Abordagem da Complexidade: Economia do Não-Equilíbrio

Redes não é bem assim é mais assimSegundo Fernanda Graziella Cardoso, em Elementos para a Integração Analítica da Micro e da Macroeconomia, Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado do IE-UFRJ, em agosto de 2008, cujo orientador foi meu ex-colega Prof. Dr. Mário Luiz Possas, a Teoria da Complexidade representa um esforço de analisar o funcionamento de sistemas altamente organizados, mas descentralizados, compostos por diversos elementos heterogêneos.

O método da Teoria da Complexidade é altamente indutivo. Os modelos construídos sob a ótica dessa abordagem, em geral, envolvem o estudo da interação de um grande número de componentes em simulações computacionais com o objetivo de identificar propriedades generalizáveis.

Além disso, uma característica comum a esses sistemas complexos é que seus componentes e regras de interação são não-lineares, ou seja, não dependem de desenvolvimento sequencial. Não se estabelece uma relação na qual a variação de uma das quantidades é acompanhada por uma variação exatamente proporcional da outra quantidade. Os computadores desempenhariam então um papel crucial nesse tipo de pesquisa, pois se torna extremamente trabalhoso, senão impossível, inferir diretamente a dinâmica de sistemas não lineares caracterizados por alto grau de complicação.

Os sistemas complexos surgem, naturalmente, na economia. Os “elementos” do sistema, isto é, os agentes econômicos, reagem estrategicamente e de maneira criativa ao considerarem os resultados que podem se seguir como consequência da ação que venham a realizar. É exatamente a particularidade desses agentes – que não são cobaias, pois são capazes de reflexão e autodeterminação, mas possuem também caprichos, emoções e fobias –, o fator que adiciona à Economia uma complicação que não existe nas Ciências Naturais.

As diferenças entre a abordagem dos economistas tradicionais e a dos adeptos da Teoria da Complexidade residem tanto na estabilidade quanto na velocidade do ajustamento para o futuro. A concepção econômica tradicional advoga que os indivíduos aprendem relativamente rápido e por isso se comportam de maneira otimizadora. Em contrapartida, o ambiente econômico se modifica de maneira suficientemente lenta. Consequentemente, tem-se uma situação na qual os indivíduos não têm necessidade de continuar a aprender.

Aqueles que compartilham da ideia de que a economia é um sistema complexo adaptativo argumentam que os processos de aprendizagem e adaptação – e o próprio feedback das consequências daquela adaptação – geram uma dinâmica altamente complicada, impossibilitando a convergência para um equilíbrio, como espera o padrão do pensamento econômico ortodoxo.

quatro propriedades dos sistemas adaptativos complexos. A primeira propriedade citada é a da agregação, a qual se refere à emergência de comportamentos complexos de grande escala a partir de interações de agentes menos complexos. Ademais, o agregado comportar-se-ia como agente em um sentido mais amplo, como se fosse um meta-agente. Por sua vez, a interação desses meta-agentes geraria outro agregado, que representaria então um meta-meta-agente, e assim sucessivamente.

A segunda propriedade destacada é a não-lineariedade. Um sistema com tal propriedade é não determinista, pois suas trajetórias são imprevisíveis. Assim, sistemas não-lineares podem apresentar uma diversidade de trajetórias e destinos, devido às interações que tornam o comportamento agregado mais complicado do que seria previsto a partir de relações lineares.

A terceira propriedade indicada é a de fluxos sobre uma rede de nós e conectores. De forma geral, os nós são processadores, isto é, agentes, e os conectores designam as interações possíveis. Nos sistemas adaptativos complexos, os fluxos através dessas redes variariam com o decorrer do tempo e, além disso, nós e conexões podem aparecer e desaparecer na medida em que os agentes se adaptem, seja de forma satisfatória ou não. Dessa maneira, os fluxos e as redes seriam padrões que refletem adaptações mutantes na medida em que o tempo passa e a experiência se acumula.

Ainda com relação aos fluxos, eles possuem duas propriedades importantes para todos os sistemas complexos. A primeira delas é o chamado efeito multiplicador, que ocorre por meio da injeção de um recurso adicional em algum nó. De maneira geral, tal recurso seria passado de nó em nó, possivelmente sendo transformado no decorrer do caminho, e produziria uma cadeia de mudanças. A segunda propriedade é o efeito reciclagem, ou seja, o efeito dos ciclos nas redes, destacando que o efeito global de tal propriedade em uma rede com muitos ciclos poderia ser ainda mais inesperado.

A quarta propriedade dos sistemas adaptativos complexos é a da diversidade, a qual não seria nem acidental, nem aleatória. A permanência de qualquer agente no sistema dependeria do contexto fornecido pelos outros agentes. Grosso modo, cada tipo de agente ocuparia um nicho definido pelas interações centradas no agente. Se um determinado tipo de agente fosse removido do sistema, criando uma espécie de “lacuna”, o sistema responderia com uma cascata de adaptações, resultando então em um novo agente que ocuparia tal espaço. A diversidade também poderia surgir na medida em que a propagação de um novo agente originasse um novo nicho, ou seja, oportunidades para novas interações, o qual poderia ser então explorado pelas modificações de outros agentes.

Os modelos construídos sob a ótica da abordagem da complexidade pretendem ser mais flexíveis e abrangentes do que os modelos tradicionais, uma vez que levam em consideração uma dinâmica muito mais rica, a heterogeneidade dos agentes e a importância das instituições. Destacando as diferenças entre os modelos baseados na teoria econômica tradicional e os baseados na abordagem da complexidade, embora em ambos a unidade de análise seja o indivíduo, sob a perspectiva da complexidade, o suposto da prática da racionalidade não é sinônimo de otimização.

Os agentes econômicos não seriam então vistos como átomos passivos, e sim como autômatos que se adaptam de forma ativa. O autômato pode ser visto como um indivíduo de comportamento maquinal, executando tarefas ou seguindo ordens como se destituído de consciência, raciocínio, vontade ou espontaneidade, mas também pode ser considerado como um dispositivo lógico ou eletromecânico destinado a concatenar operações, visando obter um determinado resultado. As interações podem ser globais ou locais e a ideia de “agente representativo” é descartada em favor da consideração explícita da heterogeneidade e das relações interativas dos agentes.

A Economia Neoclássica reducionista apresenta como questão norteadora quais ações, estratégias ou expectativas dos agentes estariam em conformidade com o padrão que esses comportamentos criam de maneira agregada. A Abordagem da Complexidade permite, por sua vez, questionar algo mais abrangente: quais ações, estratégias ou expectativas dos agentes podem reagir aos padrões que elas criam? Em outras palavras, tal abordagem alternativa tornaria possível a análise de como a economia se comporta fora do equilíbrio, não constituindo, portanto, um mero complemento à Teoria Neoclássica, e sim uma forma mais geral e abrangente de encarar os fenômenos econômicos.

É possível contrapor dois modos de tratamento de as unidades econômicas, as suas interações e os resultados conjuntos de tais ações individuais: o reducionista e o sistêmico. No caso do reducionista, os Todos econômicos seriam entendidos como agregações. No caso do sistêmico, eles seriam compreendidos como sistemas ou como composições globais, já que as interações que os constituem, constituem em processo também os próprios agentes enquanto tais.

Ademais, a análise da interação dos indivíduos, sob a perspectiva de um método sistêmico, deve ser necessariamente dinâmica. A interação dos indivíduos condicionada pela estrutura define o modo de composição do sistema, que, por sua vez, modifica em processo o comportamento dos indivíduos. Por isso, a explanação é necessariamente dinâmica. O movimento sintético que explica a propriedade macroeconômica parte dos indivíduos, mas o faz também pela composição do sistema.

Assim, em linhas gerais, podem ser identificadas algumas características fundamentais dos sistemas econômicos complexos:

  1. são sistemas compostos por agentes idiossincráticos com potencial de aprendizado e adaptação;
  2. ocorrem interações entre os agentes do sistema que são coordenadas por normas, instituições e organizações endógenas, e não há nenhum mecanismo global de controle;
  3. tais sistemas podem apresentar mecanismos de auto-organização e estruturas emergentes que resultam tanto da agregação quanto da interação de suas partes.

Por conta dessas características, o novo emerge recorrentemente no sistema econômico. Logo:

  1. o sistema econômico encontra-se em permanente processo de adaptação e renovação e
  2. opera, em geral, fora do equilíbrio, conforme o sentido clássico do termo.

A Abordagem da Complexidade permite, então, a consideração de uma série de características do sistema econômico que não são exploradas e explicadas de modo satisfatório pela teoria econômica de orientação neoclássica, baseada nos pressupostos de equilíbrio e maximização. Tal perspectiva teórico-metodológica alternativa auxiliaria, em larga medida, na busca por elementos que fundamentem uma análise dinâmica e interativa dos níveis micro e macroeconômico.

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