Reducionismo e Dialética

complexidade-e-praxisEleutério Fernando da Silva Prado, em seu livro “Complexidade e Práxis” (São Paulo: Pléiade, 2011), informa que a primeira concepção de mundo que costuma ser considerada científica nasceu na Grécia Antiga com Aristóteles. De acordo com ela, o universo conhecido é um grande organismo – um cosmos – cujas partes têm finalidades e realizam funções.

A segunda grande concepção de mundo, na História da Civilização Ocidental, veio com a síntese newtoniana no século XVII. O universo passa a ser concebido como uma máquina cujas partes interagem externamente, sem quaisquer finalidades intrínsecas. Os processos da Natureza mantêm estabilidade. Apresentam, por isso, configurações constantes de fenômenos. A função da Ciência é apreender essas regularidades por meio de Leis e pela construção de Modelos. Continue reading “Reducionismo e Dialética”

(Neo) Liberalismo nu! Hayek nu(a)!

Salma HayekEleutério Prado, na conclusão do quinto capítulo do livro Economia, Complexidade e Dialética (São Paulo: Plêiade, 2009), analisa os fundamentos teóricos do neoliberalismo da Escola Austríaca de pensamento econômico, através da reflexão de seu fundador Friedrich Hayek. Prefiro a Salma Hayek… (veja acima)  🙂

O que caracteriza o neoliberalismo vem a ser a concepção de Estado proativo – e não a de Estado mínimo. Como as regras, as instituições inerentes ao captação se revelaram historicamente frágeis, o Estado tem de passar a mantê-las, protegê-las, expandi-las e promovê-las. Na visão neoliberal, o Estado deve fomentar o Livre-Mercado, combatendo todos os entraves que se apresentem ao seu desenvolvimento, já que o salto na qualidade da vida humana coincidiu com seu advento sob o capitalismo. Na verdade, é falso esse “mito-fundador”, pois a luta por igualdade de resultados sempre foi meta almejada pelos socialistas democráticos contra os liberais conservadores. Continue reading “(Neo) Liberalismo nu! Hayek nu(a)!”

Da Ordem Natural à Ordem Moral

austríacosEleutério Prado, no quinto capítulo do livro Economia, Complexidade e Dialética (São Paulo: Plêiade, 2009), avalia que, antes da Conquistas das Américas (em torno de 1500), o ritmo dos acontecimentos humanos era monótono: colheitas-sucessões monárquicas-guerras em processo de reiteração. A diacronia começa com as Revoluções Burguesas (inglesa, norte-americana e francesa) e culmina com a Revolução Industrial em conjunto com as Unificações e Independências dos Estados no século XIX. Emerge a ideia de progresso. Re-evolução deixa de ser vista como rotação em torno de um eixo, transformando-se em órbita de movimento aberto que se desprende do passado para instaurar algo realmente novo.

Nem sempre se compreendeu que a História sempre foi feita pelos próprios Homens com base nas circunstâncias herdadas do passado. Em toda a Idade Média, a História era enxergada como produto de forças divinas ou cósmicas, estando prisioneira da escatologia cristã que ameaçava com o fim dos tempos!

A História, na visão determinada pela Igreja, perpetuava-se como processo da salvação. Na Modernidade, a História tornou-se processo de realização.

Após a Revolução Francesa, a História se configurou em auto-realização do Homem. Produziu-se uma tendência irrevocável à antropologização e humanização da História. Continue reading “Da Ordem Natural à Ordem Moral”

Evolucionismo e Conservadorismo

Hayek e a IgualitarismoEleutério Prado, em Economia, Complexidade e Dialética (São Paulo: Plêiade, 2009), destaca que a Teoria Evolucionista atribui papel importante ao randômico, ao aleatório, às forças cegas, seja na criação da variabilidade, seja na seleção e seja na herança. Abandona o determinismo. O evolucionismo social, no entanto, apresenta-se, invariavelmente, como discurso da reprodução amplamente cega do sistema social existente, mesmo quando prevê que isto pode, eventualmente, não ocorrer.

Pode-se atribuir, indo além de Hayek, algum papel à razão científica na mudança social? Será apenas um papel instrumental, porque visa apenas corrigir eventuais falhas de processos, assim como produzir pequenas reformas institucionais, no desenvolvimento da sociedade?

O evolucionismo, contra o reformismo, adota um discurso científico que toma o mundo existente para apresenta-lo como processo automático de transformação, tipo “laissez-faire”. Esta é, hoje, a expressão-símbolo do liberalismo econômico, na versão mais pura de capitalismo de que o mercado deve funcionar livremente, sem interferência, apenas com regulamentos suficientes para proteger os direitos de propriedade. Esta Filosofia tornou-se dominante nos Estados Unidos e nos países da Europa durante o final do século XIX até o início do século XX. É parte da expressão, em língua francesa, Laissez faire, laissez passer, le monde va de lui même [“Deixe fazer, deixe passar, o mundo vai por si mesmo.”] Continue reading “Evolucionismo e Conservadorismo”

Razão e Conservadorismo em Hayek

HayekA criação, manutenção, reforma e reconstrução das instituições torna-se o tema preferido de Hayek segundo Eleutério Prado em Economia, Complexidade e Dialética (São Paulo: Plêiade, 2009). O guru da Escola Austríaca enxerga o modo de atuação do Estado na tentativa de regular o sistema econômico a partir dos anos 30 do século XX como ameaça à liberdade do empreendimento capitalista.

No entanto, na crítica ao keynesianismo e às tendências socialdemocratas, ele trata as instituições como objetivações socialmente válidas dos comportamentos históricos do ser humano em sociedade. As instituições formam a configuração estrutural da sociedade.

O conhecimento científico difere do conhecimento comum apenas no que se refere às instituições de controle:

  1. o primeiro é produzido e selecionado dentro de uma tradição que zela por certos padrões formais, metodológicos e filosóficos;
  2. o desenvolvimento do segundo é regulado, evolutivamente, pelo próprio sucesso ou fracasso dos indivíduos e associações de indivíduos na vida prática.

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Evolucionismo Cultural em Hayek

F.A.-Hayek Eleutério Prado em Economia, Complexidade e Dialética (São Paulo: Plêiade, 2009) afirma que, na compreensão do desenvolvimento social e histórico, o pensamento de Hayek se move dentro de visão individualista e evolucionista. Entretanto, não adere ao paradigma atomista e reducionista característico da teoria econômica neoclássica, dentro do qual se busca explicar todos os fenômenos macrossociais como resultados que se derivam de mera agregação e coordenação de comportamentos individuais.

O indivíduo, para Hayek, não vem a ser um átomo social. Ele privilegia as instituições sociais criadas não intencionalmente, na prática, que atuam a despeito de qualquer direcionamento explícito de alguma autoridade e que têm existência intersubjetiva, além dos indivíduos em particular que compõem a sociedade.

A visão de sociedade de Hayek é também sistêmica. Todos os fenômenos da vida, da sociedade e da mente têm de ser compreendidos como manifestações de sistemas complexos. São “todos” formados por interações de muitos elementos que funcionam organizadamente. Apresentam, por isso, certos padrões ou regularidades de comportamento, os quais podem apreendidos de modo abstrato, inclusive matemático, pela Ciência.

No entanto, as fórmulas matemáticas dos modelos sociais:

  1. cobrem apenas parte das relações de causas e efeitos,
  2. mostram-se imprecisas quantitativamente,
  3. contêm elementos estocásticos, que dependem ou resultam de uma variável aleatória,
  4. são incapazes de especificar instâncias particulares dos fenômenos que descrevem.

Logo, para Hayek, os sistemas complexos não podem ser conhecidos em suas determinações concretas particulares. Em consequência, não se submetem ao saber que se baliza pelo critério científico da previsão e do controle. Continue reading “Evolucionismo Cultural em Hayek”

Hayek: Evolucionismo versus Dialética

Economia Complexidade e DialéticaO pressuposto do livro do professor Eleutério Prado, Economia, Complexidade e Dialética (São Paulo: Plêiade, 2009) é que se deve compreender o sistema econômico como um sistema complexo. Ele possui grande número de agentes heterogêneos que interagem sob certas condições estruturais, de modo descentralizado, fora de equilíbrio, mantendo a propriedade de autoorganização.

No quarto capítulo, Prado examina a compreensão de Hayek de sistema econômico como sistema complexo, comparando sua visão evolucionista com a visão praticamente reflexiva ou dialética do processo social e histórico. Esse evolucionismo da Escola Austríaca prega o conformismo diante dos automatismos do sistema capitalista. Ele fundamenta o neoliberalismo contemporâneo que nunca se envergonha do que prega e nunca se arrepende de nada que praticou.

Dialética trabalha com opostos que se transformam um no outro com movimentos constituídos de contradições progressivas. Engels anunciou três leis da dialética:

  1. transformação da quantidade em qualidade;
  2. interpenetração dos contrários; e
  3. negação da negação.

Em síntese, a dialética vem a ser a lógica do movimento sempre quando este apresenta mudanças qualitativas. Continue reading “Hayek: Evolucionismo versus Dialética”