Complexidade da Economia do Petróleo

Ao publicar meu primeiro artigo-post, no site Brasil Debate, em que utilizei de conhecimentos propiciados pela Ciência da Complexidade, sobre os quais fiz uma série de posts, recentemente, neste modesto blog, recebi o indelicado comentário de Caio Oliveira (desconheço quem é): “Impressionante texto! Talvez o maior exemplo de escrever tão eloquentemente, sem dizer absolutamente nada!!!”

Caso fosse eu um principiante na rede social, poderia “vestir-a-carapuça” e introjetar uma culpa por “não conseguir dizer absolutamente nada”… No entanto, talvez o problema esteja sim no próprio leitor, Caio Oliveira, por ele ainda desconhecer e assim não conseguir entender e/ou absorver as proposições inovadoras da Ciência da Complexidade:

  1. a interação entre agentes (homogêneos ou heterogêneos) e meio-ambiente (físico e socioeconômico);
  2. as propriedades emergentes com classes de comportamentos e
    a auto-organização sem autoridade (ou planejamento) central;
  3. a importância da não linearidadedesvios, percalços ou complicações – e
    das diversas escalas de análise, dada a redundância da escala 1:1;
  4. as regras de interações sem dedução de seu determinismo caótico;
  5. a ênfase na dinâmica, variações ao longo do tempo, seja com dependência de trajetória, seja com retroalimentação;
  6. as noções de aprendizado, adaptação e evolução com inovação, uma ruptura bem sucedida por fazer algo como não era feito antes.

No caso em análise (abaixo), chamei a atenção como uma mera contingência — a investigação da Operação Lava-Jato — provocou um desvio das condições iniciais, provocando uma trajetórica caótica que torna imprevisível o longo prazo em que ela terá fim, seja para o mal –– destruição do projeto de obter uma Economia do Petróleo com soberania nacional –, seja para o bem — construção do projeto de obter cidadania para todos os cidadãos brasileiros, seja rico, seja pobre. Isto significa todos obterem direitos civis, políticos, sociais e econômicos, mas com a exigência de cumprir os deveres da idoneidade moral: qualidade de quem desfruta de bom nome no meio social que frequenta, por sua honestidade, boa moral e bons costumes.

Juntamente com essa análise complexa e interdisciplinar, defendo no artigo a meritocracia para ocupação de todos os cargos de governo. Essa meritocracia não pode ser reduzida ao QIQuem Indica, geralmente, algum partido da base governista. Titulação acadêmica, reputação profissional e idoneidade moral não podem ser substituídas por nomenclatura, militância e/ou clientelismo político. Senão, dá no que deu… E o Caio Oliveira continuará sem entender nada!

Segue-se o meu citado artigo-post. Antes, recomendo ver o vídeo acima (tem legenda em português clicando no canto inferior direito) que também emprega a metodologia de pensamento de acordo com real Complexidade da História da Humanidade.

“Três temas são tratados por Daniel Yergin em seu livro clássico – The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power: como o petróleo se tornou o maior negócio na ascensão do capitalismo no século XX, como é um produto intimamente imbricado em estratégias nacionais, poder e geopolítica globais, e como a nossa sociedade se tornou uma “Sociedade do Hidrocarboneto”. Ele analisa as forças poderosas e aparentemente impessoais da Economia e da Tecnologia, assim como as estratégias e habilidades dos homens de negócios e dos políticos em apoderar seus recursos.

Embora considerando toda a complexidade dos conflitos econômicos e políticos, houve um “fio-condutor” na história do petróleo, uma sensação contemporânea até para fatos ocorridos há muito tempo e ecos do passado em acontecimentos recentes. A história do petróleo é ao mesmo tempo uma história de indivíduos, forças econômicas poderosas, mudança tecnológica, lutas políticas, conflito internacional e transformação épica.

Em sua leitura, percebe-se que é artificial a análise da Economia do Petróleo apenas em sua dimensão nacional. Porém, não se consegue descrever e explicar “tudo sob o sol” – e seria redundante uma escala 1:1. Seria “um mapa perfeito”, porém inútil…

Dada a complexidade observada, não se pode exigir que o modelo seja igual à realidade. A meta do analista é descrever o mínimo necessário, mensurando a essência do fenômeno, de modo que a modelagem em certas escalas possa ocorrer. Estabelece-se o trade-off básico entre descrever o mínimo essencial ou ganhar realismo. É necessário valorizar as hierarquias na modelagem.

A busca de entendimento da Economia da Complexidade se afasta da ortodoxia em Economia na medida em que é crítico à noção de equilíbrio, uma constante nas teorias econômicas do mainstream. Por exemplo, antes da explosão da crise financeira mundial, em setembro de 2008, os economistas ortodoxos imaginavam que o sistema capitalista mundial operava próximo ao equilíbrio, pois “os Estados Unidos consumiam e o resto do mundo lhe financiava”. Depois, passaram a considerar aquele “equilíbrio instável” como um mero recurso analítico para verificar as forças que o levaram a funcionar fora-do-equilíbrio…

A Economia da Complexidade abandona essa noção de equilíbrio e observa a interação dinâmica entre os agentes heterogêneos, as partes e o meio-ambiente físico, socioeconômico e institucional. Sem a análise das conexões em níveis diferenciados de escala, não se pode compreender o fenômeno macrossocial. A despeito da complexidade dos fenômenos observados, é possível distinguir padrões ou classes de comportamento, em casos reais, seja na natureza, seja na sociedade. Esta auto-organização dos sistemas leva à emergência de fenômenos. A partir de estudos sobre aprendizagem e evolução, percebe-se a relevância da adaptação face às mudanças dinâmicas desses sistemas auto-organizáveis sem autoridade (ou planejamento) central.

Analisando a causa da reversão das expectativas otimistas a respeito do futuro da Economia do Petróleo brasileira, a metodologia mais usual é usar a História, isto é, o passado como guia do futuro. Na Ciência Clássica, em geral, usa-se o recurso de transformar os sistemas abertos, ou seja, os sistemas dinâmicos, complexos e adaptativos, em sistemas fechados para poder aplicar as leis conhecidas que privilegiam as linearidades em detrimento das não-linearidades.

Isso ocorre para facilitar e simplificar a análise de dados. Mas, na realidade, não se pode esquecer que um agente ao tomar uma decisão espontânea mínima, considerada muitas vezes insignificante, nos sistemas dinâmicos abertos, pode gerar uma transformação inesperada em um futuro incerto. No caso brasileiro atual, o “agente policial”, ou seja, a Polícia Federal instigada pelo Ministério Público, desencadeou a operação Lava-Jato que inicialmente imaginava-se uma simples investigação de lavagem de dinheiro-sujo em posto de gasolina, operada por um doleiro em nome de políticos.

Para surpresa geral, não é que se verificou a influência em grandes proporções, ocasionada em sistemas dinâmicos, quando foram feitas alterações muito pequenas nas “condições iniciais” inseridas na programação dos investimentos na indústria do petróleo brasileira?

Ao tentar desvendar como, de fato, a história importa, divergências consideráveis surgem entre os economistas na definição de mecanismos explicativos. A Teoria da Aleatoriedade sugere que se tem de reconhecer a importância concedida ao tema da contingência, um fato imprevisível ou fortuito que escapa ao controle, pois ocorre de maneira eventual, circunstancial, até desnecessária. Poderia ter acontecido de maneira diferente ou simplesmente não se ter efetuado. De repente, “a casa caiu!”. O risco sistêmico alastrou-se nas cadeias produtivas, rede de fornecedores, empreiteiras de obras públicas, financiadores, investidores brasileiros e estrangeiros, fundos de pensão, etc.

A especificação das sequências de eventos os considera como dependentes da trajetória. Torna-se indispensável identificar a lógica operativa das peças e engrenagens de cada um dos mecanismos explicativos. Isso porque as potenciais fontes de mudança e também a susceptibilidade a mudanças variarão a depender do mecanismo explicativo em operação.

No triste (mas necessário) episódio histórico que a sociedade brasileira vivencia, mais uma vez, constata-se o atraso da cidadania. Mas dessa vez não se verifica só a necessidade de acesso a direitos tal como à educação moral e cívica de qualidade na formação de quadros funcionais, empresariais e partidários, nomeados para cargos públicos sob critério de meritocracia. É fundamental eles terem consciência de seus deveres como gestores públicos – e idoneidade. Esta é a qualidade de quem desfruta de bom nome no meio social que frequenta, por sua honestidade, boa moral e bons costumes. Não devem se considerar impunes face à malversação, apropriação indébita de fundos, valores, especialmente durante administração de patrimônio alheio de origem pública. Vigiar e punir levará a essa consciência, caso ela não seja adotada pessoal e voluntariamente.”

2 thoughts on “Complexidade da Economia do Petróleo

  1. Prezado Fernando,

    os sistemas fora do equilíbrio tendem a uma entropia (desordem) máxima, isso é ocasionado pela própria configuração do sistema, bastou expor alguma parte as condições de desequilíbrio e todo o sistema tende a ruir como se fosse um castelo de cartas.

    É o que está acontecendo com a Petrobrás, neste momento essa empresa poderá cair um tombo histórico, em razão da frágil estrutura organizacional cujos princípios são pautados pelos excessos e por gestores que se achavam donos da situação. A operação Lava Jato expôs ao mundo como as práticas da corrupção são orquestradas incluindo a iniciativa privada; neste caso, em um mundo conectado onde a informação chega a todos instantaneamente, o impacto é profundo e demolidor.

    Com relação ao petróleo, essa commodity está com os dias contados, isso porque a tecnologia global está avançando em um ritmo com décadas de desenvolvimento sendo atingidas em poucos anos. O que provavelmente irá acontecer no médio prazo é o Google/Apple/Samsung, arrematarem todas as empresas automobilísticas que não forem rápidas o suficiente para perceber que seus negócios são lentos demais em comparação com as gigantescas empresas cujo foco é a própria tecnologia, esse será o início da robotização em um nível exponencial.

    Outra questão é o surgimento da Inteligência Artificial que irá sacudir o planeta em razão de poder controlar toda a internet e começar um novo degrau da escalada de desenvolvimento cibernético. Essas são proposições que estão de acordo com a teoria da complexidade e dos sistemas fora do equilíbrio.

    Segue o livro: The Prize – The Epic Quest for Oil, Money & Power by Daniel Yergin – Epub: https://drive.google.com/open?id=0B-IzSwsM47nec3ZvWlJGQjhERmM&authuser=0

    Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      de acordo. Viu o Audi esportivo com motor elétrico, alto desempenho e 450 km de autonomia apresentado na semana passada no Salão de Genebra?

      A Audi “mostrou as armas para Google/Apple/Samsung. Só que a Apple tem maior valor de mercado (e caixa) que todas as grandes marcas automobilísticas reunidas. Terá monopólio da inovação tecnológica?

      A teoria da complexidade e dos sistemas fora do equilíbrio tem de ser ensinada nos Cursos de Economia, senão os economistas continuarão sem entender nada…
      att.

      PS: grato pelo livro. Tenho em papel já que é um clássico, porém eletrônico me facilitará fazer futuros posts a respeito dele.

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