Sobre o Equilíbrio Geral

Léon WalrasEleutério F. S. Prado, no capítulo “Capitalismo: Contradição e Dinâmica”, em seu livro “Economia e Complexidade” (São Paulo: Pléiade, 2014; Tomo III), disserta sobre a Teoria dos Preços elaborada por Léon Walras (1834-1910). Este autor neoclássico não raciocina dialeticamente, mas pensa sempre de modo cinemático: o que lhe interessa são somente os estados supostamente observáveis do processo mercantil – e não este processo enquanto tal.

Prado delineia, em grandes traços, o modo por meio do qual Walras pensa o sistema econômico. Concebe-o a partir do mercado – não da produção. Em perspectiva meramente positiva – o que é em sua aparência – da realidade social:

  1. ele não distingue entre valor e valor de troca;
  2. ademais, admitindo imediatamente a existência do dinheiro, identifica também prontamente o valor de troca com o preço;
  3. por fim, toma o valor de troca meramente como uma relação quantitativa.

Tudo está arranjado na concepção construída por Walras para apresentar a economia capitalista como um sistema harmônico. Como apreende o seu movimento real como uma mera sucessão de estados que transcorre em uma temporalidade mecânica, ele se torna capaz de representá-lo exaustivamente como um sistema de equações não-lineares que impressiona por sua grandeza e complexidade – e não tanto por sua coerência interna.

Walras compreende o capitalismo realmente existente por meio de um modelo de equilíbrio geral, isto é, como um nexo de transações mercantis que tende constantemente ao equilíbrio, portanto, à igualação entre as ofertas e demandas efetivas de todos bens e serviços aí existentes.

Ele compreende ainda o equilíbrio na velha tradição da Economia Política Clássica, ou seja, como um estado para o qual tende o movimento incessante dos preços de mercado: “esse estado de equilíbrio da produção é, bem como o estado de equilíbrio da troca, um estado ideal e não real”. Ele jamais ocorre de fato, “mas é o estado normal, no sentido de que é aquele para o qual tendem as próprias coisas no regime de livre concorrência” (Walras, 1983: 118).

Por que Walras pode compreender o sistema econômico teoricamente como um sistema de equilíbrio estático, tendo, aliás, plena consciência do que estava fazendo? Devido a sua alta qualificação como matemático, sabia que a economia real poderia em princípio ser representada mais adequadamente, em sua enorme diferenciação qualitativa e quantitativa, por um grande sistema dinâmico não-linear que se mostraria, se fosse explicitamente construído, não apenas altamente complexo do ponto de vista matemático, mas completamente intratável com as técnicas de resolução disponíveis em seu tempo.

Assim, ao invés de pensar a economia real por meio de um sistema dinâmico que opera fora e longe do equilíbrio, opta por representa-lo por meio de um sistema de equilíbrio sob a justificativa que o sistema real já sempre se encontra próximo do equilíbrio. Ora, admite – dogmaticamente, aliás – que esse sistema de equações dinâmicas, apresentado em seus escritos por meio da noção de tatonement [tateio], tem um atrator de ponto, para onde todas as trajetórias são conduzidas, não só único, mas também globalmente estável. Em consequência, ele pode pensar o comportamento dinâmico do sistema por meio de estática comparativa generalizada.

Supondo-se que os dados do problema – quantidades possuídas, curvas de utilidade, etc. – variem em função do tempo, “o equilíbrio fixo se transformará em equilíbrio variável ou móvel, restabelecendo-se por si próprio à medida que for perturbado” (Walras; 1983: 179).

Segundo Prado, o método de Walras suprime não apenas o caráter processual da realidade econômica, mas evita também a necessidade de apresentar o seu comportamento dinâmico aparente em toda a sua complexidade.

A primeira omissão decorre estritamente do caráter analítico e formal de seu método, pois ele não pretende apreender senão o modo de ser aparente do sistema econômico que estuda e representa.

A segunda omissão advém de um pressuposto ontológico – próprio da ontologia, a investigação teórica do ser – que afirma o caráter harmônico do próprio modo de desenvolvimento desse sistema capitalista.

Na perspectiva da dialética que vai além da aparência e que visa apreender não apenas os nexos externos, mas também os nexos internos que engendram os fenômenos, tudo se passa como se ele apreendesse a contradição básica do capitalismo, isto é, a contradição entre o valor de uso e o valor, assim como todas as que dela decorrem, por desenvolvimento lógico, considerando-as inerentemente harmônicas.

Desse modo, o problema dessa solução engenhosa é que “o leiloeiro walrasiano”, como representante ideal de O Mercado como um Todo e responsável por sua coerência global, vem a ser uma noção holística. Formulando-se assim o problema teórico central da análise de equilíbrio geral, afirma-se que existe um vetor de preços que compatibiliza o equilíbrio objetivo de O Mercado como um Todo com o equilíbrio subjetivo de todos os agentes econômicos que participam de O Mercado. Os preços de equilíbrio passam a ser explicados potencialmente a partir de preferencias e decisões individuais.

Walras simplesmente assumiu a priori que o equilíbrio gravitacional – ideia que vem de Adam Smith – existe, sem tê-lo demonstrado. Mas mesmo que apresentasse alguma prova de sua existência, ainda não resolveria plenamente a questão sob um ponto de vista individualista.

Afirma que o estado de equilíbrio da produção, bem como o estado de equilíbrio da troca, é um estado ideal e não real. Jamais ocorre

Mas é o estado normal, no sentido de que é aquele para o qual tendem por si própria as forças do mercado no regime de livre concorrência. Então, Walras não deriva os preços de equilíbrio das decisões e das ações dos indivíduos, mas sim da lógica do sistema como um todo!

Walras combinou, assim, um discurso individualista com um discurso holista, engendrando um conjunto cheio de contradições.

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