Dominância do Éthos do Comerciante-Financista

Castas na India - IstoE

Agora que está se voltando aos níveis de desigualdade social da Belle Époque, após trinta anos de dominância do comerciante, ninguém deveria estar perplexo com a extraordinária transferência de riqueza: o comerciante, quando livre de amarras, ama a flexibilidade e odeia imobilizar seu capital por medo de perder lucro maior – o eufemismo do custo de oportunidade. Entregar o controle empresarial do sábio para o comerciante, fatalmente, criaria uma elite de executivos e investidores super-ricos com base na ideologia da meritocracia e com pouco interesse com o bem-estar social das castas abaixo da deles.

Pior, houve a propagação do seu éthos, sua mentalidade, para faixas cada vez maiores da população. A classe média “instruída” sonha em imitar os banqueiros, tornando-se mais “flexível” em seus valores e adotando os que dão boa resposta às necessidades do mercado.

O éthos é o conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres, etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças), característicos de uma determinada coletividade, época ou região. É a reunião de traços psicossociais que definem a identidade de uma determinada cultura, ou seja, a personalidade com base em certos costumes sociais.

Casta é o termo que David Priestland usa em seu livro – Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio –, para ver os grupos sociais não só como organismos que buscam o interesse próprio e a vantagem econômica, mas também como encarnações de ideias e estilos de vida, que com frequência procuram impor aos outros.

Quando uma casta toma de empréstimo o conjunto de valores que permeia e influencia uma determinada manifestação (obra, teoria, escola, etc.) filosófica típica de outra casta, inevitavelmente, ela cai sob o domínio desta. Na conjuntura atual brasileira, estamos presenciando a transição da hegemonia da lógica neocorporativa para a da lógica de mercado como predominante sobre outras lógicas de ações, como a familiar, a cívica e a militar.

A perda de dominância por parte de uma casta fica clara, de repente, depois de um fracasso, como uma derrota em guerra, uma crise econômica, uma revolução social, ou essas três coisas juntas. Em geral, é um grande colapso desse tipo que abre caminho para uma casta concorrente antes marginalizada assumir a proeminência.

O fracasso da casta dominante e a crise ideológica que o acompanha trazem mudanças. As ordens sociais podem desmoronar quando seus governantes acreditam que estão fracassando – e, sob pressão, adotam profundas reformas.

ordem de cada casta fica em situação mais vulnerável quando é menos inclusiva, pois o domínio irrestrito exercido por qualquer uma das castas tem suas desvantagens:

  1. os sábios-tecnocratas podem trazer a burocratização ou a presunção arrogante típica dos especialistas;
  2. os trabalhadores e artesãos podem excluir “os de fora” na sua busca de espírito comunitário ou corporativista;
  3. os guerreiros atiçam guerras intermináveis por honra e vingança; e,
  4. quando os mercadores infligem instabilidade econômica e elevação das desigualdades.

As maiores vítimas do renascimento do comerciante são os sindicatos – reduto dos sábios-operários – e o Estado – cidadela dos sábios-tecnocratas. O desemprego, bem como a desregulamentação do mercado de trabalho, destroi grande parte do poder sindical. Os financistas usam seu poder de pressão para forçar os governos a obter superávit primário suficiente para a solvência da dívida pública, assim como a manter sob controle a taxa de inflação, para evitar a eutanásia dos rentistas investidores em renda fixa. Se eles se recusam, os financistas barram o refinanciamento do setor público e depreciam a moeda nacional, provocando choque inflacionário pelo repasse cambial.

Nem mesmo os governos socialdemocratas e democratas-cristãos europeus foram capazes de manter uma economia saudável por meio do capitalismo coordenado, face à pressão para sua desregulação na Era Neoliberal. Para o ajuste fiscal, tiveram de rever seu generoso Estado de bem-estar social, sob o temor de serem punidos pelos mercados financeiros.

Os governos do tipo comerciante brando, tanto de esquerda como de direita, se esforçam para estender a influência dos comerciantes às antigas fortalezas sábias da educação e saúde. Introduzem segmentos de mercado nos serviços de saúde. Alunos passam a ser tratados como consumidores e instituições acadêmicas se tornam meras prestadoras de serviços educacionais, seja gratuitos, seja com fins lucrativos. São “formas mais flexíveis” para quem precisa trabalhar, durante o dia, conseguir diplomar-se com cursos à noite.

Essas alternativas às difíceis exigências das universidades convencionais, ainda dirigidas por sábios, não dão qualificação no mesmo nível, criando uma segmentação no mercado de trabalho — e entre as castas dos sábios e dos trabalhadores. O comerciante que estiver atuando em Saúde e  Educação apenas preocupado em cumprir metas e maximizar seus lucros, provavelmente, estará menos interessado em atender bem seus pacientes e alunos…

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