Uma História do Mundo em Doze Mapas

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Jerry Brotton é professor de Estudos do Renascimento na Queen Mary University of London e um dos maiores especialistas em cartografia renascentista e história dos mapas. Autor de livros traduzidos para mais de quatorze línguas, como The Sale of the Late King’s Goods e The Renaissance, também escreve e apresenta programas de TV e rádio.

Com extensa pesquisa, apresentada em 616 páginas, o historiador e especialista em mapas Jerry Brotton publicou Uma História do Mundo em Doze Mapas (Rio de Janeiro: Zahar; 2014), onde explora doze dos mapas mais influentes da história – das representações místicas da Antiguidade até as imagens de satélite de hoje –, em um panorama repleto de controvérsias e manipulações.

Recriando o contexto de cada um desses mapas, o autor revela de que maneira os mapas tanto influenciam quanto refletem os eventos de suas respectivas épocas. Mostra ainda como, ao estudá-los, pode-se compreender melhor o mundo que os produziu, pois estão intimamente ligados aos sistemas de poder, autoridade e criatividade dos tempos e lugares em que são produzidos.

Assim, temos:

  • a perspectiva cristã, centrada em Jerusalém, de um mapa-múndi do século XIV;
  • um mapa do século XII com o sul no topo e, ao contrário da cartografia da época, seguindo a tradição muçulmana;
  • a primeira visão verdadeiramente globalizada do planeta, registrada pelo português Diogo Ribeiro no início do século XVI;
  • a “projeção de Peters”, elaborada na década de 1970 e que procurava dar igualdade ao chamado “Terceiro Mundo”; ou
  • a perspectiva dos satélites e fotos do Google Earth.

Embora a forma como representamos o globo terrestre esteja mais uma vez mudando, Brotton argumenta que os mapas atuais não são mais definitivos ou objetivos do que os do passado – eles continuam a recriar e mediar nossa visão do mundo.

Repleto de belas ilustrações, Uma História do Mundo em Doze Mapas é uma reflexão original da história da humanidade. O autor analisa os mapas abaixo recriando o contexto de cada um deles, conta as histórias de quem os criou e por quê, e revela a sua influência sobre a forma como vemos o mundo:

  1. A Geografia de Ptolomeu, c.150 d.C.
  2. Al-Idrisi, 1154 d.C.
  3. O mapa-múndi de Hereford, c.1300
  4. O mapa mundial Kangnido, 1402
  5. Martin Waldseemüller, mapa do mundo, 1507
  6. Diogo Ribeiro, mapa do mundo, 1529
  7. Gerard Mercator, mapa do mundo, 1569
  8. Joan Blaeu, Atlas maior, 1662
  9. Família Cassini, mapa da França, 1793
  10. Halford Mackinder, “O eixo geográfico da história”, 1904
  11. A projeção de Peters, 1973
  12. Google Earth, 2012

O mapa babilônico do mundo representa a primeira tentativa de que se tem notícia de mapear todo o mundo conhecido. Trata-se de um dos primeiros exemplos de um dos objetivos mais básicos do conhecimento humano: impor alguma espécie de ordem e estrutura ao espaço vasto e aparentemente sem limites do mundo conhecido. Apresenta uma abstração da realidade terrestre. Mais de 8.000 anos antes de o sonho de ver a Terra do espaço se tornar realidade, o mapa do mundo babilônico oferece aos seus observadores a chance de ver o mundo de cima e adotar uma perspectiva divina de criação terrena.

Desde os tempos antigos, o tipo de informações geográficas transmitidas por mapas era exclusivo da elite mística ou dirigente. Para xamãs, sábios, governantes e sacerdotes, os mapas do mundo conferiam autoridade secreta e mágica aos seus criadores e proprietários. Se essas pessoas entendiam os segredos da Criação e a extensão da Humanidade, então elas certamente deviam saber como dominar o mundo terrestre em toda a sua diversidade aterradora e imprevisível.

O anseio de mapear é um instinto humano básico e duradouro. Onde estaríamos sem mapas? A resposta, obviamente, “perdidos”, mas os mapas fornecem respostas a muito mais perguntas do que simplesmente como ir de algum lugar a outro.

Temos consciência de nós mesmos em relação ao resto do mundo físico a partir do processamento espacial de informações. O “mapeamento cognitivo” é o dispositivo mental pelo qual os indivíduos adquirem, ordenam e lembram as informações sobre seu ambiente espacial, em cujo processo eles distinguem e se definem espacialmente em relação ao mundo vasto, aterrorizante e incognoscível que está “lá fora”.

O mapeamento desse tipo não é exclusividade dos seres humanos. Animais também fazem demarcação de território pelo odor. Mas somente os humanos deram o salto crucial do mapeamento para a confecção de mapas.

O que é um mapa? Hoje, os estudiosos aceitam geralmente a definição apresentada em History of Cartography, obra em vários volumes que vem sendo publicada desde 1987, sob a direção geral de Harley e Woodward: “mapas são representações gráficas que facilitam a compreensão espacial de coisas, conceitos, condições, processos ou eventos no mundo humano”.

Essa definição, adotada também no livro de Jerry Brotton, “estende-se naturalmente à cartografia celestial e aos mapas de cosmografias imaginárias”, e os livra das definições geométricas mais restritas do termo. Ao incluir a cosmografiaque descreve o universo, analisando a terra e os céus –, a definição de mapa de Harley e Woodward nos permite ver artefatos arcaicos ao mesmo tempo como um diagrama cósmico e um mapa do mundo.

As percepções autoconscientes dos mapas e a ciência de sua criação são invenções relativamente recentes. Por milhares de anos, o que as diferentes culturas chamavam de “mapa” era feito por pessoas que não pensavam neles como pertencendo a uma categoria separada da escrita de documentos formais, da pintura, do desenho ou da inscrição de diagramas em uma variedade de meios diferentes, da rocha ao papel.

A relação entre mapa e o que chamamos de geografia é ainda mais sutil. Desde os gregos, a geografia é definida como o estudo gráfico (graphein) da Terra (), da qual o mapeamento representa uma parte vital. Mas, como disciplina intelectual, a geografia só foi devidamente formalizada no ocidente como profissão ou objeto de estudo acadêmico no século XIX.

É nessa variedade díspar de mapas – em tecidos, tabuletas, desenhos ou gravuras – que reside muito de seu notável poder e fascínio. Um mapa é, simultaneamente, um objeto físico e um documento gráfico, e é tanto escrito como visual: não se pode entender um mapa sem escrita, mas um mapa sem elemento visual é simplesmente uma coleção de nomes de lugares.

O mapas se vale de métodos artísticos de execução para criar uma representação, em última análise, imaginativa de um objeto incognoscível (o mundo); mas também é moldado por princípios científicos. Abstrai a Terra de acordo com uma série de linhas geométricas.

O mapa diz respeito ao espaço como seu objetivo final. Ele oferece uma compreensão espacial dos eventos no mundo humano, mas, como lemos no livro de Jerry Brotton, muitas vezes diz respeito ao tempo, pois pede ao expectador que observe como esses eventos se desdobram um após o outro. Nós, é óbvio, enxergamos os mapas pelo aspecto visual, mas podemos lê-los como uma série de histórias diferentes.

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3 thoughts on “Uma História do Mundo em Doze Mapas

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