IV. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?

Decompoisção da taxa de inflação de 2014Inflação de preços livres

Prosseguindo na busca de respostas a duas perguntas aparentemente simples –
Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada? Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada? – vamos agora começar a examinar esta última questão.

Poderia ser a minha resposta quase uma tautologia: “ora, a taxa de juros é tão elevada porque a taxa de inflação ainda é elevada e a diretoria do Banco Central do Brasil insiste em derrubá-la com este único (e equivocado) instrumento”. Em outras palavras, a questão-chave seria por que a taxa de inflação ainda é alta – e não por que a taxa de juro é alta. Esta seria consequência daquela e não causa a queda dela! Todos os diagnósticos – e as terapias decorrentes – estariam equivocados!

A experiência brasileira de estabilização inflacionária em taxa inercial mais baixa demonstra que ter Banco Central independente para praticar política de juros não é nem condição necessária nem suficiente. Para esse objetivo, há sim a necessidade de adotar política macroeconômica abrangente e coordenada, envolvendo política de controle de capital, política fiscal, política cambial, política de juros e política de rendas, em condições internacionais propícias ao acúmulo de reservas internacionais e à sobrevalorização da taxa de câmbio ou apreciação da moeda nacional. Além dessas políticas econômicas em curto prazo há que cortar o custo extra do Brasil com investimentos em infraestrutura e logística, cuja maturação ocorre em longo prazo.

Porém, chegado ao historicamente baixo patamar da taxa de inflação – no último decênio (2005-2014) abaixo do teto (6,5% aa) do regime de meta – será que a política de juros, via controle indireto da demanda agregada, não tem eficácia apenas para impedir sua elevação, mas não para provocar sua queda?

Conforme o Relatório da Inflação do BCB, referente ao primeiro trimestre de 2015, a inflação medida pelo IPCA em 2014 (6,41%) foi superior aos 5,91% observados em 2013. Considerando-se os dois grandes grupos de preços que compõem o IPCA, a inflação de preços livres encerrou o ano em 6,72% (7,29% em 2013), e a inflação dos preços administrados em 5,32% (1,54% em 2013).

Considerando variações trimestrais, a inflação de preços administrados, que havia sido negativa no primeiro e terceiro trimestres de 2013 (devido à redução nas tarifas de energia elétrica e às revogações de reajustes de tarifas de ônibus urbano, respectivamente), iniciou em 2014 um processo de realinhamento em relação à inflação de livres.

Considerando os seis componentes da inflação, a maior contribuição individual para a variação absoluta do IPCA em 2014 adveio dos preços livres (3,14 pontos percentuais (p.p.), seguida pela contribuição dos preços administrados (1,04 p.p.) e do choque de oferta (0,87 p.p). Em termos relativos, esses três itens responderam por 49,0%, 16,2% e 13,6% da inflação total em 2014. Por sua vez, a inércia, as expectativas e o repasse cambial contribuíram com 0,70 p.p., 0,69 p.p. e -0,03 p.p.; ou seja, com 10,9%, 10,8% e -0,5% da variação total do IPCA, respectivamente.

Com relação aos choques de oferta, foi observado um forte efeito inflacionário em 2012, decorrente de significativa elevação de preços agrícolas em consequência de problemas climáticos que afetaram tanto regiões produtoras no exterior como no Brasil. Em 2013, o efeito menor, mas ainda positivo, manifestou-se na alta dos preços dos alimentos in natura observada no início do ano. Em 2014, fatores climáticos novamente afetaram os preços de alimentos, tanto no mercado doméstico como no internacional, ao longo do primeiro semestre.

No período considerado de 2012 a 2014, pode-se observar o efeito crescente da inércia da inflação do ano anterior. As expectativas também apresentaram contribuição crescente no período analisado. Em 2012 e em 2013 observa-se contribuição positiva da desvalorização cambial para a inflação. Mas, em 2014, apesar de se observar um aumento de 11,8% na taxa de câmbio do quarto trimestre em relação ao quarto trimestre do ano anterior, houve uma pequena contribuição negativa para a inflação devido à dinâmica da taxa de câmbio ao longo do ano (tendência de queda até o terceiro trimestre) e à defasagem do repasse cambial para os preços ao consumidor.

Tipicamente, a variação cambial afeta a inflação por meio dos preços de produtos importados. Contudo, mudanças na taxa de câmbio também impactam os preços ao consumidor por meio de um canal adicional: a depreciação cambial que leva a preços mais altos dos produtos importados irá, por sua vez, aumentar a demanda pelos produtos domésticos que competem com os bens importados. À medida em que a demanda aumenta, haverá também pressões de alta sobre os preços domésticos e sobre salários. Todavia, essa pressão de demanda é reduzida em contexto de menor crescimento econômico.

Alguns economistas, sempre diagnosticando “inflação de demanda“, acham que “a   expansão   do   custo   não é causa   de inflação”, porque sem um aumento do poder aquisitivo e da demanda, o aumento do custo levaria ao desemprego e à recessão, e não à inflação. Em outras palavras, sem a oferta de moeda sancionar, não há aumento contínuo de preços, devido ao risco de perda de mercado. Mas com a criação endógena (isto é, pelas forças do mercado) de moeda, a responsabilidade pela inflação, fomentada pela pressão dos sindicatos e empresas sobre os preços relativos, é apontada por esses autores pela falta do “freio” monetário.

Outros economistas, sempre diagnosticando “inflação de custos“, acham que “o excesso de demanda global não é causa da inflação”, porque os preços e os salários não aumentam por pressão do mercado, mas são “aumentados” por decisões administrativas formais e explícitas. Porém, resta a pergunta: há economia de mercado em que todos os preços e salários sejam administrados na base do cálculo de custo e   mantidos   nos   níveis predeterminados,   mesmo perante o excesso de demanda, caracterizado pela ocorrência de pedidos não atendidos? O “racionamento capitalista” não se dá via preços?

Seguindo sempre o primeiro diagnóstico, o Banco Central limita-se a regular a demanda agregada via mecanismo de transmissão monetária indireta, isto é, através do canal dos juros. No caso brasileiro, em vez de fazer um controle monetário geral (e recessivo), há um controle seletivo, mantendo um crédito direcionado aos setores prioritários com taxa de juros subsidiada, pois é fixada abaixo da taxa de mercado com recursos livres.

Continua no próximo post.

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