Estabilizando o Sistema de Preços Relativos

Equilibrio por um fioA moeda creditícia é não-neutra. Ela pode ser passiva, quando sanciona as alterações do sistema econômico provindas de mudanças de expectativas. Nesse sentido, a moeda creditícia, simplesmente, acomoda as decisões econômicas (de produzir, de investir, de consumir, de formar estoques, de fixar preços, etc.) tomadas no chamado setor real. Se o sistema bancário aumentar o volume de crédito através da diminuição da taxa de juros de mercado, ou vice-versa, as alocações reais serão afetadas.

Os critérios de Equilíbrio Monetário, no entanto, não determinam o sistema econômico como um todo. De acordo com Gunnar Myrdal, essa teoria se refere somente aos agregados macroeconômicos.

Outros comentários críticos realizados por Myrdal a respeito da teoria de Wicksell a enriquecem. Por exemplo, acha que elementos monopolísticos podem (e devem) ser prontamente incorporados. O grande obstáculo para a análise prática baseada nesta teoria é geralmente apresentada pela diferença entre efeitos de “curto prazo” e de “longo prazo”. Tem que se trabalhar diferentes condições de crédito. Há ainda a dificuldade baseada no fato que não somente a política monetária, mas também todas as outras políticas econômicas atuam sobre a posição de Equilíbrio Monetário. Por fim, destaca o problema surgido de “complicações internacionais”. A teoria de Wicksell é válida, primariamente, para “economia fechada”. É aplicável diretamente, em análise geral, em termos de economia mundial, somente se as fases do ciclo de negócios se sincronizam, justamente, em todas as partes do mundo.

Embora seja, obviamente, teoria muito formal, ela não contém elementos que a excluem da possibilidade de reparos e adaptações em todos os pontos, em correspondência com os fatos observados. Por isso que é cientificamente tão frutífera.

A terceira condição, para o Equilíbrio Monetário, no sistema de Wicksell, está relacionada com as condições do mercado de bens. A Taxa de Juros Normal é aquela taxa de mercado capaz de estabilizar o nível geral dos preços dos bens e serviços. No entanto, Myrdal mostrou que as condições desse equilíbrio, em si, só permitem a estabilização do nível dos preços absolutos, desde que esse movimento seja perfeitamente uniforme para diferentes preços, ou seja, sem alteração do sistema de preços relativos.

Realisticamente, para Myrdal, essa hipótese é insustentável. Em primeiro lugar, há contratos de crédito, estipulando taxa de juros fixas, e outros contratos, com taxas flutuantes, que se estendem ao longo do tempo. Em qualquer movimento do nível geral dos preços, que não tenha sido antecipado com plena certeza por todos aqueles que tomam parte na formação de preço, a distribuição de rendas e propriedades deve necessariamente mudar. Consequentemente, a demanda e a oferta de diferentes mercadorias variam, assim como suas relações de preços, inclusive a relação específica de preços relevante para se atingir Equilíbrio Monetário.

Mas há um elemento geral de inércia no ajustamento do sistema econômico às variações. Alguns preços reagem mais rapidamente e outros mais vagarosamente. Ademais, sob oligopólio, ou seja, em mercados com pequeno número de grandes competidores, preços existentes são, frequentemente, administrados pela política de manutenção de preços mesmo que ocorram violentas mudanças na demanda.

Myrdal mostra, assim, a inércia na formação dos preços e a inflexibilidade desses preços administrados como restrições impostas sobre o sistema de preços relativos. Uma política monetária adotada para preservar as relações de equilíbrio deve, então, compensar as variações dos preços flexíveis com o nível rígido dos preços fixos.

O Índice Geral de Preços avalia a evolução mensal de uma média ponderada dos preços dos bens e serviços de uma cesta básica de consumo, reavaliada em prazos largos através de Pesquisas de Orçamentos Familiares. Se os preços flexíveis se dispersam e alguns preços rígidos se mantém, dedutivamente, essa média ponderada se eleva, pois não há possibilidade de movimentos compensatórios de altas e baixas.

No caso da hipótese em que todos os indivíduos antecipam todas as variações dos fatores primariamente determinantes de preços, e todos os efeitos dessas variações, os agentes econômicos tornam-se independentes dos fatores da inércia, dada por busca de compatibilidade distributiva. Mas, na realidade, há sempre incerteza a respeito dos preços futuros. Desde que todas as reações de formação de preços levam tempo, as condições de Equilíbrio Monetário fornecem, para Myrdal, em função dessas duas razões, apenas referências abstratas para a evolução do nível geral dos preços.

Rigidez menor dos preços de diferentes bens e serviços, e para os mesmos bens e serviços em vários mercados, depende de diferentes circunstâncias institucionais – lei, convenção, hábitos de consumo, métodos de produção, padrões de propaganda, políticas de preços, todo tipo de elemento monopolístico, e várias outras circunstâncias – que determinam as condições de reação para preços em diferentes mercados. Essas condições estão relacionadas não somente com a oferta e a demanda, mas também com o preço de oferta e o preço de demanda.

Logo, o nível geral dos preços, sob hipotético Equilíbrio Monetário, deve atender essas condições quase irrealistas. Só assim haveria o cumprimento das condições de equilíbrio das relações de preços com a menor possível variação dos preços rígidos.

Em sua investigação da terceira condição de Wicksell – preservar o nível geral dos preços estável –, Myrdal conclui, portanto, que o Equilíbrio Monetário é determinado pelas duas primeiras condições mais fundamentais, ficando essa terceira condição em segundo plano. A variação uniforme em todos os preços monetários não afetaria nenhum investimento nem perturbaria o equilíbrio no mercado de capitais, desde que os agregados nominais variassem na mesma proporção. Mas as variações nos componentes do nível geral dos preços não são uniformes. Na realidade, alguns preços monetários, como valores de capital, são altamente flexíveis, enquanto outros, especialmente salários, são muito rígidos. Estes últimos colocariam restrição sobre o sistema de preços relativos se acomodar em determinada média geral dos preços.

Concluindo que a terceira condição é privada de significado, para a determinação do Equilíbrio Monetário, Myrdal salienta, no entanto, que ela tem a função prática de ser usada como indicador para política monetária, objetivando restaurar eventual distúrbio. Isto não significa estabilização do nível geral dos preços, mas sim mitigação do ciclo de negócios, trazida pela adaptação dos preços flexíveis aos mais rígidos. Poderia ser alcançado pela estabilização do índice daqueles preços que são, em si, rígidos. Na prática, significaria manter estabilidade de salários, enquanto se movem os valores dos ativos do capital.

Essa reconstrução por Myrdal das condições de equilíbrio de Wicksell parece realista e plausível, visto que a maioria das firmas em uma economia contemporânea atua nos mercados variando seus graus de competição imperfeita. Porém, ele não explicitou uma explicação de como é alcançada a adequação dos preços flexíveis aos níveis dos preços inflexíveis, estabilizando o sistema de preços relativos. Nivelando tudo por baixo, em uma recessão que force liquidações com abaixamento de preços?

A “santa paz dos cemitérios” parece ser “o equilíbrio monetário” almejado por economistas depressivos…

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