Aliança entre Castas de Sábios, Artesãos e Comerciantes

Sistema indiano de castas

David Priestland, em seu ensaio Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014), cita Steve Jobs, nascido em 1955 e morto de câncer em 2011, como a personificação da aliança entre o comerciante e o sábio-criativo. Ele tinha valores que buscavam reconciliar a geração neohippie dos anos 60s com o comerciante neoliberal dos anos 80s.

Os mercados, longe de contradizer os valores libertários dos anos 60s, personificavam esses valores românticos de sábio-homem santo, que valorizava a autorrealização e a criatividade. Os produtos da Apple se tornaram símbolos do capitalismo globalizado de hoje.

O próprio Jobs, tal como muito outros neohippies, em certa época, usou sua empresa para fazer proselitismo da sua visão do mundo, moldada pela contracultura dos anos 60s: exortava seus clientes a “pensar diferente”. Propagandeava: “saudamos os loucos, os desajustados, os rebeldes, os que perturbam a ordem”.

Jobs assimilou não só o interesse dos artesãos com experiência tecnológica pela eletrônica, no Vale do Silício – Califórnia, como também o orgulho perfeccionista que tinham na fabricação e no acabamento dos seus produtos. Desejava entregar o melhor para o consumidor, cobrando um “preço justo” para um produto superior ao de seus concorrentes.

A Califórnia é um lugar favorável ao mercado. Ganhar dinheiro lá não é condenado como pecado por uma moral cristã-católica de tradição anti-usura, antissemita e antirrentista. Priestland salienta que essa aliança entre o sábio-romântico, o artesão-eletrônico e o comerciante-industrial foi importantíssima para a legitimidade do novo capitalismo de livre mercado, pois os criativos estavam se tornando uma casta muito mais influente no mundo desenvolvido.

A exportação da indústria pesada para o antigo Terceiro Mundo, a expansão dos Estados de bem-estar social, o crescimento do setor de serviços – tudo isso reduziu o poder do sábio-tecnocrata entre a classe média de profissionais liberais. As velhas hierarquias sobreviventes entre os técnicos e gestores no mundo empresarial tiveram que concorrer com organizações mais igualitárias, sem tantos degraus hierárquicos. Os valores de seus profissionais mudaram.

Os novos profissionais “criativos”, como prestadores de serviços agregadores de valores, tinham de interagir com pessoas (clientes, pacientes, alunos), e não com máquinas e linhas de montagem impessoais. Podiam exigir mais liberdade em relação às rígidas normas gerenciais. O trabalho tinha de ter o valor da auto expressão romântica, da criatividade artesanal e da tolerância.

Esta nova casta foi a aliada ideal para o comerciante brando contra o burocrata-sábio. O criativo desfrutava das liberdades trazidas pela sociedade de consumo, enquanto o comerciante se reformulava como criativo boêmio.

A nova aliança provocou tensões acerca do papel da economia de mercado. Os profissionais criativos (médicos, professores, assistentes sociais) eram muito mais céticos em relação aos mercados do que os comerciantes brandos. Estes se encontravam mais entre os profissionais liberais instruídos do setor privado, como advogados e contadores, que tinham mais respeito pela disciplina do mercado.

Assim, os criativos se tornaram os baluartes da Nova Esquerda – liberal em relação à cultura, mas cética quanto ao mercado, embora não sendo antimercado. Nela se incluem os Verdes da Europa, os democratas da Coalizão Arco-Íris nos Estados Unidos e os Liberais-Democratas britânicos. Já os comerciantes brandos povoaram os partidos liberais – os Democratas Livres da Alemanha, o Novo Trabalhismo nos Estados Unidos e na Inglaterra – assim como o centro de alguns partidos conservadores.

Valorizando a liberdade cultural mais do que a igualdade econômica, os sábios-criativos românticos descobriram que tinham mais coisas em comum com o comerciante brando cosmopolita do que com o trabalhador comunitário. Desprezavam o comerciante firme dos anos 80s, culturalmente conservador. Abandonaram a expectativa de operários/camponeses revolucionários do Terceiro Mundo serem portadores da “política de mente aberta” pela qual ansiavam. Será que o comerciante empreendedor também não se revelará como um tipo de saqueador?

Em paralelo, o amor do guerreiro pela disciplina social, pela hierarquia e pela ocasional violência foi condenado pelos criativos. Assim como estes “herdeiros de 68” rejeitaram o racismo e o sexismo, ambos tolerados por tecnocratas dos anos 50s e 60s e comerciantes firmes dos anos 80s.

A política mudou. Durante grande parte do século XX, as principais linhas divisórias na batalha política tinha sido traçadas segundo questões econômicas e de classe, entre uma esquerda cética quanto ao mercado e uma direita pró-mercado. Com a ascensão da “geração adolescente nos anos 60s” (fruto do baby-boom) – e a reação contra ela por parte dos conservadores que prezavam a disciplina social e os valores tradicionais –, as questões culturais e a política da identidade se tornaram muito mais importantes.

O eleitorado passou a se dividir em quatro grandes grupos:

  1. a Nova Esquerda, culturalmente liberal e cética quanto ao mercado;
  2. a Velha Esquerda, mais conservadora, radicalmente antimercado, atitude mais comum de se encontrar entre os remanescentes da classe operária industrial — e alguns jovens estudantes ultra-radicais;
  3. o comerciante brando, culturalmente liberal, prómercado;
  4. o comerciante firme, mais autoritário, encontrado entre os pequenos negociantes e os funcionários de colarinho-branco no setor empresarial.

Quanto a questões culturais, o criativo tinha muito mais em comum com o comerciante brando do que com o operário. A velha aliança socialista entre o sábio e o trabalhador, forjada no século XIX e mantida no XX, está fraquejando no XXI, da mesma forma como a classe operária industrial está em declínio. Uma elite instruída, cosmopolita, vai se afastando do resto da sociedade.

Uma resposta ao cosmopolitismo extremo dessa elite vem da direita nacionalista radical – uma forma guerreira altamente autoritária do comerciante firme – que atraiu os pequenos negociantes, assim como uma classe trabalhadora marginalizada. A direita radical e xenófoba começou a se dar bem em todos os lugares em que aumenta o número de imigrantes do Terceiro Mundo. Demonstra ressentimento contra a complacente elite globalizada, embora compreenda a importância dos mercados. Ao contrário de seus predecessores fascistas, por ora, subordinaram o guerreiro ao comerciante firme.

Na realidade, o comerciante tem poucos inimigos reais. Para a maioria das castas, o domínio do comerciante parece ser necessário, tanto em termos econômicos quanto em termos morais. Em paralelo, as qualidades dos valores do comerciante brando – a tolerância, as redes de contato, a conectividade e a capacidade de “vender a si mesmo”, combinada com a criatividade boêmia – ficaram cada vez mais na moda entre todas as castas.

Com explosão da bolha imobiliária, provocada em última análise pela desregulamentação financeira neoliberal, a economia de mercado mundial até agora não se recuperou. No entanto, o comerciante redivivo, que destruiu os sucessos do Estado de bem-estar social, produzido pelo acordo de castas pós-1945, se recusa a aceitar que os recentes desastres tenham algo a ver com ele: é tudo culpa de falsos comerciantes, corruptos – os “capitalistas do favoritismo, do compadrio, dos laços” –, fazendo negócios com os políticos locais.

Assim, ele continua a controlar as principais instituições financeiras internacionais, como o FMI, o Banco Mundial, os bancos… E com eles o cérebro e o sistema nervoso central da economia internacional.

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