Estado Neoliberal: Hegemonia da Lógica do Mercado

Ignacio_María_Barreda_-_Las_castas_mexicanas

A casta do comerciante brando aprendeu a lição desde a última vez em que esteve no controle, nos anos anteriores à crise de 1929. Tinha aceitado a necessidade de uma especialização vinda dos sábios, apropriada para uma época de mais profissionalismo. Segundo David Priestland, em seu ensaio Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014), abriu-se, então, o caminho para o sucesso das futuras gerações de pessoas formadas em universidades de elite, inteligentes, liberais (“progressistas” no sentido americano), altamente qualificadas em alguma profissão de status cada vez mais elevado.

Seus objetivos eram os mesmos, de modo geral, que os das elites econômicas neoliberais da época pós-70’s: transformar o capitalismo sábio e administrativo de Bretton Woods em uma versão mais puramente mercantil. Estavam convencidos de que a flexibilidade do comerciante, sua competitividade e sua busca do lucro máximo, tudo isso traria prosperidade para todos.

Achavam que apenas permitindo os donos do capital correrem apenas atrás do lucro, e não do maior bem-estar social, poder-se-ia libertar o capital e redirecioná-lo para novos setores produtivos em qualquer lugar do mundo – até mesmo na China “comunista”, na Índia ou no Sudeste Asiático. As barreiras para a maximização do lucro, sejam elas acordos sindicais ou restrições ao comércio exterior e aos fluxos de capital no estrangeiro, tinham de ser removidas. Na prática, isso significava dar mais poder aos donos do capital e a seus agentes financeiros, os bancos.

Decisões cruciais foram tomadas como a desregulamentação do setor bancário e a abolição da Lei Glass-Steagal, criada no New Deal para evitar o surgimento de “bancos grandes demais para falir”. O FMI e o Banco Mundial pressionaram os países dependentes de refinanciamento a abrir seus mercados financeiros para os bancos de investimento estrangeiros.

Esse novo capitalismo mercantil não seria a base para empregos e investimentos estáveis em longo prazo. Se o comerciante podia extrair seus lucros e transferir seu capital à vontade, não o imobilizaria em financiamentos de longo prazo à pesquisa e às competências necessárias para as complexas indústrias de alta tecnologia. O risco previsível era trazer de volta o caos financeiro internacional vigente nos anos 1920. Seria o retorno ao modelo vitoriano de capitalismo, menos sábio, que não conseguiu se adaptar ao mundo industrial moderno?

Mas as castas que poderiam ter resistido ao ataque do comerciante iam se enfraquecendo. O desemprego no Ocidente e o aumento maciço do investimento direto estrangeiro na China, de início empregando sua força de trabalho barata e transferindo tecnologia como contrapartida ao acesso ao potencial do imenso mercado interno, minaram o poder dos sindicatos do Ocidente.

David Priestland considera de igual importância “a perda da fé nas soluções antigas entre as elites sábias e em um grupo em particular: os economistas. Desde os anos 1970, o apoio keynesiano à gestão econômica feita por tecnocratas se tornara profundamente fora de moda. Uma versão da disciplina muito mais favorável ao comerciante ia conquistando espaço. Segundo essa nova ortodoxia, o mercado era muito mais eficiente do que qualquer grupo de especialistas jamais poderia ser, uma vez que ele responde aos sinais de milhões de indivíduos que agem”.

Esta suposição, chamada Hipótese do Mercado Eficiente, justificava a fé que os seguidores da lógica de mercado depositavam nos bancos e mercados financeiros: só eles poderiam reagir ao mercado racional e investir capital onde este fosse mais lucrativo. E, mesmo que a China fosse a principal beneficiária, a humanidade como um todo se beneficiaria com o uso mais eficiente dos recursos.

Há uma falha notável nessa Hipótese do Mercado Eficiente: “existe gente idiota, basta olhar em volta…” Se os idiotas predominam, e eles não têm consciência do mal que fazem a si próprio e aos outros, então, adotam uma posição cada vez mais fundamentalista em relação ao mercado. Os sábios-tecnocratas se tornam sábios-sacerdotes, nesse caso, pregando a fé inabalável em Modelo de Equilíbrio Geral, com a certeza dogmática de clérigos neoclássicos. A mente do ser humano comum abomina complexidade, no caso, da economia…

Os sábios-economistas pró-mercado fizeram uma enorme diferença para divulgar a ideologia que consagrava o poder da casta dos comerciantes. A influência deles foi considerável nas colunas de opinião dos jornais, nos governos, nas organizações internacionais e em poderosas instituições privadas, tais como nas famigeradas agências de classificação de risco. Estas monitoram políticas econômicas, avaliam desempenhos nacionais ao seu bel prazer, e podem provocar fuga de capitais ao reduzir a nota que lhes atribuem.

Como esses sábios se pautam pelo individualismo e por ideias racionais que idealizam os comportamentos de indivíduos irracionais, eles são compreendidos por pessoas comuns que não entendem a dialética do marxismo-leninismo…

Mas se os economistas prepararam o terreno intelectual para o avanço do comerciante, este foi comandado pela tropa de choque do novo capitalismo constituída pelos que encarnam os mais puros valores mercantis: os banqueiros de negócios. Estes nem sempre foram puros comerciantes. A partir dos anos 1970, os bancos de investimento e seus aliados, os grandes fundos de pensão, começaram a recuperar seu caráter mercantil em que vendem até pacotes de crédito subprime securitizados. Tornaram-se, desde o final dos anos 80s, organizações em perfeita sintonia com as flutuações voláteis do mercado.

Como é típico da casta dos comerciantes, há muito pouco planejamento ou investimento em longo prazo em seus planos de negócios e menos ainda preocupação com os funcionários. Focalizam apenas sua capacidade de fazer dinheiro rápido. As relações pessoais são reduzidas a nada além dos resultados financeiros. Os comerciantes acreditam que é um sistema inevitável e até mesmo virtuoso, pois estimula a flexibilidade e a eficiência. Ele impulsiona a prosperidade econômica ao premiar os fortes e punir os fracos, tal como eles veem os membros das “castas inferiores”.

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