Submissão

Michel HouellebecqOs francófilos amantes dos valores da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – não podem deixar de ler o imperdível livro de ficção política de Michel Houellebecq, “Submissão”. Este título é a tradição de “Islã” em árabe. O protagonista-narrador é um professor universitário de Literatura, especialista em Joris-Karl Huysmans (1848-1907). Este foi um escritor francês e crítico de arte, primeiramente associado a Émile Zola e ao grupo de naturalistas. Depois, juntou-se ao Movimento Decadente Francês. A conversão de Huysmans, do Satanismo ao Catolicismo, da obsessão por sensações bizarras à busca da vida espiritual, pode ser seguida em livros como “A rebours” (1884), “Là-bas” (1891) e “La cathèdrale” (1898).

O professor universitário solteirão torna-se o alter ego – termo cunhado por Freud para conceituar coisas que estão no Ego de uma determinada pessoa, as quais podem ser transferidas para uma outra, que passa a funcionar como se fosse uma duplicata da primeira pessoa – de Huysmans. Vive o tédio de sua crise de meia-idade como observador crítico do cenário político da França a partir da eleição presidencial de 2022. De quebra, converte-se em um participante ativo na mudança de costumes impostas pelo islamismo nos desejados valores libertários, igualitários e fraternos dos franceses.

Em misto de ceticismo, cinismo e niilismo substituído por oportunismo, ele expõe sua verve irônica neste best-seller que seria lançado no dia do ataque do terrorismo islamita ao Charlie Hebdo. Na última edição antes do crime, que definiu “Submissão” como “golpe de mestre”, a capa era uma caricatura de Houellebecq, também ele alvo de blague. Após o atentado, o autor cancelou a divulgação da obra e deixou Paris.

Assim como, provavelmente, todos os leitores franceses, li o pequeno livro de ponta a ponta (225 páginas), em um só fôlego, na viagem de 12 horas em ida-e-volta de avião Campinas- Belém do Pará-Campinas. Fui lá, em um bate-e-volta, para dar uma palestra. É envolvente sua narrativa a respeito da cena política contemporânea da França e da perspectiva geopolítica europeia e islâmica. Imaginem todas as consequências de a centro-esquerda e a centro-direita se aliarem com um candidato islamita contra a candidata Marine Le Pen da Frente Nacional, partido xenófobo de extrema-direita, no segundo turno da eleição presidencial.

Leia pequenos trechos de: Michel Houellebecq, “Submissão”.

“A notícia estourou, na verdade, pouco depois das duas da tarde: a UMP, a UDI e o PS tinham se entendido para fechar um acordo de governo, uma ‘frente ampla republicana’, e se aliavam ao candidato da Fraternidade Muçulmana. Muito excitados, os jornalistas dos canais de notícias se mobilizaram a tarde toda a fim de tentar saber um pouco mais sobre as condições do acordo e a repartição dos ministérios, conseguindo sempre a mesma resposta sobre a inutilidade das considerações partidárias, a urgência da unidade nacional e a de curar as feridas de um país dividido etc.

Tudo isso era perfeitamente esperado, previsível; menos, porém, era o retorno de François Bayrou [‘velho político bearnense, derrotado em praticamente todas as eleições que disputara nos últimos trinta anos’] ao primeiro plano da cena política. Na verdade, ele aceitara uma dobradinha com Mohammed Ben Abbes: este se comprometera a nomeá-lo primeiro-ministro se saísse vitorioso da eleição presidencial.”

(…) “Mas sua grande referência, que salta aos olhos, é o Império romano, e a consolidação europeia é para ele apenas um meio de realizar essa ambição milenar. O principal eixo de sua política externa será deslocar para o Sul o centro de gravidade da Europa; já existem organizações que perseguem esse objetivo, como a União para o Mediterrâneo. Os primeiros países capazes de se agregar à essa construção europeia serão, com certeza, Turquia e Marrocos; depois virão Tunísia e Argélia. A mais longo prazo, há o Egito — é um osso mais duro de roer, mas seria decisivo. Paralelamente, pode-se pensar que as instituições da Europa, que atualmente são tudo menos democráticas, evoluirão para mais consultas populares; a saída lógica seria a eleição pelo sufrágio universal de um presidente europeu. Nesse contexto, a integração à Europa de países já muito populosos, e com demografia dinâmica, como Turquia e Egito, poderia desempenhar um papel decisivo. A verdadeira ambição de Ben Abbes, estou convencido, é se tornar a longo prazo o primeiro presidente eleito da Europa — de uma Europa ampliada, incluindo os países do entorno Mediterrâneo.”

(…) “estaremos lidando com uma das primeiras potências econômicas mundiais, que serão perfeitamente capazes de se tratar de igual para igual. É um jogo curioso que se joga neste momento entre a Arábia Saudita e as outras petromonarquias: Ben Abbes está disposto a se aproveitar, sem o menor escrúpulo, de seus petrodólares; mas não tem a mínima intenção de aceitar um abandono qualquer de soberania. Em certo sentido, apenas retoma a ambição de De Gaulle de uma grande política árabe da França, e garanto que não lhe faltam aliados, até mesmo, aliás, nas monarquias do Golfo, cujo alinhamento com as posições americanas as obriga a engolir um bocado de sapos, colocando-as permanentemente em posição ambígua diante da opinião pública árabe, que por isso começam a pensar que um aliado como a Europa, menos organicamente ligado a Israel, poderia ser uma opção bem melhor…”

(…) “mal reparei, na noite do segundo domingo das eleições, na ampla vitória de Mohammed Ben Abbes. ”

(…) “ as roupas femininas tinham se transformado, senti de imediato, sem conseguir analisar a transformação; o número de véus islâmicos havia aumentado um pouco, mas não era isso, e levei quase uma hora perambulando até captar, de um só golpe, o que mudara: todas as mulheres estavam de calças compridas. A detecção das coxas femininas, a projeção mental reconstruindo a bucetinha em sua interseção, processo cujo poder de excitação é diretamente proporcional ao comprimento das pernas nuas: tudo isso era em mim tão involuntário e mecânico, de certa forma genético, que não percebi imediatamente, mas o fato estava ali, os vestidos e as saias tinham desaparecido. Uma nova roupa também tinha se disseminado, uma espécie de blusa comprida de algodão, parando no meio da coxa, que tirava todo o interesse objetivo das calças justas que certas mulheres poderiam eventualmente usar; quanto aos shorts, é claro que estavam fora de discussão. A contemplação da bunda das mulheres, mínimo consolo sonhador, também se tornara impossível. Uma transformação, portanto, estava indubitavelmente a caminho; começara a se produzir um deslocamento objetivo.”

(…) “Os novos estatutos da universidade islâmica Paris-Sorbonne me proibiam prosseguir minhas atividades de ensino; Robert Rediger, o novo reitor da universidade, assinava pessoalmente a carta; manifestava-me seu profundo pesar e me garantia que a qualidade de meus trabalhos universitários não estava de jeito nenhum em causa. É claro que me era perfeitamente possível prosseguir minha carreira numa universidade laica; se todavia eu preferisse renunciar a essa hipótese, a universidade islâmica Paris-Sorbonne se comprometia a me pagar desde já uma aposentadoria cujo montante mensal seria indexado pela inflação e elevava-se neste momento a 3.472 euros. Eu podia agendar uma ida aos serviços administrativos a fim de tomar as providências necessárias.”

Continua no próximo post.

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