Sabedoria e Amizade (Máximas de Epicuro – Ética)

epicuro X dios

Se queres enriquecer alguém, não lhe acrescentes riquezas: diminui-lhe os desejos.

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Encontro-me cheio de prazer corpóreo quando vivo a pão e água e cuspo sobre os prazeres da luxúria, não por si próprios, mas pelos inconvenientes que os acompanham.

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A quem não basta pouco, nada basta.

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Não deves corromper o bem presente com o desejo daquilo que não tens; antes, deves considerar também que aquilo que agora possuis se encontrava no número dos teus desejos.

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Quem menos sente a necessidade do amanhã mais alegremente se prepara para o amanhã.

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A vida do insensato é ingrata, encontra-se em constante agitação e está sempre dirigida para o futuro.

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Recordemos que o futuro não é nosso nem de todo não nosso, para não termos de esperá-lo como se estivesse para chegar, nem nos desesperarmos como se em absoluto não estivesse para vir.

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Cura as desgraças com a agradecida memória do bem perdido e com a convicção de que é impossível fazer que não exista aquilo que já aconteceu.

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Não são os convites e as festas contínuas, nem a posse de meninos ou de mulheres, nem de peixes, nem de todas as outras coisas que pode oferecer uma suntuosa mesa, que tornam agradável a vida, mas sim o sóbrio raciocínio que:

  • procura as causas de toda a escolha e de toda a repulsa e
  • põe de lado as opiniões que motivam que a maior perturbação se apodere dos espíritos.

De todas estas coisas, o princípio e o maior bem é a prudência, da qual nascem todas as outras virtudes; ela nos ensina que:

  • não é possível viver agradavelmente sem sabedoria, beleza e justiça,
  • nem possuir sabedoria, beleza e justiça sem doçura.

As virtudes encontram-se por sua natureza ligadas à vida feliz, e a vida feliz é inseparável delas.

(…)

O sábio não participará da vida pública se não sobrevier causa para tal. Vive ignorado.

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Da segurança, obtida até certo limite pelos homens, deriva, cheia de força e de puríssima facilidade de vida, a segurança da existência tranquila e afastada da turba.

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Não realizes na tua vida nada que, se for conhecido por teu próximo, te possa acarretar temor.

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A serenidade espiritual é o fruto máximo da justiça.

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O justo é sumamente sereno, o injusto cheio da maior perturbação.

Realizará o sábio coisas que a lei proíbe, sabendo que permanecerão ocultas?

Não é fácil encontrar uma resposta absoluta.

O homem que tenha alcançado o fim da espécie humana será honesto mesmo que ninguém se encontre presente. .

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As leis existem para os sábios, não para impedir que cometam, mas para impedir que recebam injustiça.

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De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade.

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Toda amizade é desejável por si própria, mas inicia-se pela necessidade do que é útil.

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Não temos tanta necessidade da ajuda dos amigos como de confiança na sua ajuda.

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Não é amigo quem sempre busca a utilidade, nem quem jamais a relaciona com a amizade, porque um trafica para conseguir a recompensa pelo benefício e o outro destrói a confiada esperança para o futuro..

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No que se refere à amizade, não há que apreciar nem os que estão sempre dispostos nem os que recuam, pois que por ela se devem afrontar os perigos.

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A natureza, única para todos os seres, não fez os homens nobres ou ignóbeis, mas sim as suas ações e as disposições de espírito.

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Devemos escolher um homem bom e tê-lo sempre diante dos olhos, para vivermos como se ele nos observasse e para fazermos tudo como se ele nos visse.

Não é ao jovem que se deve considerar feliz e invejável, mas ao ancião que viveu uma bela vida.

O jovem na flor da juventude é instável e é arrastado em todas as direções pela fortuna; pelo contrário, o velho ancorou na velhice como em um porto seguro e os bens que antes esperou cheio de ansiedade e de dúvida os possui agora cingidos com firme e agradecida lembrança.

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Recorda-te de que, ainda que sejas de natureza mortal e com um limite finito de vida,

  • te debruçaste, mediante a investigação da natureza, no que é infinito e eterno, e
  • contemplaste o que é agora, será e sempre foi no tempo transcorrido.

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O sábio que se pôs à prova nas necessidades da vida, melhor sabe dar generosamente que receber: tão grande é o tesouro de íntima segurança e independência dos desejos que em si possui.

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Ele prefere a sabedoria desafortunada à insensatez com fortuna, ainda que pense que o melhor de tudo é que nas ações o juízo sábio seja acompanhado da fortuna próspera.

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Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode.

  • Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus.
  • Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus.
  • Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus.
  • Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede?

Observação:

Na Filosofia de Epicuro (341 a.C. – 270 a.C.) já se encontrava a raiz da crítica lógica de todas as concepções de deus(es) como um ser sobrenatural: a incoerência em ser, simultaneamente, onipotente – todo-poderoso com poder absoluto, total, infinito – e onisciente – que tem saber absoluto, pleno, porque tem conhecimento infinito sobre todas as coisas.

Se pode tudo, é responsável pelos males do mundo. Se sabe tudo, sabe que haverá o mal futuro, que ele poderá evitar, mas nesse caso o saber absoluto entrará contradição com o poder absoluto, pois o mal que ele sabia que ocorreria deixa de ocorrer. Ele é uma coisa (onipotente) ou outra (onisciente), não pode ser as duas coisas…

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