Sobre Processo Cumulativo

Knut_WicksellNasci um século depois de Johan Gustaf Knut Wicksell (1851-1926). No entanto, ainda necessito apelar a ele – o mais revolucionário entre os pensadores neoclássicos –, até hoje, para entender o que buscam fazer os Bancos Centrais.

Knut Wicksell usou a hipótese de “taxa de juros natural” a fim de explicar o suposto alcançável equilíbrio em longo prazo da taxa de juros. Em sua tentativa de adequar a Teoria Quantitativa da Moeda para uma real Economia de Endividamento Bancário, ele teve que desfazer a relação direta entre a quantidade em circulação da moeda e os preços. Criou, então, a abordagem através da oferta e demanda agregadas, desequilibradas via desajuste de “juro do mercado” em relação ao “juro natural”, como ponto de partida para explicar os movimentos do nível geral dos preços.

A Teoria Quantitativa explicava o nível de preços para o caso de uma oferta de moeda exógena com ajustamento endógeno da taxa de juros. Wicksell buscou explicar algo diferente: a taxa de variação dos preços para o caso de uma oferta de moeda endógena com taxa de juros exógena.

Ele desenvolve a Teoria Quantitativa da Moeda, inicialmente, para um Sistema de Crédito Puro em que todos os pagamentos são efetuados por transferências de crédito bancário. Neste sistema idealizado, não há controle da quantidade da moeda senão pela taxa de juros. Esta que é a reguladora monetária efetiva. Os bancos fixam taxas de juros e atendem com oferta de moeda a demanda de crédito dos tomadores de empréstimos que aceitam pagar tal nível dos juros.

Em um Sistema Bancário Desenvolvido, dentro de uma Economia Financeira Contemporânea, e não em uma “Economia de Feira-de-Aldeias Medievais” que funciona à base da troca ou apenas com pagamentos a vista, os distúrbios “reais”, responsáveis por flutuações na renda, conduz a variações na demanda por moeda. Estas são, passivamente, atendidas por variações na oferta de crédito por parte dos bancos, se estes não vão de encontro à barreira de suas capacidades de empréstimos, estabelecidas por suas reservas.

No caso dessa real Economia de Endividamento Bancário, onde o mecanismo equilibrador endógeno por forças de livre-mercado não atua, o Banco Central tem de manipular a taxa de juros com o intuito de estabilizar o nível de preços.

A abordagem de Wicksell distingue-se, portanto, da abrodagem monetarista, pois não são as variações ativas na base monetária controlada pelo Banco Central que são a fonte de distúrbio. Ele enfoca variações no fluxo de crédito intermediado pelos bancos, mais do que variações no estoque da moeda central. Apresentou os fundamentos teóricos para a prática de um Regime de Meta de Inflação, estabelecida através da ação discricionária da Autoridade Monetária sobre a taxa de juros básica, anunciada periodicamente.

A interpretação de seus discípulos da Escola de Estocolmo é que Wicksell, apesar dele conceber seu Processo Cumulativo como um elo entre a Teoria Quantitativa e o mundo real, foi de que ele forneceu as bases para uma abordagem fundamentalmente distinta. Considerou que a Teoria Quantitativa da Moeda não possuía o atributo da generalidade, devido à sua inaplicabilidade a um sistema de crédito contemporâneo, com oferta de moeda creditícia endógena. Portanto, a reabilitação que Wicksell fez da Teoria Quantitativa da Moeda foi, na realidade, sua destruição!

Os principais avanços do Processo Cumulativo, formulado por Wicksell, são:

  1. contrapõe as noções de demanda monetária agregada e de oferta agregada, para análise do nível geral de preços de bens e serviços;
  2. analisa o sistema fora de equilíbrio, criticando a Teoria Quantitativa da Moeda pela análise e comparação somente de estados de equilíbrio, deixando de fora o processo dinâmico;
  3. leva em conta o sistema bancário desenvolvido e o mecanismo indireto de transmissão monetária via taxa de juros.

O Processo Cumulativo descreve um sistema onde os movimentos no conjunto dos preços monetários não forçam necessariamente uma operação em direção ao equilíbrio. Wicksell considerou a natureza desse Equilíbrio Monetárioindiferente – como fundamentalmente distinto do Equilíbrio dos Preços Relativos, cuja tendência ao equilíbrio estável é inerente.

Uma vez perturbado, o Equilíbrio Monetário poderia ser restaurado, supõe, por meio de uma taxa de equilíbrio especial, a chamada Taxa de Juros Normal sobre empréstimos. Sob a mais realística premissa de um Sistema Misto de Pagamento (a vista e a crédito), as variações nos preços monetários, como ligações entre o mercado monetário e o mercado de bens e serviços, forçam a Autoridade Monetária buscar estabelecer essa taxa em processo experimental pleno de tentativas e erros.

Um ciclo monetário seria causado pela discrepância entre a Taxa de Juros de Mercado e a Taxa de Juros Natural. Para eliminar essa causa de instabilidade no nível geral dos preços, as duas taxas teriam de se igualar. Entretanto, a Taxa Natural de Juros não é fixa. Flutua conjuntamente com todas as causas reais de flutuações econômicas. Uma coincidência das duas taxas (a de Mercado e a Natural) é, portanto, pouco provável.

Wicksell coloca a responsabilidade desse ajustamento recaindo sobre os bancos – “suas obrigações para com a sociedade são muito mais importantes do que suas obrigações privadas”. No entanto, não há como os bancos conhecerem a Taxa Natural antes de fixarem suas próprias Taxas de Juros de Empréstimos. Isto é impraticável, dado que “a Taxa de Juros Natural é hipotética, correspondendo àquela que equilibraria o sistema”. Na realidade, o nível corrente de preço dos bens, isto é, a Taxa de Inflação, fornece o indicador ex-post para concordância ou discordância das duas taxas.

O procedimento deve ser simplesmente o seguinte:

  1. enquanto os preços permanecerem inalterados, a taxa de juros bancários deve permanecer no mesmo nível;
  2. se os preços subirem, a taxa de juros deve ser elevada;
  3. se os preços caírem, a taxa de juros deve ser diminuída.

A taxa de juros deve, assim, ser mantida neste novo nível até que outro movimento de preços exija nova mudança em um sentido ou em outro. Simples, não? Até com “2 neurônio” (sic) se consegue…

Na opinião de Wicksell, a causa principal da instabilidade nos preços está na incapacidade dos bancos seguirem essa regra (a não ser que esgotem as reservas emprestáveis), pois uma queda nas taxas de juros de empréstimos pode diminuir suas margens de lucro mais do que aumentar o nível de seus negócios. Nesse caso, supõe uma inelasticidade da demanda ao preço do crédito. Mas isso não é contraditório justamente com o que ele diz que detona o Processo Cumulativo?

Leia mais: Lei das Duas Taxas de Juros

One thought on “Sobre Processo Cumulativo

  1. “Sistema Misto de Pagamento (a vista e a crédito)” Caro Professor, este aspecto é muito interessante e para explorar, nomeadamente a questão dos registos contabilísticos entre empresas ou seja o “o crédito comercial”, que influi na reputação e sistemas de rating empresarial, e o seu papel substituto face ao “crédito bancário” e outros instrumentos de pagamento business-to-business. E também as perspectivas tecnológicas que permitem as empresas criarem os seus próprios sistemas parabancários para gestão colaborativa de fundo de maneio (no Brasil designado como “Capital de Giro”) e atingir poupanças de tesouraria que permitem por sua vez libertar fundos para investimentos. Como já tem vindo a acontecer no sector segurados com as seguradoras cativas… também é muito provável que grandes multinacionais e pequenas venham a criar “fábricas de pagamentos” considerando o custo de oportunidade e evolução tecnológica. Perante isto acredito que estaremos a evoluir para um modelo similar ao de diversos conglomerados japoneses que absorvem muitas vezes bancos nas suas estruturas..

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