Debate sobre Poupança: Visão Ortodoxa

Poupança nas Contas Nacionais 2000-2013

Há uma série de conceitos de poupança que misturam variáveis de fluxo e dados de estoque. Estoques e fluxos desempenham um papel fundamental na geração de dinâmicas. Os estoques acumulam eventos passados; são somas de registros.

Em depósitos a prazo, a quantidade de dinheiro nela vai aumentando, gradativamente, à medida que se faz entrada de novos depósitos e rende juros. O saldo nessa conta bancária é um estoque: ele se acumula com o passar do tempo. Os saques são como um vazamento. Se os saques – ou fluxo de saída da conta bancária – forem maiores que os fluxos de entrada através de depósitos e juros, o seu “estoque” de dinheiro diminui.

Usa-se o mesmo raciocínio de estoque e fluxo para considerar também a dívida interna de um país, que é a quantidade de dinheiro que um governo deve a emprestadores. Logo, é um saldo devedor.

Os economistas ortodoxos pensam que um país irá reduzir sua dívida interna se reduzir seu déficit orçamentário. Este é a diferença entre a receita do governo, proveniente principalmente da arrecadação de impostos, e seus gastos. Se os gastos forem maiores que a receita, há um déficit fiscal. O governo precisa tomar emprestado dinheiro para compensar a diferença. Isso aumenta a dívida interna.

O déficit nacional de um país exige, então, um fluxo de dinheiro para cobri-lo. A dívida interna de um país é um estoque acumulado. Ao reduzir o déficit, a taxa na qual a dívida se acumula irá desacelerar, mas a dívida em si ainda continuará acumulando. Para reduzir o estoque da dívida, seria necessário que os fluxos de saída do estoque fossem maiores que os fluxos de entrada. Isso exigiria pagar a dívida a uma taxa maior que o empréstimo de dinheiro.

Se pensarmos em um estoque como a “riqueza de uma nação”, o foco pode estar em estimular o crescimento do fluxo de renda para aumentar o fluxo de entrada no estoque. Outra forma de acumular um estoque é reduzir o fluxo de saída para efetivar gastos públicos. Os desenvolvimentistas-keynesianos optam por aquela; os liberais-neoclássicos optam pela última forma.

Os economistas que usam o conceito de “poupança”, muitas vezes, confundem-no, seja considerando-o um fluxo, seja como um saldo. Compare:

  • poupança externa = saldo deficitário do balanço de pagamentos em transações correntes;
  • poupança interna real = fluxo de renda utilizado no gasto em bens e serviços associado ao investimento;
  • poupança interna financeira = saldo de aplicações das sobras líquidas de recursos em ativos financeiros.

Intuitivamente, alguém poderia pensar, de maneira equivocada, que esses conceitos, em que se mistura fluxos e estoques, são complementares e/ou “compensatórios”: quando cai a poupança externa, sobe a poupança interna (e vice-versa). Ou, então, que a poupança financeira e a poupança real são interdependentes. Isso está longe da realidade, mas até economista consagrado pela mídia pensa também dessa forma.

A dedução da sabedoria convencional dessa confusão entre conceitos de fluxos e estoques é que “há necessidade de captar poupança externa, via déficit na conta corrente, se nação está desacumulando ativos líquidos internacionais, ou seja, está devedora líquida do resto do mundo”. Em outros termos, “se a nação gasta (absorve) mais do que ganha”.

A formulação dessa Abordagem por Absorção do Balanço de Pagamentos é a seguinte:

  • RN = C + I + G + X – M + RLrm, onde RN é a renda nacional e RLrm a renda líquida do resto do mundo.
  • A = C + I + G => a absorção (A) é a parte da renda nacional (RN) que é absorvida pelos gastos internos (C + I + G).
  • RN = A + BTC, onde BTC é o saldo do balanço das transações correntes.
  • BTC = RN – A
  • BTC > 0 => A < RN => poupança nacional positiva = capacidade de financiamento
  • BTC < 0 => A > RN => necessidade de financiamento => o país usa poupança externa para gastar mais do que sua renda.

Vale a pena lembrar as hipóteses sobre os fatores determinantes de cada um dos componentes do BTC = X – M + RLrm

  • Exportações X = f( taxa de câmbio real [ er ]; renda real no exterior [Y*])
  • Importações M = f( 1 / taxa de câmbio real [ er ]; renda real interna [Y])

Dependem da elasticidade-preço e da elasticidade-renda.

O aspecto financeiro do saldo do balanço de transações correntes BTC tem sua origem na diferença entre a renda nacional (RN) e os gastos internos (A):

  • RN = C + S + Tl (impostos líquidos de subvenção)
  • BTC = RN – A = C + S + Tl – C – I – G
  • BTC = (S – I) + (Tl – G)

Portanto, déficit do balanço de transações correntes (BTC < 0) significa que há excedente do investimento privado sobre a poupança privada ( [S – I] < 0 ) e/ou déficit fiscal ( [Tl – G] < 0 ).

O “excesso de gastos”, ou a “insuficiência de poupança”, correspondente ao déficit externo, seria devido, de acordo com a sabedoria convencional:

  • às escolhas privadas;
  • à política fiscal adotada.

A dedução desse modelo da Abordagem pela Absorção do Balanço de Pagamentos, para a política econômica, é que, ceteris paribus, isto é, com a renda nacional RN dada pelo pleno emprego (ou em determinado corte temporal), política fiscal expansionista, resultando em déficit fiscal, provoca déficit do balanço de transações correntes BTC, e política fiscal restritiva, obtendo superávit fiscal, provoca superávit desse balanço BTC.

A visão do mainstream é que, em economia fechada, o efeito deslocamento (crowding-out), provocado pela expansão dos gastos governamentais, reduz a poupança privada e leva ao declínio do investimento privado. Em economia aberta, o aumento de gastos públicos provoca a redução de outras formas de gastos, inclusive a redução das exportações líquidas, e, consequentemente, do saldo do balanço de transações correntes BTC, ou seja, eleva a necessidade de financiamento externo.

De acordo com o cálculo das Contas Nacionais através de agregados macroeconômicos keynesianos, a poupança interna não se contrapõe à poupança externa. Porém, no raciocínio convencional, a poupança total da economia resulta da soma da poupança externa, contabilmente igual ao déficit em conta corrente, e da poupança doméstica. Esta última, por sua vez, é composta, pela poupança pública, calculada pela diferença entre o investimento do governo e o déficit público, e pela poupança privada.

Na realidade, os economistas ortodoxos manipulam as estatísticas de maneira tal que a poupança privada é obtida residualmente (veja quadro acima). Partem da Formação Bruta de Capital Fixo, obtida por proxies como evolução da indústria de construção e máquinas e equipamentos, além de sua importação. Descontando os estoques, encontram a “poupança total”. Daí subtraem a “poupança externa”, ou seja, o déficit do balanço de transações correntes, para obter a “poupança doméstica” e desta subtraem a “poupança (ou ‘despoupança’, sic) governamental”, para alcançar como resíduo contábil o que, conceitualmente, deveria ser o ponto de partida de acordo com o modelo teórico ortodoxo: a “poupança privada”.

Essa evidência empírica, apresentada aparentemente em defesa da “tese da escassez da poupança”, pode ser vista como demonstração de posição contrária, ou seja, que o que, de fato, ocorre é “escassez de gastos”. Em outros termos, a série temporal com a composição da poupança em percentual do PIB pode sugerir leitura equivocada. Por exemplo, economista pode afirmar que “a existência de déficit em conta corrente (poupança externa) é a expressão da poupança interna do Brasil ser insuficiente para financiar o investimento agregado”.

Se a esse argumento junta-se a opinião de que “a piora do déficit na conta corrente dos últimos anos espelha, em parte, a deterioração da questão fiscal”, chega-se à proposição de “reduzir o déficit público para abrir espaços maiores de investimento junto com esforço de redução do consumo. Com isso, haverá aumento maior de poupança pública e privada disponível no setor interno para investimento e o Brasil depender menos de recursos externos”. Com essa ideia tornando-se oficial e sendo levada à prática, muitos cidadãos deste país pagarão a conta, com mais ônus social devido a equívocos de alguns economistas.

2 thoughts on “Debate sobre Poupança: Visão Ortodoxa

  1. Entre economias utilizando uma moeda comum, não havendo controlo aduaneiro de entrada e saída de mercadorias e serviços e respectivos fluxos financeiros, fará sentido pensar em conceitos como exportação ou importação? ( “exportações/importações intracomunitárias”) Determinados desequilíbrios macroeconómicos poderão não estar reflectidos nas contas nacionais, contando também que a economia paralela por vezes assume valores >25% e que muitas empresas não reportam os stocks reais às autoridades tributárias.

    • Prezado Bruno,
      os monopólios da emissão da moeda oficial e da violência militar são símbolos da soberania sobre o território nacional.

      A autoridade monetária tem o dever legal de impedir o uso de moedas paralelas. Todo “dinheiro frio/sujo” é ilegal e sujeito a punições.

      Vigiar e punir são os requesitos para estancar a “economia paralela”, para sonegação fiscal, cuja dimensão exata por definição é impossível de avaliar.

      Exigem lutas contínuas para civilizar o mundo empresarial com o dever básico da cidadania: idoneidade moral.
      att.

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