Super-Executivos no Brasil: Concentração de Renda

Dança no Moulin Rouge - 1890 - Henri de Toulouse-Lautrec

Notícia não destacada pela “grande” imprensa brasileira: a União (Governo Federal) apresentou na AGE da Petrobras do dia 29/04/2015 a ordem para reduzir a proposta de aumento do teto da remuneração global (salários fixos, bônus, benefícios e previdência complementar) da diretoria da estatal em 9,6%.

Ficou determinada a redução de R$ 19,9 milhões para R$ 17,9 milhões do teto da remuneração global dos oito membros na diretoria, considerando o presidente. Em média, a remuneração anual seria de R$ 2,490 milhões por diretor, caiu para R$ 2,230 milhões.

Considerando os 13 pagamentos mensais por ano, a proposta inicial representava um limite máximo, na média por diretor, de R$ 123 mil mensais. A nova é de R$ 94,4 mil mensais. Em 2014, em média, cada um dos sete diretores recebeu R$ 100,5 mil.

No fim de março de 2015, a Petrobras havia justificado que a proposta de aumento nos tetos, em relação à remuneração paga em 2014, contemplava inflação de um ano até março de 8,09%, mais incorporação de verbas como auxílio moradia e passagem aérea, não previstas antes.

Dois comentários quase redundantes:

1. ainda assim, houve diretores que se corromperam, o que implica que super-remuneração a executivos não evita corrupção, necessitando de permanente vigilância e punição em cada caso para inibi-la;

2. o “mundinho dos super-executivos”, remunerados extraordinariamente em relação à massa dos trabalhadores assalariados, talvez seja a maior causa contemporânea da concentração da riqueza — a sobra dessa renda é capitalizada com juros compostos em ritmo real muito superior ao reajuste nominal dos salários –, aumentando a desigualdade social em direção a retomar o maior nível já alcançado na história do capitalismo: na Belle Époque, antes da Primeira Guerra Mundial.

Leia maishttps://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2015/01/21/sociedade-dos-yuppies-renda-e-patrimonio/#more-36854

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V. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?

Metas de Inflação 1999-2013

Prosseguindo na busca de respostas a duas perguntas aparentemente simples –
Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada? Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada? – vamos, neste artigo final da série, concluir o exame desta última questão.

A experiência de combate ao regime de alta inflação colocou menos ênfase nas causas primárias e mais na inércia inflacionária, provocada por comportamento racional defensivo, pelas demandas salariais se transformarem de questões econômicas em questões políticas e sociais e pelo poder de fixação de preços.

Desde então, a terapêutica antiinflacionária, qualquer que seja a causa primária, tem consistido então em tentar neutralizar, via controle da demanda agregada, a ação dos mecanismos de reajustes, espontâneos ou não, de preços, salários, câmbio, taxas de empréstimos, etc. Porém, nesse ajuste recessivo, tipo stop-and-go, ocorrendo quedas das margens de lucro, também cai a taxa de investimento e aumenta o desemprego. Continue reading “V. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?”

IV. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?

Decompoisção da taxa de inflação de 2014Inflação de preços livres

Prosseguindo na busca de respostas a duas perguntas aparentemente simples –
Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada? Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada? – vamos agora começar a examinar esta última questão.

Poderia ser a minha resposta quase uma tautologia: “ora, a taxa de juros é tão elevada porque a taxa de inflação ainda é elevada e a diretoria do Banco Central do Brasil insiste em derrubá-la com este único (e equivocado) instrumento”. Em outras palavras, a questão-chave seria por que a taxa de inflação ainda é alta – e não por que a taxa de juro é alta. Esta seria consequência daquela e não causa a queda dela! Todos os diagnósticos – e as terapias decorrentes – estariam equivocados!

A experiência brasileira de estabilização inflacionária em taxa inercial mais baixa demonstra que ter Banco Central independente para praticar política de juros não é nem condição necessária nem suficiente. Para esse objetivo, há sim a necessidade de adotar política macroeconômica abrangente e coordenada, envolvendo política de controle de capital, política fiscal, política cambial, política de juros e política de rendas, em condições internacionais propícias ao acúmulo de reservas internacionais e à sobrevalorização da taxa de câmbio ou apreciação da moeda nacional. Além dessas políticas econômicas em curto prazo há que cortar o custo extra do Brasil com investimentos em infraestrutura e logística, cuja maturação ocorre em longo prazo. Continue reading “IV. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?”

III. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?

Taxa Real de Juros Ex-ante Taxa de Juro Mais Baixa Desde 1999

Prosseguindo na busca de respostas a duas perguntas aparentemente simples –
Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada? Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada? – vamos agora examinar a última hipótese para a primeira questão. É a minha, caso a enxergue como uma eterna busca de realinhamento dos preços relativos básicos TJKC (Tributo-Juro-Capital-Câmbio). É um processo contínuo, dinâmico e complexo, que nunca atinge o idealizado “equilíbrio geral (e estável)”, mas prossegue sim, eternamente, como responsabilidade dos policy-makers.

É uma Tarefa de Sísifo! Essa expressão é empregada para denotar qualquer tarefa que envolva esforços longos, repetitivos e inevitavelmente fadados ao fracasso — algo como um infinito ciclo de esforços em elevar a taxa de juros que, embora nunca cheguem a um final (a taxa de inflação rolar para um “equilíbrio estável”), também são totalmente desprovidos de quaisquer opções de desistência ou recusa em fazê-lo.

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II. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?

Taxa de Juros Média Anual FHC-Lula-Dilma Reversão da Taxa de Juros Básica

Câmbio Real 1995-2013Mercado de Trabalho 2014-15Prosseguindo na busca de respostas a duas perguntas aparentemente simples –
Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada? Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada? – vamos agora examinar o diagnóstico e a receita de doutores ortodoxos.

Eles se pautam pela Hipótese 3: a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada por causa da esterilização do impacto monetário da ampliação das reservas cambiais em situação de escassez de poupança. Se o Banco Central intervém para evitar a apreciação excessiva da moeda, a necessidade de esterilizar os recursos monetários emitidos para a compra de reservas internacionais, via troca de moeda por títulos públicos, restabelece a pressão sobre a necessidade de financiamento do setor público. A existência de financiamento externo só aliviaria a restrição de poupança interna para o financiamento público se a moeda pudesse flutuar livremente e não houvesse intervenção esterilizadora para evitar a sua apreciação.

Acúmulo de reservas cambiais por parte do Banco Central impediria, portanto, que a moeda nacional fosse ainda mais apreciada. Caso fosse, ampliaria o recurso à “poupança externa” (déficit no balanço de transações correntes) e abriria espaço para a redução da taxa de juros. Em curto prazo, haveria apenas uma alternativa ortodoxa: reduzir a despesa pública, para compatibilizá-la com a taxa de poupança privada disponível, ou seja, reduzir o déficit público. Vale relembrar o desabafo do então presidente José Sarney diante de seus assessores econômicos: “Para controlar a inflação por meio do corte dos gastos públicos, eu não preciso de economistas brilhantes…” Continue reading “II. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?”

I. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?

Taxa Real de Juros 2001-2013

Um colega de profissão dirigiu-me duas perguntas aparentemente simples: Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada? Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada? De imediato, em vez de dizer clichês a respeito, respondi-lhe que não se pode tratar com simples palavras questões complexas.

Fui buscar evidências empíricas para tentar dar uma resposta mais consistente. De fato, o Brasil aparece nos primeiros lugares dos rankings internacionais, seja em taxa de juros nominal, seja em taxa de juros real, há pelo menos vinte anos, desde o fim do regime de alta inflação. Quanto à taxa de juros nominal, a média da Selic do período 1995-2002 (26,6%) é bem superior às dos períodos 2003-2010 (14,8%) e 2011-2013 (9,4%).

Recentemente, entre meados de 2011 e 2013, houve um “laboratório” para os economistas brasileiros experimentarem um período de menor “banda de juros”. Entre 2000 e 2002, a taxa de juros real tinha estado entre 12% e 24% aa; entre 2003 e 2006, ficou entre 8% e 14% aa; em 2007 e 2008, oscilou entre 6% e 10% aa; entre 2009 e 2011, flutuou entre 4% a 8%. Finalmente, com a “Cruzada da Dilma”, a taxa de juro real anual esperada para os próximos 12 meses (swap pré-DI versus expectativa da inflação) foi de 2% a 6% aa. Mesmo com essa tendência gradual de queda dos limites de flutuação, o País não saiu dos primeiros lugares dos rankings internacionais!

No debate entre os doutores brasileiros da Ciência Econômica surgiram as seguintes hipóteses explicativas. Continue reading “I. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?”

Documentário “Um Sonho Intenso” sobre Desenvolvimentismo em Cartaz

CartazUmSonhoIntenso

Depois de bem recebido pelo publico e pela imprensa no Festival É Tudo Verdade de 2014, o documentário Um sonho intenso, do cineasta José Mariani foi exibido no ano passado em algumas universidades, seguido de debates com professores e alunos, em congressos acadêmicos e em encontros promovidos por centros de estudos e de cultura.

Agora, no mês de abril de 2015 chega finalmente ao circuito de cinema das principais capitais brasileiras, começando por São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói e Brasília, onde estreia no dia 23 de abril. As exibições serão no Espaço Itaú de Cinema, menos a de Niterói, que acontecerá no Centro das Artes da Universidade Federal Fluminense.

O grande trunfo de Um sonho intenso é sua forma ágil, clara e prazerosa de abordar um tema  a princípio denso e complexo: a história social e econômica do Brasil dos anos 30 aos dias de hoje. Continue reading “Documentário “Um Sonho Intenso” sobre Desenvolvimentismo em Cartaz”