Critérios da Boa e da Má Leitura

AArtee(aMagia)deLerPara classificar as etapas de uma leitura séria temos que esclarecer os critérios do melhor e do pior. Que critérios são esses?

O primeiro critério refere-se ao quando dizemos que um homem lê melhor do que outro quando o critério de ler refere-se a um assunto mais difícil. Muitas vezes medimos a aptidão de um homem pela dificuldade do trabalho que ele pode realizar. A agudeza de tal medida depende, sem dúvida, da precisão independente com que classificamos os trabalhos conforme sua dificuldade crescente.

Estaríamos em um circulo vicioso se disséssemos, por exemplo, que o livro mais difícil é aquele que só o melhor leitor domina. Isto é verdade, mas não ajuda. Para se compreender por que uns livros são mais difíceis do que outros, temos de saber o que eles exigem da habilidade do leitor. Por outras palavras, a dificuldade do assunto de leitura é sinal evidente e objetivo dos graus de habilidade em ler, mas não nos diz que diferença existe no tocante à habilidade do leitor.

Entretanto, o primeiro critério tem certa aplicação, pois quanto mais difícil é um livro, tanto menos leitores terá em qualquer época. Há certa dose de verdade nisso, porque geralmente, à medida em que se sobe na escala da perfeição em uma habilidade, o número de peritos diminui: quanto mais alto se está, mais raros são eles. Assim, ao contar as cabeças de leitores peritos, teremos a noção precisa da dificuldade de uma leitura qualquer.

O segundo critério refere-se à distinção entre leitura ativa e leitura passiva. No sentido estrito, toda leitura é ativa. A que achamos passiva é, simplesmente, a menos ativa. A leitura é melhor ou pior, conforme seja mais ou menos ativa. E um leitor é melhor do que outro, se desempenha mais atividade lendo. Não há leitura passiva. Ela só parece assim, em oposição à leitura mais ativa.

Ninguém duvida que escrever e falar são empreendimentos ativos, nos quais o escritor e o orador estão claramente fazendo alguma coisa. Muita gente parece pensar, no entanto, que é inteiramente passivo ler e ouvir. Nenhum trabalho precisa ser feito. Acham que ler e ouvir é receber comunicação de alguém que a transmite ativamente. Até um certo ponto estão certos, mas, daí por diante, cometem o erro de supor que receber comunicação é como receber uma pancada, um legado ou uma sentença do tribunal: não há nada mais a fazer…

Mortimer J. Adler, em “A Arte de Ler”, não define logo nem a boa, nem a má leitura. Apenas fala das diferenças, de um modo vago e geral. Talvez seja impossível fazer outra coisa. Antes de se conhecer as normas de uma boa leitura, não se compreenderá o que é preciso.

Se os leitores continuarem como espectadores, não saberão nunca o que significa ler melhor ou pior. Do mesmo modo, devem por em prática as regras da leitura, antes de serem, realmente, capazes de compreendê-las e de julgar seu próprio trabalho ou o trabalho alheio.

A gente lê bem na medida em que aprende tudo o que o escritor procurou transmitir.

O que fazer, então?

  1. Pode-se pedir a algum melhor leitor que explique os trechos difíceis ou indique um compêndio ou comentário que simplificará tudo revelando a intenção do autor.
  2. Ou pode-se fazer como muitos alunos, que não se preocupam com o que ultrapassa sua capacidade e acham que compreenderam o suficiente e nada mais interessa.

Se vocês tomarem qualquer uma dessas atitudes, não estarão lendo bem.

O jeito é um só. Estudar o livro e se aplicar nele, sem auxilio de espécie alguma. Sem nada mais que a capacidade de suas inteligências, interpretar os símbolos que defrontarem, de modo a passar, gradualmente, de um estado de menor compreensão para um estado de compreensão maior. Tal progresso, realizado pela inteligência que se aplica em um livro, consiste em ler bem o livro que a desafia.

Mortimer J. Adler define, assim, de um modo grosseiro, o que entende por leituras: o processo pelo qual uma inteligência – que se esforça por entender os símbolos da matéria legível, sem auxilio exterior – e aperfeiçoa, mediante o poder de sua própria aplicação. A inteligência que compreendia menos passa a compreender mais. Isso por causa dos vários atos que constituem a arte de ler.

Nem toda leitura é como a que ele acaba de descrever. Há muitas que não nos elevam, embora nos instruam, nos divirtam ou nos irritem. Donde várias espécies de leitura:

  1. para conhecer,
  2. para passar o tempo, e
  3. para compreender.

Parece, assim, que só existe diferença na finalidade com que lemos. Em parte, é verdade.

Mas há também diferença no que se lê e no modo de se ler. Não se pode adquirir muita instrução com as histórias em quadrinhos, ou muita elevação intelectual com um almanaque. Se as coisas que se leem são de diferentes valores, temos que utilizá-las de acordo. E satisfazer cada uma de nossas finalidades indo em busca do assunto que lhes é apropriado.

Omitindo, por enquanto, a leitura como passatempo, há os outros dois tipos principais:

  1. a leitura que instrui e
  2. a leitura que desenvolve nossa compreensão.

O melhor leitor pode fazer isso e mais ainda. Aumentar sua compreensão, assim como seu cabedal de conhecimentos.

Quando se consegue compreender mais o que se compreendia menos – em virtude de um esforço intelectual próprio – tem-se a agradável sensação de alguém que se emancipou. Aprendeu a aprender.

Seguirá na vida, então, por conta própria ou com a pequena ajuda de um amigo, o “professor morto”, isto é, um autor de livro não presente “ao vivo” em sua orientação. Sendo bom leitor, você assume sua própria responsabilidade, pessoal e intransferível, de se tornar uma pessoa sábia em conhecimentos e com bons valores morais.

FNC: parece-me que um dos problemas vividos, atualmente, na cidadania brasileira é que os cidadãos adquiriram muita noção de seus direitos sem a contrapartida de seus deveres como idoneidade moral, pagamento de impostos e responsabilidade individual de estudar e tornar-se uma pessoa culta. Aliás, cumprindo esse último dever, o resto é consequência.

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