Ainda o Debate sobre o Excesso de Poupança e a Estagnação Secular

Gross Savings Current US$

Gross Savings – Current US$

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT. Publicou artigo (Valor, 15/04/15) que contribui para este dossiê que estou postando a respeito da Hipótese da Estagnação Secular. Compartilho abaixo seu artigo.

“De início, parece ser um cenário desconcertante e você poderia até se perguntar se algo assim é mesmo possível: uma produção que está em seu potencial, mas ainda assim não é sustentável. Um dos capítulos do novo Panorama Econômico Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI), no entanto, destaca justamente esse cenário. Podemos estar até vivendo nele.

A produção “está em seu potencial” quando não gera pressões inflacionárias ou deflacionárias. A sustentabilidade é algo inteiramente diferente – e me refiro aqui à sustentabilidade financeira, não à do tipo ambiental. A produção é financeiramente sustentável quando os padrões de gastos e a distribuição da renda se dão de tal forma que os frutos da atividade econômica podem ser absorvidos sem criar desequilíbrios perigosos no sistema financeiro. É insustentável quando, para gerar demanda suficiente para absorver a produção da economia, precisa ter demasiadas captações ou taxas de juros bem abaixo de zero ou ambas.

Para ver como uma situação tão complicada como essas pode surgir, comece por imaginar uma economia em situação equilibrada, no sentido de que o volume de dinheiro que consumidores e empresas desejam poupar é exatamente o mesmo volume de dinheiro que desejam gastar em investimentos físicos. Até aí, tudo bem. Mas suponha que o crescimento da produção potencial, então, caia de forma acentuada. O nível de investimento desejado também cairia, porque o estoque de capital necessário seria menor. Mas o volume que as pessoas desejam poupar pode não cair ou não cair muito; na realidade, se as pessoas acharem que vão estar mais pobres no futuro, podem até querer poupar ainda mais. Nesse caso, as taxas de juros reais podem precisar cair acentuadamente para recuperar o equilíbrio entre investimento e poupança.

Essa queda nas taxas de juros reais pode também desencadear altas nos preços dos ativos de longo prazo e uma elevação correlacionada no crédito. Essas consequências ofereceriam uma cura temporária para o declínio na demanda. Mas se a onda de alta do crédito se exaurisse posteriormente, deixando os captadores às voltas para refinanciar suas dívidas, a demanda então operaria sob um fardo duplo. O impacto de médio prazo do excesso de dívida e um setor financeiro avesso ao risco agravariam as consequências de longo prazo do crescimento potencial mais fraco. Continue reading “Ainda o Debate sobre o Excesso de Poupança e a Estagnação Secular”

Hipótese de Excesso de Poupança

Poupança X PIB 2010-2014

No debate sobre “estagnação secular”, Lawrence Summers — sobrinho do famoso autor de Manual de Introdução à Economia, Paul Samuelson — apresentou a hipótese de Excesso de Poupança. Curioso, não? Para a ortodoxia, essa expressão é a contrapartida da hipótese de Carência de Demanda Efetiva, ou seja, de Consumo Familiar e Investimento Privado ou Público. Mas onde? Lá na China?!

O bode-expiatório da vez do economista norte-americano é a China, pois os chineses não abrem seu mercado interno para as exportações norte-americanas e mantém baixo o potencial de consumo do que seria o maior mercado mundial. De acordo com a visão estagnacionista, os asiáticos poupam demasiadamente e exportam sua “poupança interna” sob forma de “poupança externa” (déficit do balanço de transações correntes) aos mundo ocidental.

Em síntese, os norte-americanos consumiriam e os orientais financiariam essa sociedade consumista. Por ironia histórica, os comunistas sustentariam os consumistas

Sérgio Lamucci (Valor, 08/05/15) informa que o economista Lawrence Summers pinta um cenário preocupante para a economia global, em especial em relação aos países desenvolvidos, mas também aponta riscos para o crescimento de mercados emergentes, como a China. Ex-secretário do Tesouro americano, Summers considera que “agora, mais do que nunca”, a estagnação secular é um aspecto fundamental para entender a situação do mundo industrializado, que enfrenta, na sua visão, um quadro prolongado de demanda inadequada.

No caso da China, Summers alerta para a possibilidade de uma desaceleração no médio e no longo prazos mais forte do que se projeta atualmente, destacando ainda que o país passa por ajustes difíceis, como a expansão mais lenta das exportações e a necessidade de maior ênfase ao consumo. Já o fraco desempenho recente do Brasil se deveu à perda do ímpeto das reforma estruturais, nos últimos anos, afirmou Summers, para quem é preciso retomá-las para o país voltar a crescer a taxas mais altas.

Ao falar da estagnação secular, o economista disse que os países ricos sofrem de um “excesso crônico de poupança”, um fenômeno causado em parte pelos fluxos de capital que recebem do mundo emergente. Isso contribui decisivamente “para o crescimento fraco, pressões deflacionárias e juros reais de equilíbrios muito baixos” observado no mundo desenvolvido.

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