Debate sobre Poupança: Crítica Heterodoxa

Investimento e Poupança Nacional Bruta 2000-2014

Os economistas heterodoxos criticam vários equívocos da sabedoria convencional a respeito do conceito de “poupança”. Percebe-se logo que, quando cai o investimento, em anos de recessão, em que há queda do PIB, amplia-se a capacidade ociosa e reverte-se a expectativa dos empresários. Isso leva à suspensão de seus projetos de ampliação da capacidade produtiva. Em outras palavras, quando cai a renda, consequentemente, também cai o resíduo contábil classificado como “poupança”.

Importante é destacar a aparente correlação, com ou sem defasagem, entre as séries anuais da poupança total (ou investimento) e de crescimento do PIB. Mas é correlação espúria, devido à interdependência demonstrada. Conceitualmente, quando cresce o investimento, multiplica-se a renda, que resulta em maior “poupança”, dada pela diferença entre a renda e o consumo do período. E vice-versa.

O cálculo da composição da poupança agregada é residual, ou seja, tendo seu total, obtido pelo investimento, subtrai-se o que é possível apurar diretamente: a “poupança externa” (déficit na conta corrente do balanço de pagamentos) e a “poupança do governo” (déficit público descontando-se seus investimentos). A “poupança privada”, portanto, é resíduo contábil, obtida indiretamente, pois não há possibilidade de levantamento estatístico do “consumo agregado”, para subtraí-lo da renda gerada no período, e obter diretamente essa poupança.

Sendo assim, evidentemente, dado o investimento e/ou a poupança total, elevando-se o déficit no balanço de transações correntes, por exemplo, em razão de câmbio defasado, déficit do balanço comercial, crescimento de viagens internacionais, despesas com fretes, remessas de lucros e dividendos, pagamento de juros internacionais, etc., vai se obter queda da “poupança interna”. Sendo o déficit público a outra informação disponível, alcança-se por diferença a “poupança privada”.

Na verdade, variáveis exógenas, determinadas discricionariamente, como a taxa de juros e a taxa de câmbio, explicam mais o déficit público (“poupança do governo”) e o déficit na conta corrente (“poupança externa”) do que qualquer abordagem pelo excesso de gastos não-financeiros internos, privados ou públicos.

No entanto, alguns economistas ortodoxos, de acordo com a Abordagem por Absorção do Balanço de Pagamentos, colocam a origem do déficit na conta corrente na diferença entre a renda nacional e os gastos internos. Explicam-no pela existência de excedente do investimento privado sobre a poupança privada e/ou déficit fiscal. O excesso de gastos (ou insuficiência de poupança), correspondente a esse déficit externo, dependeria então de escolhas privadas e/ou governamentais.

Outro equívoco é supor dada a produção doméstica, a partir de hipotético pleno emprego. Em visão estática, evidentemente, ocorre sempre o que se traduz por “efeito esvaziamento” (crowding out): para aumentar os gastos em investimento, necessariamente tem de cortar consumo privado e/ou gastos públicos ou então ter maior déficit em transações correntes externas.

É incrível o que os economistas tiram de pobre identidade contábil: sugerem recessão com a maior desfaçatez! Aliás, por isso Deus criou os economistas: para os desastres naturais parecerem amenos…

Por fim, deve-se salientar que a definição de poupança financeira como saldo de aplicações financeiras distingue-se do conceito econômico convencional de poupança.

O total de saldos financeiros não corresponde àquele conceito econômico convencional de poupança, referente ao resíduo entre o fluxo total da renda gerada (valor adicionado) e o fluxo de consumo agregado, em dado período, visto que:

  1. os depósitos à vista, considerados “poupança financeira”, se multiplicam a partir do finance concedido para o capital de giro inicial do investimento, além de que renda recebida (faturamento), em contas correntes, não significa renda não consumida (“poupança”);
  2. parte do excedente em circulação pelo setor financeiro financia consumo e especulação (e não só investimento), descaracterizando-o como “poupança enquanto parcimônia”;
  3. dupla contagem, na emissão total de ativos financeiros, pois sobre a dívida primária criam-se várias “camadas” de ativos securitizados (dívida secundária), que decorrem de (ou são lastreados por) os ativos de lançamento primário.
  4. ilusão monetária, no crescimento do total de haveres financeiros, pois este inclui também ativos indexados, que se elevam através da correção monetária por índice de inflação, e não devido ao aumento da “poupança”;
  5. saldo de ativos financeiros de cada família corresponde a sua aplicação bruta (e não líquida), ou seja, não revela se ela é predominante credora (“poupadora”) ou devedora.

No debate sobre a pretensa “escassez da poupança interna”, para ele ser produtivo, tem de se definir com precisão sobre o que se está falando. O conceito de poupança é objeto de controvérsia entre os economistas. Há aqueles se guiam pela Teoria dos Fundos de Empréstimos, em que “certa taxa de juros equilibra investimento e poupança”, e outros de opinião que, na Macroeconomia Dinâmica, é dispensável tal conceito de “poupança”, pois só gera confusão e pode ser substituído pela visão do circuito finance-investimento-renda-aplicações-funding.

Os conceitos de “poupança”, registrados em Finanças Pessoais e Contabilidade Social, sob os respectivos pontos-de-vista microeconômico e macroeconômico, obviamente se diferenciam. O Paradoxo da Parcimônia – “quando todos os indivíduos poupam mais a sociedade poupará menos” – mostra bem que a interação entre os agentes econômicos resulta em propriedade (classe de comportamentos) distinta, ou seja, a dinâmica do todo não se pode reduzir aos comportamentos das partes:

  • poupança individual: saldo com a parcela não gasta da renda recebida.
  • poupança macroeconômica: diferença ex-post entre fluxo de renda e fluxo de gastos agregados em bens de consumo, ou seja, corresponde ao fluxo de gastos agregados em bens de investimento.

A poupança real agregada não é nem a simples soma de poupanças individuais, nem corresponde ao saldo líquido das aplicações financeiras. Em termos dos agregados macroeconômicos, o gasto em investimento resulta ex-post (a posteriori) em poupança equivalente por definição. É, portanto, resíduo contábil não objeto de decisões, ou seja, variável-resultado.

Não se decide a “não gastar” mas sim a aplicar. O poder de compra não destinado ao gasto é aplicado, automaticamente, inclusive em estoque de ativos monetários. Se não se decide a gastar a partir do fluxo da renda gerada ex-post, tampouco se decide “não gastar” a partir desse fluxo de renda não recebida, mas sim a partir do próprio estoque líquido de riqueza e/ou do crédito compromissado. Logo, sendo a lógica da escolha individual diferente da lógica do comportamento agregado resultante, também o conceito de poupança microeconômica é dispensável.

Se os capitalistas não podem decidir o que lucram, também não podem decidir ex-ante, antes do valor adicionado, o que podem “poupar”, ou seja, reter dos lucros. Só podem decidir ex-ante o que investem com capital próprio, isto é, lucros retidos aplicados em portfólio, e/ou com empréstimos de capital de terceiros.

Em Macroeconomia Dinâmica, adota-se os conceitos de finance, finanças disponíveis aos gastos de investimento iniciais, e funding, consolidação financeira das dívidas de curto prazo no tempo adequado à maturação do investimento e sua amortização. Com eles chega-se à noção simples de que os investimentos ex-post proveem de financiamento (finance) para efetivação das decisões ex-ante de gastos em investimentos – e não de “poupança prévia”.

Veja ilustraçãoDívida Pública

Estoque e Fluxo 

Clique na imagem para ver uma animação na qual você poderá ver como o estoque e o fluxo da dívida interna de um país são parecidos com o fluxo de água para dentro e para fora de uma banheira.

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