia de Epicuro. Foi como se ele tivesse exposto para seus seguidores, entre os quais o romano Lucrécio, séculos depois, uma fonte inesgotável de satisfação, escondida dentro dos átomos de Demócrito.

O prazer parece intelectual demais para atingir mais que um número reduzido de especialistas. Mas Epicuro evitava a linguagem cifrada e especializada de um círculo fechado de adeptos, insistia em usar a linguagem comum, em se dirigir ao mais amplo círculo de ouvintes. Não era preciso ter uma compreensão detalhada das efetivas leis do universo físico, apenas compreender que há uma explicação natural oculta pra tudo aquilo que causa assombro ou perplexidade. Caso consiga se agarrar ao fato mais simples da existência, e repeti-lo – “átomos e vazio e nada mais, átomos e vazio e nada mais…” –, sua vida vai mudar!

A aflição – o medo de algum castigo horroroso imposto pelo Juízo Final em algum reino além-túmulo, seja um inferno, seja um purgatório, ou mesmo o tédio do paraíso celeste – não tem mais efeito sobre a maioria dos homens e mulheres modernos assumidamente ateus. Evidentemente, tinha um poder de repressão na antiga Atenas de Epicuro e na Roma Antiga de Lucrécio e também no mundo cristão medieval pré-Renascimento em que vivia Poggio, o caçador-de-livros da Antiguidade.

Os inimigos de Epicuro fizeram um uso malicioso de sua celebração do prazer em viver sem aflição ou temor da morte. Inventaram histórias maldosas de devassidão, sexo e banquetes perenes. Na realidade, o filósofo parece ter levado uma vida conspicuamente simples e frugal.

“Quando dizemos, então, que o prazer é a meta”, Epicuro escreveu em uma das poucas cartas suas que sobreviveram, “não nos referimos aos prazeres da prodigalidade ou aos prazeres da sensualidade”. A enlouquecida tentativa de satisfazer certos apetites – “uma sucessão ininterrupta de bebedeiras e festejos […] amor sexual […] o consumo de iguarias de uma mesa requintada” – não pode levar à paz de espírito que é a chave do prazer duradouro.

É impossível viver de maneira prazerosa “sem viver de maneira prudente e honrada e justa, e também sem viver de maneira corajosa, temperada e magnânima, e sem fazer amigos, e sem ser filantrópico”, disse um discípulo de Epicuro.

Uma firmação filosófica de que o objetivo final da vida é o prazer era escandalosa, tanto para os pagãos politeístas como para seus adversários, os judeus e depois os cristãos monoteístas. O prazer como bem maior?! E adorar os deuses e os ancestrais? Servir à família, à cidade, ao Estado? Observar escrupulosamente as leis e os mandamentos? Buscar a virtude ou uma visão do divino?

Essas afirmações opostas inevitavelmente acarretavam formas ascéticas de autonegação, autossacrifício e até de autodesprezo. Nenhuma delas era compatível com a busca do prazer como bem maior.

Havia um medo ocultado de que maximizar o prazer e evitar a dor fossem na verdade objetivos atraentes e pudessem servir como princípios racionais de organização da vida humana. Caso tivessem sucesso nessa empreitada, todo um conjunto de princípios alternativos tradicionais – sacrifício, ambição, status social, disciplina, fé – seria questionado, junto com as instituições a que esses princípios serviam.

A vida pode ser até calma demais, não se envolvendo nas questões cívicas de maneira plena e vigorosa, buscando fama e renome. Essas realizações valem a pena?

O ponto-chave, como o discípulo epicurista Lucrécio escreveu em versos de beleza incomparável, era abandonar a tentativa angustiada e condenada de erguer muros cada vez mais altos e, pelo contrário, escolher o cultivo do prazer.

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