Dilemas e Desafios da Produtividade no Brasil

PIB per capita e produtividade do trabalho 1992-2011Produtividade do trabalho comparada internacionalmente - 1960 e 2011Participação dos setores nas ocupações - 1995 e 2012Diferencial da produtividade do trabalho Brasil X Outros - vários anos

Fernanda De Negri é minha (excelente) ex-aluna no Mestrado do IE-UNICAMP. Não só por isso ( 🙂 ), é Diretora da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura – DISET / Ipea. Luiz Ricardo Cavalcante é Consultor Legislativo do Senado Federal. Ambos foram os organizadores do livro Produtividade no Brasil : Desempenho e Determinantes / organizadores: Fernanda De Negri, Luiz Ricardo Cavalcante. – Brasília : ABDI : IPEA, 2014. e autores do primeiro capítulo-resumo, cuja conclusão compartilho abaixo.

Download do livroProdutivivade_no_Brasil_IPEA-ABDI

Antes de apresentar o resumo das principais conclusões, eu (FNC) devo alertar que tenho algumas dúvidas a priori a respeito da medição desse indicador macroeconômico. Ele é elaborado a partir do conceito de uma função da produção e seus “fatores de produção” (trabalho, capital, recursos naturais e capacidade técnica), cuja origem está no pensamento econômico neoclássico.

Qualquer proxy desse conceito, tipo PIB / PO (população ocupada), em vez de ser causa, não será um resultado ex-post pro-ciclo da produção ou contra-ciclo do emprego, isto é, a produtividade nacional cairá quando o PIB cair, mas, devido às políticas anticíclicas, o nível de emprego se sustentar?  Nessa fase (temporária), emprega-se “demasiadamente” (segundo o ponto-de-vista dos empresários) e, então, mantem-se elevados os salários reais, dado o melhor poder-de-barganha sindical. Vice-versa, logo que o desemprego for elevado, produzir-se-á mais com menos. Então, a produtividade não se elevará?

Outra coisa que me incomoda é a medição da produtividade em setor de Serviços, por exemplo, em um multibanco cujos funcionários lidam com múltiplos produtos e cujo “faturamento” (VP) é dado pela soma de RBIF (Resultado Bruto de Intermediação Financeira que é um diferencial de juros dependente de decisões discricionárias) e RPS (Receita por Prestação de Serviços). Aumenta sua “produtividade” de acordo com a política discricionária de juros?!

Além disso, para ressalvar só em atividades que mais conheço, o caso do Serviço Educacional. Um professor é mais “eficiente” quando dá aulas para mais alunos em uma só turma?! Certamente que sim para uma IES (Instituição de Ensino Superior) privada que não se atenta para a qualidade do ensino.  Interessa-lhe, particularmente, a quantidade de alunos matriculados / professor, explorando-o mais. Porém, creio que sua produtividade em termos de qualidade de ensino cairá…

Um dos primeiros resultados evidenciados neste livro do IPEA-ABDI, organizado pela Fernanda De Negri e Luiz Ricardo Cavalcente, é que, independentemente da forma como se meça, de qual indicador ou nível de agregação se utilize ou ainda, a qual país se compare, a produtividade brasileira teve um desempenho muito fraco nas últimas décadas.

Desde o final dos anos 70, a produtividade brasileira não cresce de forma substantiva e sustentada. O sinal geral de todos os indicadores – PTF (Produtividade Total dos Fatores) ou produtividade do trabalho – aponta nessa mesma direção. Não há, portanto, como buscar nas falhas de um ou outro indicador, as causas para um diagnóstico que se sustenta de forma robusta a partir da análise do conjunto desses indicadores.

Nos anos 2000, foi possível perceber uma tendência de crescimento da produtividade até 2008, especialmente na produtividade total dos fatores (PTF). Todavia, esse crescimento foi muito tênue se observado o cenário de longo prazo, pois não foi suficiente para reverter a forte queda dos anos 1980.

Se levarmos em conta, ainda, o aumento de capital humano observado nos últimos vinte anos, percebe-se que quase todo o ganho de produtividade se deveu a esse fator. Ou seja, não houve ampliação da eficiência derivada da incorporação de tecnologia, da ampliação da escala de produção, da melhoria do ambiente de negócios ou de outros fatores que afetariam a PTF e a produtividade do trabalho.

Depois da crise de 2008, mesmo esse crescimento não se sustentou e a produtividade, assim como a economia, parou de crescer. Esse cenário tem sido ainda mais preocupante na indústria, onde alguns indicadores apontam, até mesmo, uma queda de produtividade nos últimos anos.

Do ponto de vista internacional, essas décadas de baixo crescimento da produtividade nos deixaram um legado de atraso em relação ao mundo desenvolvido e mesmo em relação a outros países em desenvolvimento. Nas últimas décadas, ficamos mais distantes dos países da fronteira e mais próximos dos países menos produtivos.

A persistência desse fraco desempenho da produtividade, mesmo em conjunturas de maior crescimento do produto, como foi o período 2003-2008, remete a causas estruturais, mais profundas e complexas do que problemas conjunturais ou crises transitórias. A busca pelas razões que mantêm o baixo crescimento da produtividade, mesmo em um contexto de crescimento econômico, constitui uma das principais questões da economia brasileira atualmente.

Ao que tudo indica, embora a estrutura produtiva possa ser, em alguma medida, um fator limitador, não serão mudanças estruturais que possibilitarão à economia brasileira novos saltos de produtividade. Até porque, embora existam diferencias substantivos no nível de produtividade – especialmente na do trabalho – entre os setores econômicos, não existem diferenças tão grandes entre a participação da indústria ou dos serviços no PIB, no caso brasileiro em relação aos países desenvolvidos.

O fato de que a maior parte dos diferenciais de produtividade entre o Brasil e o resto do mundo é explicado pelos diferenciais intrassetoriais sugere que é necessário buscar outros fatores, sistêmicos, para explicar a nossa defasagem nessa variável. Para que tenham capacidade de explicar a persistência da baixa produtividade brasileira ao longo das décadas é preciso que esses fatores sejam estruturais, e não meramente conjunturais. Assim, e sem a pretensão de exaurir todos os possíveis fatores que afetam a produtividade no Brasil, vale levantar algumas hipóteses mais prováveis.

No longo prazo, a tecnologia talvez seja o fator mais relevante para os ganhos de produtividade, tanto as tecnologias de processo, que possibilitam uma maior produção física a partir de uma mesma utilização de fatores, quanto as tecnologias/ inovações de produto, que possibilitam preços maiores por uma mesma quantidade física de produtos.

Nessa área, a estrutura produtiva possivelmente importa mais, dado que a maior parte do investimento mundial em P&D é realizado em apenas dois setores, o setor farmacêutico e o setor de TICs. O setor de TICs, por exemplo, responde por cerca de 35% dos investimentos empresariais em P&D realizados nos EUA (Lindmark et al., 2008).

Outro fator que, no longo prazo, é crucial para a ampliação da produtividade é a educação e a qualificação da mão de obra. É certo que, nos últimos vinte anos, o Brasil tem ampliado de forma significativa a escolaridade média de sua população e de sua força de trabalho. De fato, boa parte do modesto aumento na PTF do país nos últimos anos parece ser explicada pelo aumento do estoque de capital humano.

Entretanto, ainda existem questões relevantes a serem equacionadas, associadas tanto à qualidade da educação quanto às áreas de formação em nível superior e nível médio. O recente debate sobre escassez de engenheiros na economia brasileira evidencia que, em algumas especialidades, a escassez de profissionais é mais preocupante do que em outras. Não por acaso, esse é o principal fator a impactar negativamente a produtividade, segundo enquete realizada com empresas brasileiras e cujos resultados foram relatados por Oliveira e De Negri (capítulo 10 do livro).

As deficiências de infraestrutura são outro fator relevante. Décadas de baixo investimento deixaram patente a insuficiência crônica de infraestrutura para sustentar o processo de crescimento econômico brasileiro. Em certa medida, a baixa relação capital/trabalho da economia brasileira – apontada por alguns autores como uma das causas para a baixa produtividade do trabalho – está associada a um baixo estoque de capital em infraestrutura.

Por fim, e não menos importante, está o que se poderia chamar de ambiente de negócios ou de qualidade das instituições. A excessiva burocracia – não apenas pública – se manifesta desde a chegada ou a saída de mercadorias nos portos, até o registro de um novo medicamento ou patente, passando pela lentidão da justiça ou pela complexidade da estrutura tributária brasileira. Este último elemento é, na visão das empresas, uma das causas fundamentais da baixa competitividade da economia.

Independentemente de qual o tamanho que se considere ideal para o Estado, não parece haver mais dúvidas entre economistas de diversas correntes de que é crucial que ele seja mais eficiente. Esse é um gargalo que, além de afetar diretamente a produtividade da economia, também tem impactos negativos indiretos, ao afetar outros fatores como a infraestrutura e a inovação.

A investigação de como essas e outras questões – tais como a concorrência e a inserção internacional – afetam a produtividade da economia brasileira é um desafio fundamental nesse momento. A análise agregada tem sido crucial para compreender algumas características e gargalos para a produtividade brasileira.

Entretanto, dado que a estrutura produtiva e as características macroeconômicas explicam apenas uma parcela do baixo crescimento da produtividade, a fronteira desse tipo de investigação está na análise de como os determinantes microeconômicos e a dinâmica das firmas afetam a eficiência do país. Jogar mais luz no debate sobre produtividade, a partir de uma perspectiva micro, pode contribuir para a formulação de políticas que garantam a continuidade do processo de crescimento econômico e inclusão social que marcou o país no período recente.

1 thought on “Dilemas e Desafios da Produtividade no Brasil

  1. Bom dia – muito obrigada pelo artigo, muito bem escrito! Conheco que situação do Brasil,e muito dificil, mas acredito, que empresas tem soluções. Por exemplo, nossa empresa. Utilizamos kanbantool.com. Sempre ajuda nos arranjar e organizar tudo – cada tarefinha. Recomendo Kanban para cada empresa e para cada equipa!

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