Estado de Bem-Estar Social: Acordo entre Castas

Mistura de castas

No pós-guerra, enquanto todo o mundo desenvolvido ia passando para os valores do sábio e do trabalhador, de planejamento estatal e bem-estar social, o equilíbrio das forças sociais entre as diversas castas diferia, dependendo das condições nacionais, segundo David Priestland, em seu ensaio Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014).

O comerciante era mais fraco e o trabalhador, mais forte nos países escandinavos, onde os socialdemocratas estavam no poder. Nessas sociedades, os operários desfrutavam da generosidade dos Estados de bem-estar social: os benefícios eram altos e concedidos a todos, fosse qual fosse a contribuição de cada um havia dado em trabalho.

Mais comum no continente europeu foi o tipo de capitalismo favorecido pelos partidos democráticos-cristãos de centro-direita que dominaram a política europeia a partir de 1945. Nesse caso, o operário e o sábio eram mais fracos que nos países nórdicos. Prevaleciam as velhas ideias paternalistas enraizadas no seguro social de Bismarck ou na visão católica de sociedade solidária ou, mais precisamente, caritativa.

Será que, no caso brasileiro, a socialdemocracia implementada pelos social-desenvolvimentistas não resultará em um Estado de bem-estar social menos igualitário que o europeu e fundado em esquemas de segurança social “caritativos” que mantém as distinções entre as classes econômicas? Pela força da pressão social-midiática (e da lógica religiosa conservadora) — a centro-direita hegemônica atualmente –, não será ele muito mais generoso para a classe média do que para as classes trabalhadoras e os pobres?

A esquerda marxista, tradicionalmente, é muito crítica em relação à ordem econômica europeia, considerada demasiadamente orientada para o mercado. Mas não há como negar que tanto o sistema socialdemocrata como o democrata-cristão, entre 1945 e 1973, durante a vigência do Acordo de Bretton-Woods, conseguiram restringir seriamente o comerciante e criar um acordo de castas bem-sucedido.

A derrota dos nazistas e a ameaça do comunismo forçaram as elites europeias a incorporar as classes trabalhadoras em uma nova ordem de castas. Conseguiram a paz social com a ajuda de instituições democráticas liberais.

Esse novo acordo entre castas, equilibrando o operário, o comerciante brando e (no caso da democracia cristã) o aristocrata paternalista, todos eles organizados pelo sábio-tecnocrata racional, também trouxe crescimento econômico. Negociações salariais centralizadas, intermediadas por governos, patrões e sindicatos, conseguiram aumentos na taxa de emprego e na igualdade salarial, restringindo firmemente as demandas trabalhistas inflacionárias.

A tradição sábia nos negócios, combinada à velha cultura artesanal entre os trabalhadores, criou sistemas de educação e aprendizagem indispensáveis para setores com tecnologia sofisticada. Em paralelo, as empresas se sentiam confiantes para investir em inovações caras, em longo prazo, contando com as relações estáveis com bancos – e protegidas da instabilidade do mercado financeiro internacional.

O sistema fordista de produção e consumo em massa, finalmente, foi exportado dos Estados Unidos para a Europa, dessa feita sob o controle do sábio-tecnocrata. Foi esse sistema de capitalismo coordenado – uma forma mais inclusiva e menos elitista do capitalismo cooperativo e colonizador do século XIX – que ajudou a transformar o norte da Europa e o Japão em potências industriais.

O sábio-tecnocrata e o operário, no entanto, desfrutaram apenas de uma ascendência moderada e com curta duração na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, sociedades mais dominadas pelo comerciante. Não conseguiram criar a economia colaborativa que precisava acompanhar o Estado de bem-estar social. Quando o sistema de Bretton-Woods começou a ruir, a classe média britânica e a norte-americana votaram em neoliberais, respectivamente, Margareth Thatcher e Ronald Reagan.

Nos Estados Unidos, na verdade, a virada contra os trabalhadores veio antes, quando, na Era do Marcarthismo, o Congresso diluiu muitas conquistas dos sindicatos sob o New Deal. A suposta “ameaça do Perigo Vermelho” empurrou a política popular para a direita. Mesmo assim, não houve retorno ao sistema dos anos 1920 de puro domínio do mercado financeiro e dos bancos – as lembranças de 1929 ainda eram muito recentes.

Até os anos 1970, as empresas se autofinanciavam com o lucro retido e ficavam relativamente independente do mercado acionário. Os sábios-gestores conseguiam impor estabilidade e crescimento constante sobre o desejo dos comerciantes-acionistas de obtenção de altos lucros já no curto prazo.

A Guerra Fria e a influência decisiva resultante sobre o guerreiro nos Estados Unidos também garantia que não haveria um retorno direto para a Era puramente mercantilista. Os enormes gastos do complexo militar-industrial reforçaram o papel do Estado e, em especial, dos sábios-pesquisadores nas Universidades. Estes contribuíram para o avanço na tecnologia de informações.

Também os comerciantes-consumidores (brandos) se beneficiaram, tanto os norte-americanos, quanto os europeus, pois a América garantia a segurança da Europa Ocidental e esta pode superar a mentalidade guerreira do passado recente. Canalizou suas energias para criar um mercado interno integrado de porte similar ao norte-americano. Os cidadãos europeus estavam muito menos dispostos a buscar a salvação no guerreiro, pois achavam que aquele sistema capitalista satisfazia o bem-estar social em vez de dividir a sociedade.

No entanto, houve oposição a esta cultura norte-americana do consumismo a partir da direita e da esquerda tradicionais. Era um sistema de valores que glorificava o individualismo e a competitividade. Levava o trabalhador ao éthos do comerciante, obcecado pela competição por status via acumulação de bens de consumo duráveis. A nascente cultura do consumo em massa foi eficaz para marginalizar os comunistas sob influência soviética, mas sua crítica, a partir dos anos 1960, paradoxalmente, abriu guarda para o pleno retorno da lógica do mercado adotada pelos comerciantes-financistas.

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