Debate no IBRE-FGV-RJ sobre Poupança

Samuel Pessoa

Recebi um honroso convite do Samuel Pessôa para apresentar um seminário no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, nesta segunda feira. Trata-se de um espaço de discussão de temas de economia brasileira. O motivo de me procurar é que os professores da FGV-RJ têm feito “um esforço no Ibre para dialogar com as mais diferentes visões do fenômeno econômico e, portanto, com diferentes interpretações da dinâmica da economia brasileira”.

Disse-me: “Tenho acompanhado seu blog bem como tivemos algum contato quando fui professor do Departamento [do IE-UNICAMP]. Para nós seria muito útil interagir com você. Gostaríamos de ouvir sua interpretação dos seguintes fenômenos:

1) por que nossa taxa de poupança é tão baixa, comparada aos países asiáticos mas também comparada aos países da América Latina?

2) por que a taxa de poupança caiu tanto nos últimos anos?

3) quais medidas avalia que seriam necessárias para que a taxa de poupança subisse?

Em geral, nas reuniões tomam parte, além do Samuel, geralmente Schymura, Regis Bonelli, Armando Castelar, Silvia Matos, Fernando Veloso, José Júlio Senna, Cláudio Considera, Lia Vals, entre outros. Recentemente, sofremos a perda de Nelson Barbosa o que, fui bom para o país, mas ruim para nós”.

Samuel Pessôa (FSP, 01/02/15) coloca-se a seguinte pergunta, dado que nossa inflação tem resistido mesmo com juros reais próximos a 6% ao ano: “Qual é a causa de termos juros reais tão elevados? O texto The Puzzle of Brazil’s High Interest Rates (“O Quebra-Cabeças das Altas Taxas de Juros do Brasil”), do pesquisador do FMI, Alex Segura-Ubiergo, publicado em fevereiro de 2012, sugere que a baixa taxa de poupança é o fator mais importante a explicar o enigma dos juros elevados. Adicionalmente, o estudo documenta que o impacto da baixa taxa de poupança do setor público é ainda maior do que o impacto da baixa taxa de poupança do setor privado.”

É bastante questionável esse argumento convencional da “maior importância relativa da taxa de poupança do setor público. A maior poupança pública reduz o risco soberano do país, isto é, o risco de que o Brasil dê um calote em sua dívida externa, o que diminui o custo de capital de todas as empresas brasileiras e, portanto, os juros.” Com reservas internacionais de cerca de US$ 378 bilhões há esse risco?!

Para Samuel, “um dos maiores motivos para toda a mudança de rota da política econômica entre Dilma 1 e 2 foi o risco de perda do grau de investimento conferido pelas agências internacionais de rating à dívida soberana brasileira. A presidente entendeu que o impacto dessa perda sobre o custo de capital do Tesouro e, principalmente, das empresas seria muito ruim para o desempenho da economia. E não é por outro motivo que o principal objetivo da alteração de rota da política econômica é recuperar a capacidade de poupança do setor público.”

No entanto, Samuel, acha que, no debate público brasileiro, “a vinculação entre baixa taxa de poupança e elevados juros não é bem compreendida. Há toda uma escola de pensamento heterodoxa que acredita que vincular juros reais de equilíbrio elevados à baixa poupança é equivalente a considerar que a decisão de poupar, isto é, de abster-se de consumir, é prévia ao investimento”.

Ele comenta: “meu colega Marcelo Miterhof [meu ex-orientando no Mestrado do IE-UNICAMP), que escreve neste espaço às quintas-feiras, afirmou: ‘Há uma controvérsia teórica: a ortodoxia entende que a poupança precisa ser acumulada previamente ao investimento’. Essa afirmação de Marcelo está errada. Não há essa controvérsia teórica. Os modelos macroeconômicos padrão empregados pelos bancos centrais mundo afora, para auxiliar na tomada de decisão da política monetária, não supõem que seja necessário haver poupança prévia. Em jargão técnico, esses modelos supõem que os preços são rígidos. Portanto, o princípio da demanda efetiva de Keynes se aplica a esses modelos ortodoxos.”

A divergência, para Samuel, “ocorre na forma como o princípio da demanda efetiva é solucionado. Os ortodoxos pensam que muitas vezes a elevação dos gastos gera aceleração da inflação e/ou aumento do déficit externo e são, portanto, insustentáveis. Ou seja, a divergência entre a ortodoxia e setores da heterodoxia que abraçam essa leitura extremada da contribuição de Keynes não é se, numa economia monetária, o investimento determina a poupança ou vice-versa. Todos sabemos que, na relação entre poupança e investimento, este é soberano.”

Samuel Pessôa conclui: “A divergência é a forma como esse princípio é solucionado. Se olharmos a experiência brasileira, em geral ele foi solucionado por meio de aceleração inflacionária e aumento do déficit externo. Esse foi o caso do Plano de Metas de JK, do 2º PND de Geisel e do período Lula. Não há alternativa para arrumarmos a casa que dispense a recuperação da poupança pública. Este é o único caminho para conseguirmos baixar os juros.”

Fiquei muito satisfeito com o convite inclusive porque, no final do ano passado, eu tive oportunidade de conversar com o Marcos Lisboa (atual vice-presidente do Insper-SP e ex-professor da FGV-RJ), justamente, sobre a necessidade de nós trocarmos ideias, para não deixar que a cegueira ideológica acabe com o debate entre as diversas correntes de pensamento no País. É ruim até para nossa democracia. Propus ele, no Insper, e eu, na Unicamp, tentarmos abrir as portas para convidar colegas de posições distintas para debater e ter empatia, entendendo as razões dos outros, respeitando as inteligências alheias. Será positivo para todos, provocando-nos à reflexão mais do que conversarmos apenas com quem pensa igual.

PS: falei a respeito com o Diretor do IE-UNICAMP, Fernando Sarti, e ele me disse que o Samuel Pessôa foi convidado e veio aqui no ano passado para fazer uma apresentação de sua ideias.

2 thoughts on “Debate no IBRE-FGV-RJ sobre Poupança

  1. Professor, e a questão da taxa de juros selic como indexador de boa parte da dívida pública? Como esse fato contribuí para a manutenção dos juros elevados? Nossa política monetária hoje parece estar respondendo à política monetária norte americana. E aumentos no juros elevam o custo de nossa dívida. Nesse cenário, acredito ser difícil engariar mais “poupança pública” visto o compromisso com pagamentos de juros, estes que estão subindo e que comem boa parte do orçamento público.

    1. Prezado Caique,
      essa é a situação típica na qual simples palavras não resolvem uma situação complexa.

      Sob o ponto de vista da STN, é muito confortável prefixar a dívida pública com LTNs, impondo o fim das LFTs.

      Sob o ponto de vista dos investidores “carregadores-da-dívida” (FIFs, EPC fechadas e abertas, TD, FGTS, etc.) é muito difícil comprar LTNs quando a Selic está subindo.

      Resultado: a STN foi obrigada, no último leilão, a voltar colocar LFTs.

      Meu ponto-de-vista (minoritário entre meus colegas “heterodoxos”) é que a institucionalidade de uma economia instável e volátil como a brasileira necessita das LFTs. Senão a marcação-a-mercado impõe perdas aos investidores, que refugam ou mesmo fazem uma fuga do mercado financeiro.

      Os participantes dos fundos de pensão patrocinados por empresas estatais perderam muito dinheiro também com a renda fixa, além de com a renda variável, por causa dessa política equivocada de “acabar com a indexação da dívida pública”. A STN acabará tendo que cobrir essas perdas…
      att.

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