Dependência Trajetória em Ciências Sociais Afins: Ciência Econômica e Ciência Política

Maravilhas-da-Natureza

Prosseguindo com o estudo-resumo do artigo de Bruno Boti Bernardi, O Conceito de Dependência da Trajetória (Path Dependence): Definições e Controvérsias Teóricas –, é importante destacar sua interdisciplinaridade. A Ciência Política valeu-se de obras seminais de economistas para identificar o conceito de path dependence com o mecanismo de retornos crescentes e com os processos de autorreforço ou feedback positivo associados à lógica de funcionamento desse mecanismo, ao qual não só as tecnologias, mas também o desenvolvimento das instituições e políticas estaria sujeito.

A Ciência Política salienta ainda dois fatores importantes nesses processos sociopolíticos:

  1. a sensibilidade dos processos de desenvolvimento institucional aos momentos iniciais e primeiros eventos das sequências temporais: a importância explicativa dos eventos iniciais (early events) é maior do que a de eventos posteriores na sequência de eventos, pois eles moldam decisivamente as trajetórias subsequentes;
  2. a tendência inercial de reprodução dos arranjos institucionais, uma vez que eles tenham sido selecionados até uma situação de lock-in.

Nesta concepção política, o conceito de dependência da trajetória se refere, assim, a “processos dinâmicos envolvendo feedback positivo, que geram múltiplos resultados possíveis, dependendo da sequência particular em que os eventos se desenrolam”.

A análise se foca, portanto, em processos nos quais, depois de momentos formativos iniciais, uma opção de instituição ou política é escolhida – critical junctures: períodos em que uma determinada opção é selecionada a partir de uma gama de alternativas, canalizando assim o movimento futuro em uma direção específica. Cada passo nessa mesma trajetória produz consequências que aumentam a atratividade relativa desse path na próxima rodada, gerando um poderoso ciclo de autorreforço.

Os custos de transição para outras alternativas aumentam consideravelmente com o tempo e tornam uma mudança radical ou reversão de curso cada vez menos provável. Desse modo, os resultados institucionais ou de políticas obtidos nos estágios iniciais de uma sequência se retroalimentam e reforçam. Ocorre de forma tal que resultados antes plausíveis deixam de sê-lo, prevalecendo, antes, um padrão de mudanças que se restringem a ramificações (branches) dentro da mesma trajetória.

Processos de feedback positivo teriam quatro características:

  1. imprevisibilidade: dado que os eventos iniciais produzem grandes efeitos e são aleatórios, muitos resultados são possíveis e não se pode predizer a priori qual deles será selecionado;
  2. inflexibilidade: quanto mais o processo avança, mais difícil é transitar da trajetória selecionada para outras alternativas;
  3. não-ergodicidade: o efeito de eventos contingentes no início da sequência não é anulado, mas sim amplificado, com o passar do tempo; e
  4. ineficiência potencial da trajetória: no longo prazo, o resultado final pode gerar menos benefícios do que uma das alternativas antes plausíveis no início da sequência.

Na arena política, segundo o artigo-resenha de Bernardi, quatro aspectos específicos aos processos políticosausentes no âmbito econômico – contribuiriam para a existência e prevalência de processos de feedback positivo:

  1. o papel central da ação coletiva;
  2. a alta densidade das instituições;
  3. as possibilidades de usar a autoridade política para aumentar as assimetrias de poder; e
  4. a complexidade e a opacidade intrínsecas à política.

Sem os mecanismos de correção dos mercados – argumento apelativo da ideologia liberal – que podem levar a mudanças e ao abandono de escolhas que se provem ineficientes, o ambiente político estaria ainda mais sujeito do que a Economia ao fenômeno da dependência da trajetória.

Na Política, as consequências das ações dos atores são altamente dependentes das decisões e ações de outros atores, o que gera uma necessidade de ação coletiva para:

  1. obter bens públicos,
  2. exercer influência política sobre o Estado na produção de leis, ou
  3. obter um resultado do tipo winner-take-all, como uma vitória eleitoral.

A ação coletiva, por sua vez, envolve muitas das qualidades conducentes a processos de feedback positivo. Uma razão central é a prevalência do mecanismo de expectativas adaptativas que implica retornos crescentes. Além disso, muitos tipos de ação coletiva e formas de mobilização envolvem altos custos de investimento que também geram incentivos para que os atores permaneçam na mesma trajetória, dados os custos irrecuperáveis em que incorreram (sunk costs), aos quais se somam ainda efeitos de coordenação entre os atores que tendem a se cristalizar e reproduzir.

A densidade institucional da Política, isto é, a existência de instituições e políticas formais sustentadas, em última instância, na possibilidade de uso da força pelo Estado, impõe constrangimentos de natureza compulsória sobre os atores que não encontram paralelos na Economia. Ademais, explicam também a maior presença de dependência da trajetória na Política, para além das questões citadas antes referentes à lógica da ação coletiva.

Nos densos ambientes institucionais políticos, as instituições e as políticas forçam os indivíduos e organizações a:

  1. investir em habilidades particulares,
  2. desenvolver e aprofundar relações com outros atores específicos e
  3. criar identidades políticas e sociais características.

Ao fazerem isso, os atores incorrem em altos custos fixos e ficam sujeitos também a efeitos de aprendizagem, de coordenação e ao mecanismo de expectativas adaptativas. Isso gera incentivos crescentes de permanência nos arranjos institucionais existentes aos quais se adaptaram e nos quais estão estruturadas as suas preferências e estratégias.

Um terceiro aspecto do ambiente político levantado como uma fonte de dependência da trajetória é a possibilidade de que a autoridade política seja utilizada para ampliar e reforçar assimetrias de poder. Atores que detenham o poder podem utilizá-lo não só para:

  1. alterar, em seu favor, as regras do jogo, isto é, instituições e políticas públicas,
  2. mudar os arranjos institucionais para enfraquecer seus adversários.

Essas mudanças podem resultar em adaptações que reforçam essas tendências, na medida em que atores indecisos, fracamente comprometidos ou vulneráveis se juntam aos vencedores ou abandonam os perdedores! Oportunismo político

Uma última fonte de dependência da trajetória específica à Política diz respeito à complexidade e opacidade intrínsecas ao funcionamento do universo político. Atores que operam em contextos sociais de alta complexidade e opacidade, como o ambiente político, filtram e agregam novas informações de uma maneira enviesada, em favor de mapas mentais prévios de que já disponham. Em outras palavras, eles incorporariam apenas as informações que confirmassem e reforçassem seus mapas mentais e visões de mundo já estabelecidos, descartando as informações dissonantes. Em Economia Comportamental, esse viés heurístico é conhecido como Viés da Autovalidação ou Validação Ilusória. É fonte de erros recorrentes em tomadas de decisões empresariais e/ou financeiras.

O desenvolvimento de uma compreensão social básica pelos indivíduos envolve altos custos fixos e efeitos de aprendizagem, o que gera um processo de feedback positivo em que a tendência é a de reproduzir mapas mentais previamente estabelecidos em momentos posteriores. No âmbito de atuação dos grupos ocorreria um processo similar, na medida em que as ideias seriam compartilhadas entre seus membros de modo a criar externalidades de rede (efeitos de coordenação) e expectativas adaptativas.

Em Economia, comenta-se: os economistas, de maneira geral, são extremamente apegados às ideias que conseguiram aprender na juventude e jamais delas se desvencilharam, devido à incapacidade de questioná-las com novos estudos

4 thoughts on “Dependência Trajetória em Ciências Sociais Afins: Ciência Econômica e Ciência Política

  1. Prezado Fernando,

    esse assunto me fez pensar em alguns tópicos como as leis dos retornos acelerados – é equivalente aos retornos crescentes –, cujos atores no uso pleno de alternativas disponíveis conseguem obter resultados auto alimentados pelo feedback positivo da aplicabilidade de técnicas ou ações concretas, podendo incorrer numa ruptura com os padrões vigentes.

    Estamos em plena era dos Break points – pontos de ruptura –, seja em: cultura, políticas, ciências econômicas, adequações ambientais, pensamento humano, visão de mundo e principalmente a hiperaceleração tecnológica.

    Esse cenário é tão complexo que para compreendê-lo nos pormenores é necessário emprestar algumas técnicas interdisciplinares encontradas na teoria do caos – como em seus posts anteriores –, no estudo dos genes: precisamente a epigenética; e, nas abordagens nada fáceis da Mecânica Quântica.

    Para uma melhor compreensão da Mecânica Quântica é importante começar pelos cinco pilares de sua construção:

    1 – Grau de liberdade do espaço integral F
    2 – Vetor do estado quântico ψ(F)
    3 – Tempo do estado quântico dado pela equação de Schrödinger ψ(F)
    4 – Operadores O(F)
    5 – O processo de medição, com observações repetidas originando a expectativa
    de obter o valor dos operadores, ou seja EV [O(F)]

    Na superestrutura teórica da Mecânica Quântica; a entidade quântica é constituída pelo grau de liberdade do espaço integral F e o seu vetor de estado quântico é um elemento espacial do estado V(F); onde atua O(F) sobre o vetor de estado quântico para extrair informações do grau de liberdade e levar o EV ao resultado final EV [O(F)]; apenas o resultado final, que está mais afastado da entidade quântica, é observado empiricamente.

    Segue o melhor livro sobre Mecânica qQuântica que estou lendo no momento: The Theoretical Foundations of Quantum Mechanics (Os fundamentos teóricos da Mecânica Quântica) – Belal E. Baaquie PDF: https://drive.google.com/open?id=0B-IzSwsM47nebHlXTXBtOXJjUGc&authuser=0

    Nerds iguais a nós irão vislumbrar esse estudo… 🙂

    Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      grato por seus didáticos comentários.

      Entretanto, deparo-me com os limites de minha ignorância ou “desconhecimento do mundo”, que só aumenta quanto mais estudo!

      No caso, dou dois exemplos do problema para conhecer outras disciplinas além da que cada qual é especializado:
      1. a linguagem técnica impenetrável;
      2. o desconhecimento de técnica elementares para os especialistas em cada ramo, o que dá tremenda insegurança.

      Por exemplo, meu iMac, de repente, parou de funcionar! Hibernei-o como faço há 5 anos e, quando volto a clicar, nada!

      Oscilação de corrente, embora eu o ligue com um nobreak estabilizador de voltagem? Sei lá…

      O fato é que a suspeição que a fonte queimou. Resultado: 15 dias em uma autorizada da Apple em Campinas!

      Superdependente da inteligência artificial, ou melhor, da memória virtual, de repente, emburreci!
      🙂
      abs.

      • Prezado Fernando,

        sobre o Mac, isso pode acontecer a qualquer momento, até mesmo o melhor hardware pode falhar, recomendo programar backup diário naquelas unidades automatizadas da Apple, as timemachines, que mantêm um clone do mac atualizado para eventuais paradas críticas.

        Os iPas e iPhones possuem a iCloud, é bom ter um espaço extra para manter um sincronismo de todos os dados.

        Uso uma nuvem ilimitada do google para guardar meus dados, contratei espaço ilimitado para a massa de dados que não para de crescer, até o momento meus dados estão na casa dos 10 Tera Bytes.

        Cada viagem que faço, registro uma media de 5000 fotos que vão pra essa nuvem sempre que retornamos aos hotéis, minhas câmeras têm WiFi e NFC, recursos se sincronismo instantâneo para fazer um backup dos cartões que enchem rapidamente em razão de cada foto ter entre 5 e 40 megas, se uso o formato Raw (sem compressão), aí o cartão acaba rápido.

        Aos poucos estaremos nos integrando com a IA (inteligência artificial), ela nos auxiliará permanentemente, aguçando cada um de nossos sentidos.

        Provavelmente após 2020, poderemos fazer um backup de nossas memórias, ficaremos tranquilos e não esqueceremos mais nada, o processo inverso também será possível. Com essas técnicas poderemos por exemplo: usar memórias de um matemático para polarizar nosso cérebro e adquirir uma especialização instantânea em matemática.

        Imagine que você poderá gravar suas memórias de aconomia e seus alunos poderão baixar para eles um conhecimento bate pronto nessa área. O que acha dessas facilidades?

        Este ano entrará em massa no mercado as tecnologias de imersão digital via realidade virtual com o uso dos óculos VR, leia esta matéria: http://m.tecmundo.com.br/realidade-virtual/77341-12-produtos-confirmam-que-oculos-vr-nao-tendencia-sao-realidade.htm

        Quanto mais neurônios forem requisitados a trabalhar mais capacidade de aprendizagem teremos. Essas tecnologias causarão uma mudança radical nas pessoas tornando-as mais inteligentes e com uma incrível plasticidade cerebral.

        Mundo analógico versus digital

        Somos remanescentes de um mundo que está deixando de ser analógico sendo rapidamente digitalizado.

        Fernando, nascemos no mundo analógico, ainda gostamos de vinil – lembro-me das minhas coletâneas musicais em fitas K7, gravadas do vinil e rádios FM com alguns chiados… rsrsr – era mais fácil tirar da bobina, cortar música por música, pendurar em um varal, depois emendar uma por uma com fita scotch transparente (durex para os leigos), depois rebobinar tudo e torcer para as emendas não quebrarem. Eu fazia isso nos meus 16 anos quando morava no interior em 1985. Não largava meu Sony Walkman, era o iPod da época.

        E 30 anos após os Walkman, estamos no mundo quase que totalmente digital, com músicas ilimitadas no Spotify e filmes no Netflix.

        Vivemos em um período comparado à explosão do cambriano da era digital. Cada ano vivido hoje representa 100 anos dos períodos da era analógica. Algo surpreendente. 🙂

        Abs.

      • Prezado Reinaldo,
        felizmente, uso o TimeMachine para backup automático, o DropBox para todos os arquivos importantes, HD externo para filmes e músicas (além de um outro backup de todo o HD) e vários pendrives para meus cursos com todas as aulas em PowerPoint. E ainda tenho os posts com arquivos pdf no meu blog, é claro!

        Então, acho que não perderei nada. Talvez até ganhe “fazendo do limão uma limonada”: um upgrade na memória do meu iMac (27 polegadas), que comprei em 2011. Vale aumentar a memória RAM e o HD de 1 Tera? Usei 740 GB, mas posso esvaziá-lo bastante, transferindo todos os filmes para o HD externo.

        Grato pelas informações.
        abs

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